Harmonia pelo contraste e ‘tensão’: como Nelson Motta pensa o Doce Maravilha
Edição 2026 traz encontros como Caetano e Emicida e Bethânia e Paulinho da Viola

Nelson Motta (Divulgação)
Aos 81 anos, Nelson Motta continua olhando para a música brasileira com a mesma curiosidade que o transformou em um dos nomes mais influentes da cultura do país. Jornalista, produtor, compositor, escritor e diretor artístico, ele atravessou diferentes eras da indústria musical — da consolidação da MPB ao streaming — sem perder o interesse por novas conexões, artistas e formatos.
Essa disposição para aproximar universos distintos está no centro do Doce Maravilha, que acontece nos dias 8 e 9 de agosto, no Jockey Club Brasileiro, no Rio de Janeiro. Ao lado de Luiz Oscar Niemeyer, Motta ajuda a conduzir um evento que nasceu da ideia de celebrar a diversidade da música brasileira e promover encontros que dificilmente aconteceriam em outros contextos.
Para o curador, o segredo não está apenas em reunir grandes nomes no mesmo palco. A lógica do festival passa por um conceito que ele define como “harmonia pelo contraste”: a crença de que artistas aparentemente opostos podem encontrar pontos de conexão justamente por suas diferenças. E é a partir disso que surgem encontros como Caetano Veloso com Emicida ou Maria Bethânia com Paulinho da Viola, sempre atravessados também por um elemento central, a tensão.
Motta explica na entrevista abaixo:
Como você está se sentindo com este line-up pronto?
Nelson Motta: O Doce Maravilha é algo que começou há mais de 25 anos com o Luiz Oscar Niemeyer. Nós imaginamos um festival de música brasileira que abrigasse várias tendências, mas a ideia de fazer isso no Forte de Copacabana acabou sendo um desastre, porque não era um local apropriado. A coisa ficou difícil e adormeceu por 25 anos, até ressurgir com o primeiro Doce Maravilha há quatro anos, já mais ambicioso, mais abrangente e mais experimental, promovendo encontros e releituras de grandes discos. De lá para cá, fomos vendo os resultados desse trabalho, que também vem da experiência e da nossa vivência, inclusive de fracassos que, na verdade, foram aprendizados. Isso é o que a gente passa para a ‘Jovem Guarda’, com Luiz Oscar [da Bonus Track] e o Rodrigo Tavares [diretor artístico do festival], que trazem uma visão muito atual da geração deles, mas também conhecem profundamente a história da música brasileira.
Então esse encontro da juventude com a experiência resulta nessa harmonia, muitas vezes numa harmonia por contraste. Eu adoro esse conceito de coisas aparentemente opostas que se harmonizam justamente pelo contraste. Um símbolo disso é o encontro do Caetano com o Emicida: mais do que um encontro de gerações, é uma harmonia por contraste, em que ninguém sabe exatamente o que vai acontecer, só sabe que vai ser bom. É inevitável (risos), mesmo se for ruim, vai ser bom.
Você fala nessa “harmonia pelo contraste”. O que isso significa para a curadoria do festival?
Eu gosto muito dessa ideia de pegar coisas aparentemente opostas e ver como elas se harmonizam justamente pelo contraste. Isso foi sendo desenvolvido ao longo das edições do festival. Caetano com o Emicida é um exemplo claro disso, porque são artistas de linguagens muito diferentes, gerações diferentes, trajetórias diferentes, mas com uma afinidade profunda de atitude. Não é só um encontro musical, é um encontro de como eles estão na vida, da participação política dos dois, dessa abertura mental e da capacidade de entender o outro. Em que medida a linguagem de um vai se misturar com a do outro? Eu tô louco para ver isso.
E o encontro entre Maria Bethânia e Paulinho da Viola? É um que vai dar o que falar também…
Esse é um sonho antigo, chegou a hora de refazer esse encontro. Existe um documentário da Bethânia muito jovem, com 20, 21 anos, numa roda de samba com o Paulinho da Viola, e isso nunca me saiu da cabeça desde a primeira vez que vi. Esse encontro é o contrário do Caetano com o Emicida, porque aqui é uma perfeita harmonia através do samba. É uma linguagem comum entre os dois, embora sejam muito diferentes; o Paulinho com aquela elegância contida, econômica, e a Bethânia com a exuberância, o drama, a festa.
E é um risco para os próprios artistas, de certa forma?
Totalmente. Esses encontros, muitas vezes sugeridos pelos próprios artistas, são tensos porque eles vão sentar ao lado de alguém que admiram muito, e querem fazer um trabalho especialmente bom. Eles estão fazendo um show um para o outro também, é uma celebração de amor e respeito, mas movida a tensão. Eu gosto de fazer um elogio da tensão. Meu pai dizia que a corda do violino tem que estar esticada senão não toca, e essas cordas estão sempre esticadíssimas, o que é um estímulo para grandes apresentações. Todo mundo vê isso: eles estão dando tudo, principalmente um para o outro.
O Doce Maravilha acontece num momento em que o Brasil tem cada vez mais festivais. Está mais difícil montar um evento como esse?
Está muito mais concorrido, os festivais cresceram muito e muitos são parecidos também. Esse nosso conceito de promover encontros e glorificar a música brasileira acabou sendo absorvido por vários festivais. Mas isso faz parte do jogo. Isso exige mais imaginação e mais criatividade na programação, e ao mesmo tempo é importante manter o conceito positivo. Depois de três edições, o festival já tem um bom conceito com o público e com a crítica, e concorre bem nesse cenário. Mas isso também mostra a vitalidade da música brasileira, porque hoje tem festival para todo tipo de artista e artista para todo tipo de festival.
O que o público encontra nesses encontros do Doce Maravilha que não encontra em gravações ou playlists?
O encontro ao vivo é insuperável. Você vê o artista na sua humanidade, na sua fragilidade, o artista está com medo ali também, tudo pode acontecer, não tem edição. Essa tensão resulta em grandes apresentações. Mesmo que você já tenha ouvido milhões de vezes no rádio, na televisão ou no streaming, aquele encontro presencial é diferente, porque é ali que se cria uma relação entre artista e público. Não é só a música, é tudo o que acontece em volta dela.
Confira a programação completa do Doce Maravilha 2026
8 de agosto – sábado
- Paulinho da Viola conv. Maria Bethânia
- Bloco do Silva #3
- Chico Chico celebra: Belchior com Juliana Linhares
- Leci Brandão & Rappin’ Hood
- Cortejo Afro conv. Luedji Luna Luna & Margareth Menezes
- Amanda Magalhães
- Larinhx
- Só Lyma
- Yasmin Lisboa
- Mango DJ Set
- Nelson Motta & Lou Cascudo apresentam: Noites Tropicais DJ Set
9 de agosto – domingo
- Caetano Veloso conv. Emicida
- Os Paralamas do Sucesso: 40 Anos de Selvagem?
- Falamansa conv. Ruan Vitor Vaqueirinho
- Sandra Sá: 40 anos de Sandra Sá (1986)
- Academia da Berlinda: 10 Anos de Nada Sem Ela com Louise
- Nova Orquestra toca: 20 Anos de Bloco do Eu Sozinho
- Bia Marques
- Yasmin Vilhena
- Rafa Canholato B2B Babi Facchinetti
- Nelson Motta & Lou Cascudo apresentam: Noites Tropicais DJ Set
Serviço
Data: 7, 8 e 9 de agosto de 2026 (sexta, sábado e domingo)
Local: Jockey Club Brasileiro – Praça Santos Dumont, 31, Gávea, Rio de Janeiro (RJ)
Abertura dos portões: 14h
Início dos shows: a partir das 14h35
Ingressos: à venda pela plataforma Ingresse e em pontos físicos credenciados
Mais informações: @umadocemaravilha
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