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Clementaum quer ‘mais forty’ na música eletrônica latina

DJ tem plano para dominar as pistas de dança globais: a música eletrônica latina

Clementaum

Clementaum (Mateus Aguiar)

Salto alto, bolsa pendurada no braço e leque na mão, tudo isso enquanto discoteca para uma pista inteira que vibra e grita bordões como se estivesse diante de uma diva pop. E, de fato, está. Mas não uma diva pop comum… uma artista que percorre o underground e o mainstream, ocupando o palco com o caos performático das batidas entre o funk, o tribal e o techno, criando uma música eletrônica latina, como ela mesma denomina e defende. Clementaum traz uma mistura de humor, moda, cultura ballroom e música, tudo de uma forma tão natural que a fez ser um dos nomes mais comentados da cena global. Não à toa, um de seus inúmeros apelidos é La Mayor.  

Essa naturalidade com que conduz sua persona faz parecer que Clementaum sempre existiu, mas a artista nasceu aos poucos. Antes da icônica apresentação no Boiler Room do Primavera Sound Barcelona ou do prêmio de DJ do Ano no WME Awards, existia Gabriela Clemente: uma DJ que parecia tímida atrás dos equipamentos, extremamente concentrada na técnica e que buscava entender qual espaço gostaria de ocupar na cena.

“Nos vídeos antes da pandemia, quando eu ainda era a Clemente, eu era bem concentradinha, tinha muito medo de errar.” Tudo mudou quando ela mesma resolveu se filmar enquanto tocava durante o isolamento. “Eu me assistia e pensava: ‘Gente, mas eu toco tímida desse jeito? Eu não sou assim. Eu sou performática, gosto de dançar.”

O processo de autodescoberta se juntou à mania de sempre falar tudo no aumentativo, com o “ão” no final das palavras, além de um arroba disponível nas redes sociais. O nome artístico surgiu por acaso, porque “DJ Clemente” se perdia no meio de outros resultados. “Clementaum apareceu só eu. E pensei: ‘Gente, é pra eu assumir a Clementaum de vez’.” A escolha ainda carregava um detalhe importante: o mistério. “Você não sabe quem tá por trás de Clementaum, né? Uma coisa muito engraçada, porque às vezes quem não foi atrás de ver a cara da pessoa, só via o nome no Spotify, depois fala: ‘Nossa, Clementaum é uma mulher gostosa. Eu achava que era um homem’.”

A personalidade que ela construiu transita como uma figura entendida perfeitamente por quem adora o humor da internet brasileira e o glamour da cena clubber, numa estética exagerada, mas sem soar artificial. Essa construção vai além dos palcos e já virou uma extensão de sua identidade. Ela chegou à redação da Billboard Brasil vestindo uma saia longa e uma baby look com a frase “Eu amo latin core”. “A diva pop não usa o mesmo look pra dar entrevista e pro show”, brinca. “O starter pack não tem segredo: salto alto, bolsinha, um top, uma saia e o leque.”

Clementaum (crédito Mateus Aguiar)
Clementaum (Mateus Aguiar)

A consagração da DJ e produtora também passa por sua capacidade de ditar tendências, como o jargão “keska”, que já virou adjetivo oficial de suas pistas. A origem veio de vídeos antigos da youtuber Camila Loures. “Ela tinha uma compilação onde falava várias vezes ‘aqueles caras’ e eu assisti com um amigo. A gente riu tanto. De repente, ele começou a me chamar de keska. Aí virou outro sentido. ‘Ai, tô bem keska hoje’. Isso pode ser várias coisas.”

Inserida profundamente na cultura ballroom LGBTQIA+, Clementaum ajudou a fortalecer a cena no Paraná e construiu pontes entre diferentes universos da música eletrônica. “Eu sou Overall Princess da Harpya House”, conta. “Sempre fiz parte. Hoje a Clementaum tem as pessoas do circuito do tribal, as do circuito underground, e tudo tem a ver com essa coisa que a gente gosta da cultura pop. Não dá para fugir disso. A Clementaum talvez seja vista como uma diva pop.”

A versatilidade musical explica a facilidade com a qual ela circula entre ambientes que parecem incompatíveis, desde clubes lendários europeus, como Berghain, até participações ao lado de grandes estrelas nos Ensaios da Anitta. Sonoramente, La Mayor desenvolve uma pesquisa entre ritmos latinos que se fundem ao funk e a vertentes percussivas do tribal e do techno.

“Eu sempre amei muito música latina, é uma coisa que está na gente, mas desde quando comecei a pesquisar música para tocar, sempre gostei de outras coisas além do funk brasileiro”, explica. “Antes tocava moombahton, que é um reggaeton mais fritação, mas depois comecei a pesquisar coisas mais percussivas que podem ser consideradas estilo tribal. E cada vez mais fui incorporando isso com a personalidade da música pop também.”

Mesmo com um currículo de sucesso na crítica nacional e internacional, ela lamenta que o preconceito contra ritmos periféricos ainda resista no Brasil por puro complexo de vira-lata. “Olha que engraçado: quem reclama de funk em festival de música eletrônica? Só brasileiro”, dispara. “Porque o próprio brasileiro tem isso, ele só vai achar uma coisa legal quando o fulano lá de fora, que ele é superfã, tocar. Lá fora eles acham incrível. Aqui ainda tem esse resquício de preconceito. Mas cada vez mais as pessoas estão tendo que engolir. Já é um dos gêneros que mais cresce.”

Essa ligação entre mainstream e underground conduz a carreira de Clementaum. Entre os lançamentos dos últimos anos, “PASSAÇÃUM (ÉoQquerida?)”, parceria com Karol Conká, virou destaque, além dos remixes assinados para Pabllo Vittar em “AMEIANOITE” e “Fantasia”, colaboração com Nathy Peluso. “A Pabllo Vittar mudou a minha vida. Quando eu fiz o remix para ela, muita gente conheceu meu trabalho como produtora musical. Eu não imaginava isso acontecendo, então essa porta abriu outras coisas.”

A caminhada entre dois mundos ficou ainda mais evidente quando sua própria voz virou um dos maiores fenômenos do Carnaval. Tudo começou como uma brincadeira em seu quarto, gravando bordões para o Splice, plataforma de produção musical, e disponibilizando os arquivos livres de royalties. “Eu queria gravar vocais. Então comecei a falar um monte de coisa que eu sempre falo: ‘Vai DJ + forty!’, ‘Vai Iquinic!’, ‘Avisa!’… Foi tudo uma brincadeira.” Seu sample pack oficial, “SOUNDS OF CUZIL”, chegou às mãos de Pedro Sampaio e ajudou a criar o hit “SEQUÊNCIA CUNT”, faixa ao lado de Irmãs de Pau, MC GW e Tasha Kaiala. “Ver as pessoas no Carnaval gritando e batendo leque, que é uma coisa que trago nos shows, é muito lindo. Me emociono.”

Performar enquanto toca desejo de quebrar o estereótipo do DJ estático teve forte influência de Skrillex, que inspirou até seu trabalho de conclusão do curso técnico em moda, durante o ensino médio. “Ele tinha um álbum que, na minha concepção, era bem dark, esse dubstep… e eu coloquei uma música dele no TCC.” O maior impacto aconteceu quando ela assistiu ao DJ no Lollapalooza Brasil de 2015. “Até então, a gente via DJs muito concentrados e parados. E, quando eu vi o Skrillex pulando e pegando o microfone, pensei: ‘Deus, os DJs podem fazer isso!’. Ele pode ter fogos de artifício e pular na mesa, por que não? Ele tá ali para entreter e se conectar. Afinal, música é conexão.” 

Hoje, o ciclo parece quase completo. “Eu tenho o follow dele. Não sei se ele me acompanha, mas me segue. Só de ver que ele apoia vários produtores brasileiros, já acho demais.”

Clementaum (crédito Mateus Aguiar)
Clementaum (Mateus Aguiar)

Inspirada e inspirando

De Curitiba para o mundo, Clementaum já coleciona apresentações históricas pelo Brasil e pela Europa. “O maior sonho da minha vida era ter um Boiler Room. E eu conquistei isso em 2024. Depois, fiquei pensando: ‘Tá, mas o que eu quero conquistar agora?’.” Ela sabe que cruzar fronteiras ainda parece distante para muitos artistas brasileiros. “Quando você vem de um lugar que não tem esses acessos, é meio irreal sair do país mostrando o próprio trabalho. E, quando vê pessoas próximas conseguindo, começa a pensar que talvez seja possível para você também. Primeiro que a gente nunca acha que vai poder ir para fora, era uma realidade muito distante. E, depois que você vê outras pessoas que tocam junto com você conseguindo, você pensa: ‘Talvez isso possa ser possível para mim também’. E foi graças a me inspirar em pessoas próximas que eu consegui também. E eu vejo que a gente também acaba inspirando outras pessoas ao nosso redor, às vezes até que a gente não conhece. É meio irreal poder sair para fora do país mostrando o nosso trabalho. É incrível.”

Focada em conquistar os palcos do Lollapalooza Brasil, Rock in Rio e, futuramente, do Coachella, ela ignora o purismo conservador em relação aos seus looks ousados ou à sua expressão corporal. “Ah, eu sofro [preconceito], mas eu cago. Eu sempre vou ligar para os meus fãs, para as pessoas que me fomentam. É igual fazer a ‘Ego Search’ no Twitter, vai ter gente que vai estar tacando hate em você. Mas eu vou ligar? Eu estou junto com quem gosta de mim, quem consome o meu trabalho, porque é para essas pessoas que eu quero continuar fazendo. Então, as pessoas que não gostam, elas vão falar mal, continuam falando mal, gente. Eu estou cada vez mais arrasando.”

Ouça Clementaum

[Esta matéria faz parte da 23ª edição da Billboard Brasil. Compre a sua revista aqui.]