Ton Carfi sai do gospel raiz e lança ‘Cantares’, seu álbum romântico
Ele falou à Billboard Brasil sobre gospel, funk, pagode e a nova gravadora

Ton Carfi (divulgação)
“Zerei a vida” é frase que Ton Carfi costuma usar para descrever momentos de virada. E é basicamente o que ele fez ao decidir, depois de duas décadas cantando música gospel, gravar um álbum inteiro sobre amor. Em entrevista à Billboard Brasil, o cantor falou sobre “Cantares”, seu primeiro disco romântico, e sobre como gospel, funk e pagode têm mais em comum do que parece.
Do gospel periférico ao R&B, passando pelo funk e o pagode
Antes de falar sobre o novo trabalho, Ton Carfi reflete sobre as origens do gênero em que construiu a carreira. Para ele, gospel e periferia estão profundamente conectados, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos. “A origem do gospel vem periférica. Você vai olhar a história da música gospel americana, é uma história de escravidão, é uma galera que veio da escravidão, o Luther King, a segregação, a marcha de Selma, grandes cantoras como a Aretha Franklin, eles vêm de uma origem periférica. Aqui no Brasil também, a maioria dos cantores de funk cresceu na igreja, vem de origem periférica.”
Segundo ele, o gospel hoje reúne diversas vertentes musicais (pagode gospel, samba gospel, rap gospel, rock gospel, pop, MPB) e recebe esse nome pela mensagem da letra, não pelo estilo musical em si. “Mas em termos de origem, quando você fala ‘cantor gospel’, você imagina a voz da pessoa, uma forma de cantar que vem de um sofrimento. É uma parada que é do soul, que é a alma.”
É dessa raiz comum que vem sua ligação com o funk e o pagode. “Eu cantava numa linha próxima do Timbaland, em uma pegada de R&B, meio black, inspirado em Boyz II Men, Brian McKnight, esses americanos.” Segundo Ton Carfi, artistas como Péricles, Thiaguinho e Dilsinho já disseram que ouviam seu trabalho com frequência, mesmo antes de saberem que se tratava de gospel, atraídos justamente pela sonoridade e pela forma de cantar. O cantor Livinho, inclusive, foi aluno de canto de Ton Carfi, atraído pela mesma referência vocal. “Isso fez com que eu me conectasse com esse universo também do pagode e do funk.”
‘Cantares’: o primeiro álbum romântico da carreira
É dentro desse universo de R&B mais romântico que nasce “Cantares”, álbum que Ton Carfi descreve como uma novidade dentro da própria trajetória. “Esse álbum tem duas peculiaridades. Uma é que é o primeiro álbum romântico que eu lanço. Eu lancei alguns álbuns que eram tipo 99% gospel, mas sempre tinha uma música lá que era romântica. De uns tempos pra cá eu parei de fazer isso, só gospel, mas eu tinha vontade de fazer o romântico.”
O projeto ganhou forma depois que Ton Carfi deixou a gravadora Som Livre e fundou a própria, a Rocket Music Brasil. “Não que a Som Livre tenha me barrado em relação a isso, nada disso. Mas eu entendo que você tem que ser mais comercial pro teu nicho, é um álbum romântico, pro meu nicho ele não é um álbum que eu vou ter garantia de fazer shows. Agora que eu saí, abri minha própria gravadora, falei: ‘Eu vou ter mais liberdade agora, e vou lançar aquilo que eu quero lançar’.”
O nome do álbum também carrega uma referência bíblica. “A Bíblia tem um livro no meio dela chamado ‘Cantares’, que é um livro romântico, que Salomão escreveu.” O disco tem cinco faixas: duas mais próximas do R&B dos anos 2000 que marcou sua formação musical, “a galera do Boyz II Men, Mariah Carey, Brandy, Brian McKnight, um pouco do Usher também”, e outras três mais pop, com uma delas puxando um pouco para o sertanejo. “Fiz porque, já que não tenho grandes pretensões comerciais com esse álbum, pelo menos vou fazer algo que eu gosto de ouvir. É o álbum que eu mais ouço, todos os dias eu estou ouvindo.”
Outro ponto que, segundo ele, diferencia “Cantares” das demais produções do gênero é a abordagem das letras. “A maioria das músicas gospel românticas só fala de coisinha bonitinha: ‘Vou viver com você pra sempre, vai dar certo’. E a gente sabe que na vida real não é assim. Nesse álbum eu abordei também dilemas da vida a dois, abordei separação, um monte de coisa que na música gospel, mesmo romântica, normalmente não existe.”
A escolha gerou receio antes do lançamento. “Fiquei um pouco receoso: ‘Qual será a reação da galera?’ Mas o que eu ouvi foi: ‘Ai, chorei muito ouvindo a música, uma pessoa errou comigo e tal’. E coisas boas também, pelo menos não apareceu nenhum tipo de rejeição ou crítica ao álbum.”
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Um histórico de inovação dentro do gospel
Ton Carfi lembra que essa não é a primeira vez que decide romper com convenções do gênero. Em 2011, ele foi o primeiro artista da música gospel brasileira a lançar uma faixa eletrônica. “Não existia música eletrônica no gospel, e eu fiz isso em 2011. Na época foi muito disruptivo dentro da música gospel. Muita gente não entendeu no início: ‘O que que é isso? O que que esse cara está fazendo? Isso aí não é música de Deus não, isso é música de balada’.”
Segundo Ton Carfi, essa disposição para inovar também aparece em parcerias com cantores de outros gêneros musicais ao longo da carreira. Com “Cantares”, a ideia é dar sequência a essa linha romântica de forma recorrente. “Eu quero lançar um álbum romântico por ano, sempre na época do Dia dos Namorados. Com 20 anos de carreira, você já pode arriscar algumas coisas a mais.”
Ouça ‘Cantares’, de Ton Carfi
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