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Como o São João é tecnologia cultural brasileira

Quadrilha de São João (Imagem gerada or IA)

Quadrilha de São João (Imagem gerada or IA)

Com uma movimentação de R$ 700 milhões e um público de milhões de pessoas, tratar o São João do Nordeste apenas como uma ‘festa’ é um erro de perspectiva. Começo este texto provocativo enquanto estou sentado em um café nos Jardins, em São Paulo, ouvindo “Pé de Serrita”, do João Gomes, agora em maio de 2026. Mas, como cearense, meu relacionamento com o São João obviamente vem de berço.

A Billboard Brasil me convidou para escrever sobre a magnitude dessa que eu chamo de tecnologia cultural brasileira. Para isso, imaginei falar de números.

Vou tentar apresentar assim: em 2025, as festas juninas movimentaram cerca de R$ 7,4 bilhões na economia brasileira, ficando atrás apenas do Carnaval como a maior manifestação popular do país.

Só o São João de Campina Grande ultrapassou R$ 742 milhões em movimentação econômica. O de Caruaru movimentou cerca de R$ 737 milhões e reuniu milhões de pessoas ao longo do período. São 30, 35 e, às vezes, até 40 dias de alteração de comportamento urbano, logística aérea, ocupação hoteleira, consumo regional e até na dinâmica emocional das pessoas. Tem cidade que literalmente reorganiza o ano inteiro em torno desse período.

Em 2025, Felipe Amorim, Rey Vaqueiro, Iguinho e Lulinha chegaram a fazer mais de 50 shows em apenas 30 dias, atravessando sete estados do Nordeste e realizando, em algumas noites, até cinco apresentações consecutivas. Isso significa que o São João cria uma demanda artística tão intensa que transforma cantores em verdadeiras operações logísticas itinerantes, movimentando bandas, equipes técnicas, produtores, motoristas, cenografia, audiovisual e toda uma economia criativa paralela.

O mais bonito disso é perceber que, mesmo com a expansão nacional e a presença de artistas gigantescos da música brasileira, o protagonismo cultural nordestino continua preservado. Em Campina Grande, por exemplo, a programação consegue reunir nomes como Roberto Carlos, Marisa Monte, Menos é Mais e Henrique & Juliano, mas mantém cerca de 90% do line-up formado por artistas nordestinos e sonoridades ligadas diretamente à cultura regional.

E enquanto muitos festivais concentram riqueza em patrocinadores, setores premium e grandes capitais, o São João espalha dinheiro pela cidade inteira. O ambulante vende. A costureira trabalha. O hotel lota. O restaurante familiar dobra o faturamento. O motorista ganha a corrida. O vendedor de milho entra na economia do evento como protagonista, como parte essencial da experiência. Não é só palco. É uma cadeia econômica inteira; é um calendário urbano; é um fluxo turístico.

E o que eu também destaco: a geração de renda pulverizada. Isso descende do fato de que o São João do Nordeste talvez seja o único grande evento brasileiro que ainda consegue unir três pilares simultaneamente: identidade cultural, impacto econômico e pertencimento popular.

Ele cresceu sem abandonar completamente a raiz. Mesmo com megaestruturas, LEDs, patrocínios e line-ups gigantescos, ainda existem fogueira, sanfona, quadrilha, rua enfeitada e memória afetiva familiar coexistindo com o show de multidão. Talvez seja isso que torne o São João tão poderoso economicamente: ele não vende apenas entretenimento, ele vende continuidade cultural.

É exatamente nesse ponto que o meu papel entra. Durante esse processo, estive à frente do conteúdo de uma das maiores plataformas de música brasileira, o Sua Música. Tive como missão desenvolver, amplificar e conectar esse universo. Não era só sobre divulgar shows; era sobre estruturar narrativas, criar formatos e transformar o que já era potente no território físico em algo ainda maior no ambiente digital.

Fui responsável pela concepção e execução de transmissões ao vivo, videocasts, programas de entrevistas, clipes e EPs visuais, sempre com um objetivo claro: traduzir a grandiosidade do Nordeste e do São João para quem não estava fisicamente lá, sem perder a essência de quem sempre esteve. E mais do que isso: dirigi as transmissões oficiais do “Maior São João do Mundo”, em Campina Grande, do São João de Caruaru e do São João de Todos.

Na prática, isso significava estar no ponto de interseção entre três forças que considero a equação de sucesso dessa “tecnologia”: dados, cultura e narrativa. Dados para entender comportamento, consumo e audiência. Cultura, já que é preciso respeitar e potencializar a identidade nordestina. E narrativa fidedigna para transformar tudo isso em conteúdo relevante, distribuível e escalável. É uma engenharia cultural gerando mais de 48 milhões de visualizações e impactando 21 milhões de pessoas.

Reforço: o São João deixou de ser apenas uma experiência local para se tornar um produto cultural distribuído. Durante muito tempo, o Brasil tratou manifestações nordestinas como “folclore regional”, enquanto importava validação cultural de fora. Mas os números que trago aqui começaram a desmontar essa narrativa míope. Milhões de pessoas circulando. Centenas de milhões de reais movimentados. Turismo aquecido. Economia informal fortalecida. Marcas disputando presença. Artistas redefinindo carreiras. E cidades inteiras vivendo em torno dessa engrenagem.

O São João não é mais apenas tradição; ele virou infraestrutura econômica. É diferente. E talvez o mais bonito de olhar para isso com meus olhos — e ajudar a construir isso com meu trabalho — seja perceber que, enquanto boa parte da indústria cultural global tenta criar experiências artificiais de pertencimento, o Nordeste já tinha isso naturalmente há décadas.

É onde a fogueira encontra o algoritmo. É onde tradição é sinônimo de tecnologia cultural. Nordestinamente brasileira. Se este texto te fez um convite para ir ao São João do Nordeste, a gente se encontra fisicamente em Caruaru ou te aguardo pelo YouTube do Sua Música.

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Zé Pretim – Diretor de Projetos e Estrategista Cultural. Música, Conteúdo & Narrativa em: @ze.pretim