Published by Mynd8 under license from Billboard Media, LLC, a subsidiary of Penske Media Corporation.
Publicado pela Mynd8 sob licença da Billboard Media, LLC, uma subsidiária da Penske Media Corporation.
Todos os direitos reservados. By Zwei Arts.

A nova aurora de Marina Lima

Cantora e compositora lança disco marcado pela dor da perda e a vontade de viver

marina lima

Aos 70 anos, Marina Lima foi confrontada com dois sentimentos totalmente opostos: a dor da perda do irmão e parceiro musical, o poeta e filósofo Antônio Cícero – que em 2024 optou pela morte assistida após ser diagnosticado com Alzheimer–, e, ao mesmo tempo, uma enorme sede de viver e experimentar o novo.

Como fazem os grandes artistas, Marina soube canalizar o luto e o tesão pela vida em obra. E assim nasceu “Ópera Grunkie”, título que resgata um neologismo criado por ela mesma para definir pessoas “livres, inteligentes, talentosas e corajosas”.
Longe de ser depressivo, o álbum transpira a contradição que o fez nascer: a dor da perda mais profunda de sua vida e, ao mesmo tempo, uma vontade voraz de viver, dançar, compor e se manter ligada no novo.

Marina nunca foi uma artista de repetir fórmulas. Pioneira ao empunhar guitarra, compor suas próprias músicas e viver sua sexualidade às claras numa época em que mulheres no pop brasileiro eram majoritariamente intérpretes, ela continua rompendo expectativas.

Aos 70, recusa a “velhice idiota” – numa referência direta à amiga Fernanda Montenegro – e se redescobre nos palcos, com plateias lotadas de jovens que sequer eram nascidos quando ela lançou “Fullgás” em 1984.

Sua curiosidade segue insaciável: da parceria com a vocalista do grupo eletrônico Teto Preto, Laura Diaz, ao fascínio pelo novo disco de Alice Caymmi, Marina Lima demonstra que o envelhecimento pode ser, como ela mesma define, uma “aurora”.

OUÇA MARINA LIMA EM ÓPERA GRUNKIE

Nesta conversa franca e generosa, gravada por Zoom para a Billboard Brasil, Marina fala sobre a despedida dolorosa do irmão, a força das mulheres, a liberdade de ser quem é e o que a mantém antenada, seletiva e, acima de tudo, com apetite para a vida. Sem filtros, sem pressa, com a sabedoria de quem já viveu muitas idades e a energia de quem ainda tem muito a experimentar.

01 CAPA copiar
Capa do disco Ópera Grunkie, mais novo de Marina Lima, lançado em 2026.

Queria que você começasse falando do “Ópera Grunkie”. Esse nome eu acho muito legal. É um neologismo que você lançou uns anos atrás, acho que é facilmente compreensível para quem se enxerga nesse lugar.

Marina Lima – Você entendeu o espírito, né?

Entendi.

Marina Lima – Na realidade, é assim, eu não sou uma atriz, eu sou uma cantora. Mas, quando eu estou muito numa descoberta, num lugar muito íntimo, eu sou uma grunkie. Um monte de gente é. Esse nome é isso. Eu sou isso. Então, eu queria mostrar com o título uma intimidade minha, naquele momento de passagem, numa série de coisas inesperadas. E, ao mesmo tempo, um desejo de viver.

Acho que você estava passando por um momento de despedida do seu grande parceiro. Queria que você falasse dessa perda, foram mais de 200 composições juntos. E aí você encerra esse ciclo fazendo uma homenagem ao seu irmão…

Marina Lima – O que eu senti realmente foi a partida do meu irmão. Só restávamos nós dois da família. Então, desde que eu nasci, eu convivo com o Cícero, muito presente, e a partir da minha adolescência, ele virou meu parceiro. Com relação a perder um parceiro, é secundário, na medida em que tudo o que nós fizemos está registrado. Já tem uns três discos, ou quatro, que a gente não trabalhava mais tanto junto. O Cícero migrou para uma coisa de poesia mesmo, na Academia, era um projeto dele importante, e eu comecei também a escrever, mudei para São Paulo e tal. Mas tudo o que nós fizemos está registrado.

mosaico marina lima2
Marina Lima com o irmão e parceiro musical, o poeta e filósofo Antônio Cícero. Acervo pessoal

Tudo o que eu fiz com ele, tudo o que eu compus, as canções dessas canções, estão gravadas por mim, ou por alguém, ou estão comigo. Quer dizer, eu perco um companheiro da minha vida, um irmão, isso que foi o mais difícil, porque o parceiro é uma coisa que eu carrego comigo sempre, está tudo ali, é só eu parar, pensar, eu me lembro hoje de várias coisas concretizadas. Então, era muito importante, era um contraste, porque era uma perda profunda e que veio num desejo meu de vida enorme também. Então, como fazer um disco que não negasse esse desejo de vida meu? Minha aptidão é a música, então é pela música que eu expresso, não é pela poesia. Não é à toa que a poesia é colocada no meu trabalho em cima da música. A letra é depois da música. Então, uma vontade de viver enorme que eu estava com uma perda arrasadora, entendeu? Tinha que ter essas duas correntes do rio para dar o mar.

Eu carrego os meus mortos muito perto, como os presentes que eu ganhei na vida. Então, a partida do meu parceiro é um lado da nossa intimidade que a gente criou para poder fazer loucura junto. Mas estou nessa fase de gostar muito do que está vindo para mim no meu envelhecer. Por eu ter levado muito a sério a minha vida, a vida inteira virginiana, acaba que no final, na aurora da minha vida, eu ganhei um presente, que é ter saúde, ter disposição, ter curiosidade e trabalhar. E eu acho que dá para ouvir isso, dá para sentir isso, ao mesmo tempo que tem um desejo pelo novo, que sempre teve, né? Eu me lembro que você que me levou para conhecer a Laura Diaz. Você que me levou naquela noite.

Uma noite emblemática, que acabei te levando pra conhecer a (festa) Mamba Negra, aquela coisa maluca e potente do show do Teto Preto…

Marina Lima – É, e depois eu mantive contato com ela e tal. A perda do Cícero, meu Deus, da maneira que foi, foi uma coisa pra mim heroica, uma coisa absurda, que tem a ver com o nosso DNA. Eu vim do mesmo lugar, tem a ver com o meu pai, é um DNA, entende? Da minha família, meu pai era ateu também, o ídolo do Cícero era meu pai. Então, eu entendi tudo aquilo como uma equação familiar, sabe? E eu fiquei, agora, encarregada de levar isso adiante, porque eu sou a que fica ainda. Encarregada de levar essa chama…

De viver, né?

Marina Lima – De viver. E que meu irmão tinha, e que minha família me passou, e que eu tenho também. Eu não tô doente, eu não tô prejudicada. Eu vivi outras perdas na minha vida. Essa foi tremenda, mas foi admirável, entendeu? Então, o disco é sobre tudo isso. E o que você falou, tem a Ana Frango [Elétrico], tem a Laura [Diaz], tem a Adriana [Calcanhoto], que é a mais próxima. Enfim, mulheres, né?

Sim, sempre.

Marina Lima – Sempre não. Mas nesse momento, então, que as mulheres realmente se uniram. Antigamente, quando eu comecei, Claudia, você é mais nova que eu, as mulheres se viam umas às outras como rivais, insuportável. Eu como cantora, com essa coisa bissexual, gay, as cantoras que eram straight ficavam meio assim … era muito chato, era muito chato tudo. E agora não interessa mais, nós temos que nos unir. Então, as mulheres entenderam bem.

Eu acho que a gente passou de uma corrida solo para uma passeata. Eu brinco que eu estou me sentindo atualmente numa passeata. Quando eu era adolescente, eu também sentia que a gente era colocada num lugar de você tem que correr, ser mais bonita, ser mais inteligente. De competição…

Marina Lima – De competição. Não é o que os homens têm há muito tempo, de fraternidade.

É, sempre foram brothers, né?

Marina Lima – É, entendeu? Então, aproveitei porque eu acredito nisso. Os meus irmãos eram homens. Eu tenho parceiros homens, eu tenho um monte de gente que trabalha comigo que é homem, agora mulher também. E eu quis, em realidade, homenagear mesmo. Gosto, gosto.

Agora, eu gosto muito de uma frase que está na faixa “Samba para a Diversidade”, em que você fala: “esse samba é para a Badsista, Marcelo D2 e Maria Bethânia”. Eu acho que isso meio que resume a tua carreira, pessoas em que você se inspira?

Marina Lima – Resume um pouco meu olhar, minha visão. Badsista me chamou para participar de um show com ele no The Town. Então eu fiquei uma semana ensaiando com o Badsista e com a banda dele. E eu amei porque eu me vi garota ali com 17, 18 anos, eu era muito parecida com ele. Badsista é de um talento absurdo, tem um monte de gente em volta que estudou mais academicamente que ele, mas todo mundo quer ouvir o que ele acha, quer a opinião dele. Ele tem as melhores opiniões. É um gênio.

mosaico marina lima1
Marina Lima com o produtor musical Badsista (foto: Caia Marvento Ramalho)

É, eu amo, eu amo.

Marina Lima – Então, eu pensei assim: Badsista, D2, que desde sempre teve essa mistura de samba e rap, é lindo isso, bem carioca. E a Maria Bethânia, que é dona da porra toda. Eu vou juntar esses três.

mosaico marina lima
Marina com a amiga de longa data Fernanda Montenegro (Arquivo Pessoal).

Amo também outra citação no disco, da Fernanda Montenegro, que é sobre a velhice idiota. E eu queria saber o que é uma velhice idiota. Obviamente, 70 anos hoje é muito jovem. A avó da minha mulher tem 98 anos, ela toma vinho com a gente, fuma cigarro e faz tudo que tem direito. Então, acho que a gente está num lugar de ter uma longevidade para não ter realmente uma velhice idiota, como a Fernanda Montenegro falou, e você colocou na tua música. Eu queria que você comentasse um pouco sobre isso.

Marina Lima – Olha, em primeiro lugar, eu não quero que você me tire o direito de estar com 70 anos. E eu estou velha. Eu estou gostando disso. Você sabe por quê? Porque é diferente. Não é diferente tanto para mim – eu ainda tenho muito fôlego e tal – mas a experiência, a vida… Eu fico vendo como fui aprendendo nessas décadas inteiras. E como hoje em dia essas coisas que aprendi sobre vida, sobre música, sobre o que me interessa, sobre o que é eterno, sobre o que fica… tudo isso vai modificando. Eu aprendi muita coisa e vejo que ainda tenho que aprender. Mas eu estou na aurora da minha vida. Eu posso aprender.

Fernanda, por exemplo, tem 96. Jane Fonda tem 91. Eu posso chegar aos 90 e poucos, não sei. Mas o que interessa é que, com a minha idade, eu já vivi. O que me liberta de muitas coisas que eram chatas – pressões, como você falou –, me liberta a ser menor por dor. E me abre um lado para poder mergulhar nas profundezas, junto com a curiosidade das coisas. Esse mix é muito interessante. Você fica mais seletivo. Eu estou mais seletiva, porque o tempo que eu tenho é um pouco menor. E porque eu já vi muita coisa, mas também tanta coisa que eu não conhecia ainda, e tanta coisa minha que eu quero melhorar. É um outro caminho agora, Claudia. Muita curiosidade para mim.

Fernanda Montenegro é uma mulher que a gente se ama há 40 anos. Conheci ela quando eu fiz 30, e ela tinha 60, sei lá na época. Mas ela era a mulher mais contemporânea que eu havia conhecido. Quando eu a conheci, eu falei: “Nossa!”. Desde aí eu comecei a prestar atenção nela. Tem uma amizade que tem anos, anos que a gente segue. Depois, com esse advento de celular e WhatsApp, ela deixa mensagem, eu deixo, a gente se acompanha mesmo.

Eu quero saber o que te dá sede hoje, aquilo que você fala: “eu tô mais seletiva, mas tenho muita vontade disso aqui”.

Marina Lima – Claudia, a sede pode vir de qualquer lugar. Por exemplo, o disco novo da Alice Caymmi. Desde a capa, escrito Caymmi, eu acho aquilo lindo. Caymmi é uma coisa que tem a ver com a história do Brasil. É um absurdo. Aquele homem é um gênio. Ele passou a mesma voz para todos. Os filhos têm a mesma voz, a filha tem a mesma voz, o mesmo timbre, a Alice tem o mesmo timbre, isso é uma coisa única. Aí ela vai e pega com o parceiro eletrônico dela, revisita aquelas obras-primas, aquelas canções, ela trouxe para hoje em dia. É uma maravilha, uma coisa iluminada.

E outro dia fui fazer uma leitura com um ator que era do Oficina, o Ricardo Bittencourt, que está fazendo um negócio em homenagem ao Gregório de Matos. Ele me chamou para fazer uma leitura com ele, com o público. Adorei. Porque eu gosto dele, o texto era bom. É uma coisa que eu estou curtindo…

marina lima

Você é da provocação intelectual, né? Eu sei que você curte coisa nova também. Vou voltar um pouquinho pra aquela noite que a gente foi na festa Mamba Negra, que você ficou de cara com aquela situação, com a Laura totalmente nua. E aquela música, né?

Marina Lima – Aquilo tudo seria desnecessário sem aquela voz. É um absurdo. Não é à toa que no “Ópera Grunkie” chamei a Laura para colaborar. Chegou uma base eletrônica de um cara, gostei, pensei em mudar, remixar, e resolvi usar no disco. Chamei a Laura para ver o que ela sentia ali. Ela tem uma voz que parece Elis Regina. Ela canta, sabe cantar, e faz uma coisa bem brasileira.

E conta sobre a tua curiosidade com a música eletrônica, com a cultura clubber e com a produção musical

Marina Lima – Primeiro, eu gosto de dançar. Quando vou para a eletrônica, gosto de beats, especialmente de house, é o que mais gosto. Por isso também me identifiquei tanto com o Badsista. Eu vou atrás desse movimento que me faz dançar, entendeu? Antes de trabalhar com outras pessoas, quando eu me debruço sobre isso, eu crio milhões de loucuras. Eu crio levadas de baixo, eu escolho uma programação. Depois eu posso até chamar alguém para me ajudar, para acabar, para contribuir, mas é uma outra mergulhada, numa outra praia, numa outra água, sabe? Mas, para mim, o meu grande barato é compor. Eu gosto de compor canções.

Lá atrás você precisou ser firme e transgressora, nunca escondeu sua sexualidade. Como você vê a evolução de gênero da molecada de hoje, que é totalmente fluida?

Marina Lima – Cara, eu acho que é uma melhora. É tão importante as pessoas poderem achar que existe algum lugar onde elas vão poder ser elas mesmas. Sem ter que se matar, se esconder, ir para o mato. Que a tolerância, ferro e fogo, foi se abrindo e agora há espaço. Se você tiver ética e caráter, há espaço para você exercitar o que você quiser, ser o que você quiser. Isso é uma libertação, sabe? Eu faço as coisas que eu faço, e fiz quando fiz. Não é porque queria ser de vanguarda, é porque eu não poderia fazer de outra maneira, porque eu sentia necessidade…