‘Na Contramão’: MC Leozinho ZS abre novos rumos para o funk
Artista lança projeto e critica falta de acessibilidade nos programas de áudio

MC Leozinho ZS abre novas pistas para o funk em ‘Na Contramão’ (Reprodução/Instragram)
A contramão de MC Leozinho ZS vai contra, na verdade, o caminho que o próprio artista vinha seguindo. Depois de colocar a música de visão no centro de projetos como o DVD “Maestro das Favelas”, o MC decidiu girar o volante para a festa.
Lançado em 28 de julho, o álbum “Na Contramão” reúne 13 faixas e participações de nomes como MC Ryan SP, MC Livinho e MC Marks. O cartão de visitas é “Tá Pedindo Toma”, colaboração que alcançou o top 20 diário do Spotify Brasil poucos dias depois da chegada do disco.
+ Leia Mais: Cego desde os oito meses, MC Leozinho ZS descreve a vida na favela pela música
A mudança não representa uma negação do funk consciente, vertente que ajudou a formar sua identidade. É um movimento para aumentar o próprio repertório.
“Eu tava trampando mais no consciente, na música de visão. Quis vir fazendo o bagulho na contramão pras pessoas entenderem que a gente pode falar de visão, pode falar de festa, pode falar de tudo”, diz o cantor à Billboard Brasil.
Leozinho não gosta muito de fronteiras. Nem entre gêneros, nem entre temas, nem entre aquilo que esperam dele e o que pretende cantar.
A contramão era dele mesmo
A guinada chega depois de “Famoso Ímã | O Poderoso Chatão”, parceria com MC Lele JP, MC Poze do Rodo e DJ Gordinho da VF, chegar ao primeiro lugar do Top 50 Brasil do Spotify. Lançada em fevereiro, a faixa já superou 100 milhões de reproduções na plataforma.
Em vez de transformar o resultado em cobrança para repetir a fórmula, Leozinho diz que o sucesso afrouxou as amarras.
“Me sinto mais tranquilo, liberdade mesmo. Se eu lançar uma parada e ela não chegar ao tanto de número que eu quero, fico tranquilo também. É música: uma hora a música vai, outra hora não vai. É uma roda-gigante.”
Antes do palco, havia um porta-CD
MC Leozinho ZS nasceu em Itabuna, na Bahia, e voltou ainda bebê com a família para o Capão Redondo, na zona sul de São Paulo. Perdeu a visão aos oito meses, em decorrência de uma meningite bacteriana, e foi criado no bairro onde vive até hoje.
Sua educação musical não começou com uma aula, um instrumento ou uma batida feita no computador. Começou na frente de um aparelho de som.
Em casa, o porta-CD misturava rap, rock, música brasileira e os ritmos que chegavam da Bahia. Enquanto outras crianças brincavam na rua, ele diz que ficava com o ouvido colado no aparelho e as mãos percorrendo as caixas dos discos.
Sabotage foi uma das primeiras fixações. Depois vieram o hip-hop norte-americano, os discos da Furacão 2000, as coletâneas de proibidão e o pagodão baiano. Charlie Brown Jr., arrocha e forró também entravam sem pedir licença.
Antes de suas faixas circularem pelo país, Leozinho ajudava outras músicas a circularem pela vizinhança. Na época dos discos graváveis, montava coletâneas para vender.
A letra começa pelo começo
A atividade aumentou seu repertório e exigiu domínio do computador. Leozinho havia começado um curso de informática aos sete anos. Aos nove, já navegava pelas máquinas com autonomia, resultado de uma rotina de estudos imposta pela mãe.
“Até eu terminar os estudos, saía de casa cinco horas da manhã e chegava oito horas, de segunda a sexta. Não tinha escolha. Então essa brisa no computador vem daí.”
A tecnologia também mudou a forma como Leozinho compõe. Em vez de escrever cada verso em um caderno, ele monta as letras na memória e registra as guias pelo WhatsApp.
O primeiro verso precisa abrir a porta. Enquanto ele não aparece, não há música.
Quando encontra o início, Leozinho grava a frase no celular, decora, parte para o verso seguinte e repete o processo até completar a composição. Em outras sessões, prefere entrar no estúdio sem uma letra fechada e construir tudo no freestyle.
“Faz dois versos, escuta. Se gostei, fica. Se não gostei, apaga e vamos fazer de novo.”
Cegueira não é gênero musical
Leozinho sabe que sua deficiência visual faz parte de sua experiência e da maneira como o público o enxerga. O problema começa quando ela passa a ocupar todo o enquadramento e sua música fica espremida no canto.
Ele rejeita tanto o discurso de pena quanto as frases prontas que tentam transformar a cegueira em metáfora inspiradora. Não quer ser apresentado como alguém que “enxerga mais” por não enxergar. Também não pretende fingir que a condição não existe.
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Em “Na Relíquia do Ceguinho”, faixa de “Na Contramão”, ele coloca o assunto dentro de uma música de festa. A cegueira aparece com humor e naturalidade, sem trilha sonora de sofrimento.
“Dos moleques que são cegos também terem uma música para eles, sem ficar muito no chorô. Tem cara que quer voltar a enxergar, tem cara que não quer, igual eu. Mas, enquanto não volta, que viva de uma forma leve, porque o bagulho não define nós. É só um bagulho que nós tem.”
Quando o programa fecha a porta

No estúdio, a barreira mais difícil nem sempre está nas pessoas ou nos equipamentos. Está na tela.
Leozinho usa o Reaper e consegue gravar parte do próprio material, mas estima dominar apenas cerca de 20% das funções necessárias. O programa pode ser adaptado com o OSARA, extensão de código aberto que oferece suporte a leitores de tela em computadores Windows e Mac. Ainda assim, há limitações de navegação e operação, sobretudo em tarefas mais complexas de produção.
Outros programas populares permanecem mais fechados. A própria Image-Line informa que o FL Studio não pode ser usado com leitores de tela porque sua interface depende de ícones e controles gráficos.
Para Leozinho, é aí que está o principal problema.
“A falta de acessibilidade não é nem nos estúdios, é nos programas em si. As grandes marcas não brisam nisso.”
Leozinho já deixou claro que consegue transitar por todos esses caminhos. Agora, falta aos programas de estúdio entenderem que acessibilidade não é um atalho. Muitas vezes é o caminho principal.
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