De Uibaí para o topo: como Simone Mendes se tornou a maior voz solo do sertanejo
Em capa exclusiva da Billboard Brasil, cantora fala da trajetória na música

Simone Mendes é a capa da 23ª edição da Billboard Brasil (Pedro Machado/Billboard Brasil)
Simone Mendes é uma mulher atenta. Ela se sentou à minha frente e, antes do play do gravador, lembrou-se que a gente já havia se visto antes, em outras entrevistas: “Quantas vezes já estivemos juntas?”, perguntou, com um sorriso largo que toma os ambientes por onde passa.
Enquanto isso, ajeitava o cabelo, a maquiagem e rememorava com a equipe o que precisava fazer antes de começar a gravar o novo projeto, o segundo inédito do ano, diga-se de passagem. Isso pouco tempo depois de ter sido a voz feminina mais ouvida com “P do Pecado”, parceria com Menos é Mais que arrebatou o país em 2025. Por isso, me impressiona ela ser assim, atenta, com uma repórter normal com quem trombou algumas poucas vezes.
Simone nasceu em Uibaí, município baiano com pouco menos de 14 mil habitantes. Quando criança, mudou-se para outras cidades do país com a família, tudo para acompanhar o trabalho do pai, que foi garimpeiro. Ela é a irmã do meio; Simaria é a mais velha; o caçula é Caio Mendes, que permaneceu ao meu lado acompanhando toda a entrevista, ouvindo e se divertindo com cada relato da cantora. Ela ainda tem outro irmão, Magno, fruto de outro casamento do pai.
Quando pergunto a Simone sobre a infância, período que ela escreve como difícil, a cantora toma um tempo para si, como quem busca as pedras preciosas no meio da lama, como o pai fazia. Tendo Caio como seu confidente logo atrás de mim, Simone foi caminhando nas ruas da própria memória.
“A gente não tinha televisão em casa, mas gostávamos dos programas infantis daquela época”, disse, citando “Jaspion” como um dos seus favoritos. “Era Lanzeira o nome dele, né?”, perguntou a cantora ao irmão sobre um conhecido deles na época. Sim, Caio confirmou. Era Lanzeira o dono da TV em que Simone e o caçula conseguiam acompanhar as aventuras de Kyojuu Tokusou Juspion lutando contra os maus que assolavam a galáxia do programa. “A gente ia para o portão da casa dele para ficar assistindo e não perder o episódio.”
Ali, preocupada só em acompanhar seus programas favoritos de televisão como dava, Simone mal imagina os próximos capítulos da própria vida.
O início
No meio da paixão por desenhos e aventuras ao lado do irmão caçula, Simone também se apaixonou pela música. Quando tinha 14 anos, foi convidada por Frank Aguiar, um dos grandes nomes do forró dos anos 1990, para integrar os backing vocals de seu show. Acompanhada da irmã, Simaria, que até aquele momento era sua grande inspiração musical e já se arriscava nos microfones, ela topou o desafio.
As irmãs ficaram nessa posição entre 1998 e 2005 e, dois anos depois, já acostumadas com o palco, se uniram a Binha Cardoso para montar a banda Forró do Muído, incorporando elementos modernos ao tradicional gênero, como baterias, guitarras, teclados —algo que estava se tornando cada vez mais popular naquela época, com Calcinha Preta e Mastruz com Leite como guarda-chuvas desse movimento.
O projeto foi um sucesso. O Forró do Muído dominou as rádios do Norte e Nordeste do país e gravou nove álbuns, que levaram o nome da banda para grandes palcos da região. Músicas como “Tá com Medo de Amar, É?”, “Mentes Tão Bem” e “São Amores” marcaram a carreira do trio. Essa última, inclusive, foi revivida nos últimos anos após ter sido regravada por Pabllo Vittar no álbum “Batidão Tropical”.
As irmãs saíram da formação em 2012 e resolveram seguir como uma dupla: Simone e Simaria. Elas chegaram a tentar uma a carreira juntas depois de deixar Frank Aguiar, mas o Forró do Muído acabou vingando antes, como uma forma de terminar de prepará-las para o que estava por vir.
Com o apelido “As Coleguinhas” — que surgiu de um vício de linguagem da mãe, que costumava chamar todo mundo de colega — elas rapidamente chamaram a atenção do mercado da música.
Em 2016, lançaram o primeiro álbum, “Bar das Coleguinhas”, com participações de peso, como Wesley Safadão em “Não Vou Mais Atrás de Você (Agora Me Curei)”, um dos destaques do disco. A ideia era manter o forró vivo no repertório da dupla e incorporar o sertanejo sofrência, com letras para rasgar o coração e mandar indireta para o ex.

Tudo isso aconteceu em um período em que o feminejo estava começando a se aquecer no Brasil. Maiara e Maraisa explodiram pouco tempo depois, seguidas de Marília Mendonça, quando o espaço feminino dentro do gênero mais consumido do país estava finalmente se estabelecendo.
No segundo disco, “Simone e Simaria (Ao Vivo)”, de 2016, elas cravaram o nome da dupla nas rádios do país inteiro com “Regime Fechado”, um dos maiores singles da carreira das irmãs.
Juntas, Simone e Simaria trilharam um caminho de sucesso. Viajaram pelo país com seus hits explosivos, emocionados e cheios de storytelling, daqueles em que elas contam a história de uma mulher que descobre que a melhor amiga está pegando seu ex. Esse dramalhão é contado “Amiga”, de 2022. “Amiga você o perdeu /E não me leve a mal /Essa outra mulher sou eu”.
As irmãs fizeram grandes parcerias dentro do sertanejo e do forró, mas também com artistas de outros gêneros. Um destaque vai para “Loka”, colaboração com Anitta, lançada em 2017. Em agosto de 2022, no auge do sucesso, as irmãs decidiram seguir caminhos separados. A notícia foi uma grande surpresa para os fãs, mas estava definida: o vínculo de Simone e Simaria seria apenas familiar dali pra frente.
O meio
Em um desses encontros que tive com Simone, em que ela gravou meu rosto, a cantora contou que a música sempre bateu forte em seu peito. Por isso, não quis tirar um tempo de férias depois de deixar a dupla com a irmã. Em 2023, ela lançou seu primeiro projeto solo, “Cintilante”, se apossando do próprio nome e sobrenome.
“Eu sempre gostei muito do sertanejo, daquela música que você escuta e sofre. Eu queria cantar isso”, disse em maio de 2025 ao comentar sobre como quis ser vista sendo uma só no palco. “A ideia era criar um projeto em que ninguém se parecesse comigo. A gente criou uma história exclusiva para a minha fase como Simone Mendes”.
A resposta do público foi imediata. Ela lançou “Erro Gostoso” em janeiro de 2023 e, naquele mesmo ano, a música ficou no top 3 das mais ouvidas do país em um levantamento feito pela Pro-Música, que combinou resultados de desempenho no Spotify, YouTube, Deezer, Apple Music, Amazon Music e Napster. Simone ainda apareceu em 19º lugar, com a música “Manda um Oi”, uma parceria com a dupla Guilherme e Benuto.

Em 2024, o resultado foi ainda mais impressionante: ela colocou cinco faixas na lista, com “Dois Tristes”, do álbum “Cantando sua História”, em 6º lugar.
“Eu venho escrevendo minha história desde há muito tempo… Lá atrás, degrau por degrau, construindo a minha história na música de uma forma muito honesta, muito justa, com muito amor e carinho e muita dedicação”, diz a cantora.
Nesse ritmo, um degrau depois do outro, em 2025 ela liderou a lista. “P Do Pecado”, uma parceria com o grupo de pagode Menos é Mais, foi a música mais ouvida do Brasil. No momento em que conversamos para a entrevista dessa capa, Simone está com um pouco mais de três anos de carreira solo e ostentando esse arsenal de sucessos na prateleira.
Os que citei acima são só alguns dos exemplos de uma longa lista do que ela conquistou desde que decidiu seguir seus próprios passos, com o desejo de contar ao mundo quem ela é. E, como não é de se surpreender quando falamos de uma artista desse porte, que grava o rosto de uma repórter qualquer, ela construiu e vem construindo essa jornada de maneira humilde, ouvindo atentamente quem está ao seu redor.
“Eu acredito que ninguém faz sucesso só e eu preciso da opinião dos outros, sabe assim? Justamente para tentar não errar, porque o sucesso não tem fórmula. É a mão de Deus e o povo.”
Ouça ‘P de Pecado’, de Menos É Mais com Simone Mendes
Ela reúne compositores, apresenta suas ideias para o time, ouve até as críticas, vez ou outra bate o pé por um projeto que fez saltar o coração, e caminha de mãos dadas com quem acreditou e continua acreditando nela. “Isso é uma forma de não me deslumbrar e sempre ouvir o outro para entender se eu estou no caminho certo.”
No início de 2026, Simone reuniu os fãs fieis para a gravação de um novo projeto inédito, “O Melhor de Mim”. Eu estive lá no dia e, entre trocas de roupas e uma produção imponente, o que mais me chamou atenção foram as vozes no meio do povo. Cada estrofe cantada por ela era acompanhada de um coro bem ensaiado. O público sabia até as pausas que ela tomava para respirar. A cantora que começou como voz de apoio, lá atrás, agora tinha uma multidão como backing vocal.
Ela já lançou uma parte do projeto, e “Direitos Iguais” está seguindo os passos de outros singles de sucesso. Será surpreendente caso, lá em dezembro, essa faixa não esteja listada entre as músicas mais ouvidas do país no ano. Com uma letra sofrida e cheia de frases de efeito, ela tem o selo Simone Mendes de qualidade. “Ela é muito forte. A turma canta com muita devoção já no meu show. Eu começo a cantar, e aí a galera vem atrás. Então é muito especial porque o show é o termômetro de tudo isso, né? Quando a gente vê o público cantar a música a gente fica: ‘Uau, mais uma’. Vambora. Vamos tentar mais um título aí, né?, brinca.
Segunda é vida normal
No meio dessa avalanche de acontecimentos, desde o fim da dupla com a irmã e o início de uma trajetória solo gigantesca, ela tenta arrumar tempo para ser mãe, esposa e dona de casa. Simone faz shows de quinta a domingo e, na segunda-feira, tenta ignorar as notificações de mensagens no celular que não param.
“Eu digo: ‘Hoje eu só quero uma vida normal. Hoje eu quero dar banho na minha filha, ver se meu filho fez a tarefa da escola’”. Ela é mãe de Zaya e Henry, frutos do casamento com Kaká Diniz. Quando está em casa, tenta dar conta de “comer uma comidinha com o marido, conversar, dar uma namoradinha”, brinca. As notificações só serão lidas e respondidas na terça. “Isso me faz sentir a Simone da minha certidão de nascimento.”
Mas, ainda no primeiro semestre de 2026, ela arrumou forças para embarcar em um novo projeto. Em “Minhas Memórias”, gravado em São Paulo, ela reuniu gigantes do sertanejo, Zezé Di Camargo, Daniel, Leonardo, Bruno e Marrone e Chitãozinho e Xororó, para um DVD inédito. A ideia é resgatar músicas que fizeram parte da sua vida como forma de mostrar aos fãs, de coração aberto, quem ela é. “Quero trazer aquilo que me ensinou o que é ser artista.”
Quando Simone ouvia o Alto Olimpo do sertanejo na infância, ela sonhava em chegar perto desse céu. Subia em árvores para ser vista cantando, sempre tentando aprender as músicas deles que mais tocavam na rádio. A influência sertanejeira vinha da parte paterna da família.

Dia desses, ela recorda, Simone estava se exercitando em casa quando recebeu uma ligação de Xororó, dupla com Chitãozinho. Atendeu, conversou com ele e seguiu a vida. “Eu inventei de malhar. Estou ficando velha, tem que dar um jeito né?”, brincou. Depois de um tempo, Bruno, da dupla com Marrone, disse que ela tem a voz mais bonita do Brasil. Assim, sem mais nem menos. Simone ouviu algo semelhante de Zezé, o irmão de Luciano, que elogiou uma apresentação que ela fez na televisão.
Quase que do nada, as vozes que Simone tentava replicar no topo de uma árvore quando criança estavam ali, fazendo parte da sua rotina, batendo papo, fofocando, elogiando seu trabalho. “Meu Deus, que loucura. Como pode isso?”, disse, com as mãos no rosto, ainda incrédula com a realidade que vive hoje. “Eu ouvia esses meninos no radinho da minha avó todos os dias. Meus familiares são apaixonados por todos eles… E hoje são meus amigos.”
Simone até tenta fingir costume até hoje, mas confessa que, vez ou outra, quando está na presença de seus grandes ídolos (e agora amigos), ainda age como fã. “É muito louco voltar no tempo, cantar essas músicas que eu cantava em cima de uma árvore e agora vou dividir o palco com eles. É muito bonito.”
O futuro
Nessa hora, relembrando os tempos em que tudo que ela tinha eram os galhos de uma árvore, amor pela música e a própria voz, Simone Mendes entrelaça os dedos diante de mim, fecha os olhos e começa a chorar. “É um sonho, né?”, pergunto, surpresa com a forma como ela se expõe, sem medo de mostrar a própria vulnerabilidade.
Ela balança a cabeça concordando e me conta que, antes da entrevista, viu algumas fotos da própria infância. A família do pai sempre foi apegada com a música sertaneja. Os tios cantavam e se reuniam em roda para ouvir os modões, e ela estava ali, acompanhando tudo de perto com os olhos atentos de uma sonhadora.
“Quando eu vi aquelas fotos, eu pequenininha, eu falei assim: ‘Meu Deus, essa criança sonhou com isso um dia’. E hoje eu estou realizando”, disse, ainda com a voz embargada, entre um suspiro e outro. “A vida da minha família foi transformada por conta de tudo o que eu sonhei um dia. A vida de todos nós”, diz, como quem viu a própria trajetória passar como um flash diante dos olhos.
“Essa vida tem me surpreendido.” Sincera e com os pés fincados no chão, Simone Mendes se descreve como uma criança que veio do nada, mas foi privilegiada de ter sido escolhida para viver essa história. E que história!
[Esta matéria faz parte da 23ª edição da Billboard Brasil. Compre a sua revista aqui.]

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