‘Quero expressar minha verdade’: ANNA prepara noite histórica no Brasil
Em entrevista para a Billboard Brasil, DJ celebra 'All Night Long' no Ame Club

ANNA no Ame Club (divulgação)
Após se consolidar como uma das artistas mais relevantes da cena eletrônica global, a DJ e produtora brasileira ANNA, atualmente radicada em Portugal, se prepara para um reencontro histórico com o seu país. No dia 25 de julho, o Ame Club, em Valinhos (SP), será o palco de seu primeiro “All Night Long” no Brasil – uma apresentação única e exclusiva na qual ela comandará a pista do início ao fim.
Conduzida em um formato híbrido que une sets em vinil e digital, a noite reflete a multiplicidade de referências, plataformas e linguagens que acompanham a caminhada de ANNA ao longo de mais de duas décadas de carreira. Do clube de seu pai, na cidade de Amparo, no interior de São Paulo, até as pistas que marcaram sua expansão internacional, ANNA construiu uma relação profunda e intuitiva com a música. É justamente essa conexão afetiva que guia a proposta, nascida como uma celebração de sua trajetória e um encontro especial entre o passado e o presente.
Em entrevista exclusiva para a Billboard Brasil, ANNA abriu o coração sobre a expectativa de tocar a noite toda para o público brasileiro, relembrou os tempos em que seu maior sonho de vida era apenas conseguir pagar um aluguel em São Paulo e detalhou como a maturidade e a espiritualidade transformaram sua relação com as pistas de dança.
Billboard Brasil: ANNA, você já tem mais de 20 anos de carreira, mas eu queria entender o porquê de fazer agora esse “All Night Long” aqui no Brasil. O que você sentiu para colocar essa ideia em prática neste momento?
ANNA: Eu já estou com essa ideia há muito tempo. Primeiro, eu saí do Brasil para construir minha carreira, fiz mais sucesso lá fora. Olhando para trás hoje, isso foi muito bom. Eu sou brasileira, toco desde 2002, participava dos clubes e festivais aqui, mas nunca tinha tido uma ascensão tão grande. Eu me expandi, pesquisei muito e comecei a crescer bastante no exterior.
Quando as pessoas no Brasil começaram a prestar mais atenção, eu meio que ganhei um frescor, virei uma novidade no meu próprio país. Isso começou a acontecer forte depois de 2017 e teve uma ascensão maior em 2022 e 2023, após a pandemia. Exploramos bastante essa conexão e acho que agora é a maneira de trazer a minha energia 100%, de ter mais tempo para as pessoas me entenderem.
É o momento perfeito, nos conhecemos mais, então podemos ir mais fundo. Quero trazer o meu conceito, o meu campo de energia para as pessoas se conectarem. É o meu primeiro, não sei como vai ser depois, mas senti essa necessidade de trazer o meu jeitinho, como o gathering que faremos antes do show. É uma vontade de me conectar profundamente com o público do Brasil.
E foi muito interessante porque você começou a ganhar destaque lá fora e aí rolou esse estalo no Brasil. Isso calhou com o momento em que o país começou a enxergar e valorizar mais os seus próprios DJs, além do retorno do Tomorrowland. Parece que as coisas se alinharam, né?
Exatamente. O Tomorrowland foi tudo. Eu toquei os três dias e aquele b2b que fiz com o Vintage Culture teve muita repercussão, trouxe muitos fãs novos. Foi tudo o universo se alinhando para isso acontecer.
Você que saiu do interior de São Paulo, conquistou o mundo e agora volta para o interior para fazer essa noite especial no Ame Club. O que você acha que a ANNA de 14 ou 15 anos pensaria se visse tudo isso?
Gente, é uma loucura total. Eu lembro que quando comecei, com 14 anos, o meu maior objetivo de vida era ter dinheiro para pagar um aluguel e viver em São Paulo sendo DJ. Eu nem imaginava um sucesso ou uma expansão desse tamanho, de sair do Brasil e tocar nos maiores festivais do mundo. Era uma dimensão que eu nem acessava na minha mente. Mas eu tinha tanto amor e dedicação que os caminhos foram se abrindo. Se ela visse isso hoje, estaria estática, não iria acreditar. Mas foi graças a ela.
Eu lembro que as pessoas geralmente tentam se convencer de que vai dar certo, mas, no meu caso, eu pensava: “Gente, é impossível não dar certo”. Eu tinha esse drive, essa confiança de que, de alguma maneira, ia acontecer. E demorou. Toquei por quase 15 anos sem dinheiro, sem assinar em selos grandes, mas eu já via aquilo como sucesso.
Até porque o sucesso é muito relativo para cada um, né?
Sim! Eu conversava muito sobre isso com a minha mãe. O que é chegar lá? Para mim, antes, era viver da minha música, sair na capa da Mixmag quando as revistas impressas eram o auge. Cada um tem o seu momento de chegar lá. Tem gente que atinge coisas supergrandes e ainda quer mais e mais. Eu tento não cair nessa armadilha de olhar para o lado e me cobrar porque outra pessoa atingiu algo diferente.
Quero sempre expandir, não quero ficar estagnada, mas cheguei a um momento da minha evolução em que não trabalho mais por uma meta ou por um lugar específico onde quero tocar. Meu foco é expressar a minha verdade. Isso para mim é o sucesso. Prefiro que uma única pessoa ouça a minha verdade do que um milhão de pessoas ouçam algo falso que fiz só pelo hype.
Essa verdade vai estar muito presente no “All Night Long”, que terá vinil e digital. Como você vai equilibrar esses dois lados para contar a sua história na pista?
Eu vou levar muita música não lançada. Eu amo tocar com vinil. Quando comecei, passei dez anos tocando só com vinil. Quando tive que mudar para o CDJ, foi uma luta, eu dizia que jamais tocaria naquilo. Então, o vinil faz parte da minha história. A ideia é mesclar a noite inteira, não vai ser uma hora de vinil e o resto digital. Vou alternando. As músicas mais antigas que marcaram a minha trajetória vão no vinil, e as faixas inéditas, os promos e test pressings, entram no digital.
Trazer o vinil é algo simbólico, remete à época em que eu tinha dez anos e passava o dia ouvindo discos com o meu pai. É uma forma de trazer minhas técnicas e minha história para o público.
E a sua família vai comparecer em peso nessa noite? Já tem excursão planejada?
Meu irmão está sendo o promoter oficial em Amparo! Vai vir um ou dois ônibus com umas 100 pessoas, toda a minha família vai. Minha mãe, meus primos, todo mundo. Meu pai está meio doentinho, não sei se vai conseguir ir, mas acho que sim. Meu irmão já vendeu um monte de ingressos por lá, ele é maravilhoso como promoter. Vai ser uma noite muito especial.
Você está em uma nova fase, com uma conexão muito forte com o lado mais consciente, terapêutico e espiritual. Como isso vai se refletir nessa noite?
Esse caminho mais consciente começou fortemente em 2017. Sempre foi algo muito pessoal, tanto que as pessoas nem percebiam de início, mas a minha relação com a música mudou e ficou mais profunda. Deixou de ser apenas para dançar e virou uma ferramenta de expansão. Comecei a fazer experimentos comigo mesma, usando instrumentos e frequências, e os convites para compartilhar isso com o mundo surgiram naturalmente.
Lancei o álbum “Intentions”, que teve colaborações com Jon Hopkins e Laraaji, algo que considero um milagre. Na pandemia, fui ainda mais fundo no ambient music e na cura sonora. Hoje, a maneira como ofereço a minha música expandiu. O leque abriu. Continuo fazendo som para a pista, para dançar e celebrar, mas agora há também esse espaço introspectivo. Foi um resultado natural da minha expansão de consciência.
Você transita por muitos gêneros dentro e fora da música eletrônica, do techno mais pesado ao house, e o seu público parece abraçar isso muito bem. Você sente que os fãs hoje estão mais abertos a essas experiências?
Sim, eles entendem. Meu agente no Brasil me disse uma coisa muito legal: hoje, as pessoas que vão me ver no Brasil não vão pelo gênero musical, elas vão para ver a ANNA. Ela pode tocar o que quiser. Recebi uma mensagem engraçada de um fã dizendo que eles dividem as minhas apresentações entre a “ANNA de branco” e a “ANNA de preto”. A de branco faz os sets mais melódicos, com mais groove, e a de preto vai no techno mais pesado. Eu achei isso o máximo!
Tanto que, na divulgação dessa noite, brinquei que teremos as duas. Estou pensando em começar a noite com uma roupa branca e, no meio do set, trocar para uma roupa preta quando o som começar a pesar. É muito bom ver que o público aceita e entende que eu sou mais de uma coisa só. Não gosto de me limitar a um gênero, isso me sufoca.
Para finalizarmos, você sempre foi uma artista movida por intenções claras. Qual é a sua principal intenção para o restante de 2026?
Minha intenção é continuar criando a partir de um lugar de verdade e de inspiração. Quero que as minhas criações ajudem as pessoas a se conectarem com elas mesmas. Recentemente, recebi o feedback de um fã que me disse: “ANNA, quando escuto você tocar, eu me conecto comigo mesma”. É exatamente isso. Quero facilitar para que as pessoas descubram o seu próprio poder interno.
O mundo está muito louco e vai ficar ainda mais confuso para discernir o que é real. A solução será olhar para dentro, conectar com o coração, e a música é a ferramenta perfeita para isso, porque a frequência vai direto ao ponto, sem barreiras. Tudo o que estou oferecendo agora é para trazer as pessoas para esse centro.
Ouça os maiores sucessos de ANNA
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