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‘Um dia fui eu, amanhã pode ser você’, diz Ton Carfi

Cantor gospel conta à Billboard Brasil como formou 500 alunos da periferia

Ton Carfi (divulgação)

Ton Carfi (divulgação)

Quem diria que um garoto que só foi acompanhar a irmã em um coral um dia lotaria o Teatro Municipal de São Paulo com a própria voz. Ton Carfi fez isso e ainda levou mais 500 pessoas junto.

Cantor gospel com mais de 20 anos de carreira e uma indicação ao Grammy Latino, Ton Carfi criou o projeto Tom das Periferias para oferecer formação musical gratuita a jovens e adultos de bairros periféricos de São Paulo. Na primeira edição, o resultado foi celebrado com uma apresentação de 500 alunos no Teatro Municipal, um dos palcos mais simbólicos da cidade.

“Foi uma realização, tanto pra mim quanto pros alunos”, conta Ton Carfi em entrevista à Billboard Brasil. A ideia nasceu da própria trajetória do cantor, que cresceu no Capão Redondo, na zona sul da capital paulista. “Eu sou fruto de projetos parecidos com esse. Teve um ensaio de um coral lá no bairro do Capão Redondo. Eu nem cantava, não sonhava em ser cantor, mas fui acompanhar minha irmã, que já cantava desde criança. Quando vi os coristas cantando, aquilo foi muito forte pra mim.”

Foi esse episódio que o levou a se tornar cantor gospel, com passagens por vários palcos ao longo da carreira. Desde então, ele carrega a missão de abrir o mesmo caminho para outras pessoas que cresceram, ou ainda crescem, na periferia. Ver essa missão se concretizar num espaço como o Teatro Municipal foi quase inacreditável para ele: “O projeto nasceu e a gente já tava formando os alunos aqui no Teatro Municipal. O teatro tava lotado e os alunos também.”

Sem restrição de idade, o Tom das Periferias reuniu crianças, adolescentes e adultos, inclusive senhoras de cerca de 70 anos. Uma delas, ao final da apresentação, disse a Ton Carfi que aquele havia sido o momento mais especial de toda a sua vida. “Você imagina uma senhorinha de 70 anos olhando pra mim e falando que aquele foi o momento mais mágico que ela já viveu? Eu não tenho nem palavras pra descrever o que foi aquele dia.”

Segundo o cantor, o projeto tem significados diferentes conforme a idade dos participantes. “Em uma criança, em um adolescente, reacende um sonho de se tornar cantor, de viver da música. Mas as pessoas mais velhas têm essa sensação de, tipo, ‘zerei a vida’, completei um sonho que eu tinha na infância, de um dia estar me apresentando num lugar grande.”

O evento contou ainda com a presença do secretário municipal Totó Parente e da vereadora Rute Costa, madrinha do projeto, que acompanharam de perto o desempenho dos alunos no palco. Durante a cerimônia, os formandos receberam certificados entregues diretamente das mãos de Ton Carfi.

Além de cantor, Ton Carfi também é professor de canto e já deu aulas para nomes conhecidos da música brasileira, como MC Livinho, Davi Sacer e MC Daniel. Em seu discurso durante o evento, deixou uma mensagem de inspiração aos alunos: “Um dia lá atrás fui eu, amanhã pode ser você. Sonhe alto, sonhe gigante, porque você tem um Deus que é grande.”

Uma segunda missão que virou projeto social

Ton Carfi dá aulas de canto há mais de 20 anos, desde o início da própria carreira, quando ainda não conseguia se sustentar apenas cantando. “As pessoas me viam cantar e pediam aula de canto pra mim. Eu também não sabia ensinar, aí peguei umas cobaias, depois fui fazer faculdade de fonoaudiologia, pra entender a questão da voz mesmo.” Ele chegou a abrir uma escola física, fechada durante a pandemia, quando migrou as aulas para o formato digital.

“Sempre tive isso como minha segunda missão. A primeira é realmente cantar, levar a mensagem que eu carrego, e a segunda é ensinar”, explica. O projeto social surgiu da vontade de sair do modelo comercial de aulas particulares e ocupar espaços públicos que ele já observava havia tempo. “Aqui em São Paulo tem esse projeto que é os CEUs. Falei: ‘Poxa, teatro bonito, um monte de coisa assim, e às vezes eu vou lá e não tá acontecendo nada, tá vazio. Vou tentar preencher isso de alguma forma’.”

O encontro que deu início ao projeto aconteceu quase por acaso, durante uma apresentação na Virada Cultural de São Paulo. “Uma vereadora que estava ali olhou pra mim e falou: ‘Ton, vamos fazer alguma coisa, vamos levar música pras pessoas de periferia.’ Eu olhei pra ela e falei: ‘Eu tenho esse projeto já escrito.'” A partir daí, o projeto avançou e fechou parcerias com diversos CEUs da cidade.

Mais do que aulas, os encontros incluíam lanche, uniforme e transporte fretado até o teatro para a apresentação final. “Os alunos foram de ônibus fretado pro teatro. Tiveram um dia de artista mesmo: o ônibus parou ali no bairro deles, eles entraram com a camiseta do projeto, tinha um camarim com aquelas comidas que tem no camarim dos artistas, e depois eles se apresentaram.”

Para Ton Carfi, o objetivo das aulas vai além da técnica vocal. “Eu explicava pra eles: ‘O que eu quero aqui não é simplesmente ensinar você a cantar, mas é mostrar um caminho’. Porque às vezes a pessoa desiste de cantar, de estudar canto, de treinar, porque ela fala: ‘Qual é o caminho pra eu viver disso?’ Aí ela desiste e vai fazer outra coisa. O Brasil tem muitos talentos escondidos de pessoas que simplesmente desistiram porque não conseguiam visualizar um caminho.”

Presença… não só no nome

Diferente de projetos sociais que existem apenas formalmente, Ton Carfi fez questão de estar presencialmente em todas as unidades. “A gente tem aulas presenciais e também aulas online complementares, dadas por outros professores. Mas o presencial eu quis fazer, no CEU São Miguel, no CEU Capão Redondo, no Cantinho do Céu, lá no último lugar da zona sul. Em todos eu estive presencialmente dando aula pra eles.”

A surpresa dos alunos, no início, era genuína. “Eles até não acreditavam: ‘Será que ele vai vir mesmo?’ A gente fazia um suspense, começava com outro professor, e quando eu entrava, eles falavam: ‘Meu, eu não acredito.'” Para a segunda edição do projeto, já marcada na agenda, o compromisso se repete: “Naquele dia eu não marco nada, não marco show, não marco nada. Vou estar lá presencialmente com elas, em todas as turmas.”

O futuro instituto

O projeto chamou a atenção da Secretaria da Cultura de São Paulo, que assistiu à apresentação no Teatro Municipal. “Quando o secretário olhou, os olhos dele brilharam ali. Ele falou: ‘Cara, eu quero isso todos os anos na cidade de São Paulo.'” Segundo Ton, a secretaria já planeja criar um circuito para que os artistas formados pelo projeto se apresentem por diferentes regiões da cidade, recebendo cachê pelas apresentações.

Para garantir a continuidade do trabalho, Ton Carfi está formalizando um novo instituto. “Agora eu testou pra abrir um instituto, que vai se chamar Instituto Tom das Periferias, já pra ter realmente a continuidade desse projeto anualmente. Mas o mais importante foi a secretaria da cidade de São Paulo ter abraçado o projeto.”

O que falta para democratizar o acesso à música na periferia

Ton Carfi reconhece que a periferia produz grande parte dos talentos musicais do país, mas vê poucas oportunidades de formação chegando até esses jovens. Para ele, falta o poder público compreender o alcance real que a música pode ter. “Eu cresci no Capão Redondo nos anos 90. Era uma época muito violenta, não se compara a hoje. Capão Redondo e Jardim Ângela foram eleitos, naquela época, os bairros mais perigosos do mundo.”

Ele lembra ter perdido diversos amigos para o crime durante a infância e adolescência. “Uma das coisas que me segurou foi que eu entrei de cabeça na questão da música. Uma das formas de transformação social e cultural de uma cidade é esse investimento em música.”

Na visão do cantor, música deveria inclusive ser disciplina escolar, também pelo papel da musicoterapia no autoconhecimento. “Eu tinha muito complexo de inferioridade. Eu venci isso com a música, quando eu cantava, alguém do lado falava: ‘Quem é que está cantando, que voz é essa?’. Isso venceu um complexo que eu tinha por ter sido um garoto periférico.”

Segundo ele, a maior parte dos artistas brasileiros, do funk ao sertanejo, passando pelo rap e pelo pop, vem de origem periférica, o que não é coincidência. “A música é uma das únicas formas que a pessoa enxerga que ela consegue ter um futuro. Um cara que cresce na periferia não consegue se enxergar sendo médico ou engenheiro, porque ele não tem dinheiro pra faculdade particular, a mãe não estudou, os irmãos não tiveram acesso. Mas ele consegue se enxergar sendo cantor de funk, de pagode, porque o funkeiro veio do mesmo lugar que ele veio.”

Para Ton Carfi, o caminho passa por mais investimento público em concursos, mostras de talento e presença da música na periferia, não apenas ensino técnico, mas também oportunidades reais de visibilidade. “Isso é uma transformação social, e isso vai refletir na redução da desigualdade, na redução da violência, da criminalidade.”

Veja como foi a formatura dos alunos do projeto Tom das Periferias

 

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