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Carta aberta de Sven Väth para o Brasil

Sven Väth (créditos - Daniel Woeller)

Sven Väth (créditos - Daniel Woeller)

O Brasil não é apenas um lugar para mim, tenho um sentimento realmente especial pelo país.

Minha conexão com o Brasil não começou na pista de dança, mas em um espaço muito mais silencioso. Nos anos 1960, quando o país viveu uma explosão criativa incrível — música, arquitetura, design — tudo parecia respirar ao mesmo tempo. 

O som de Stan Getz e João Gilberto me tocou profundamente desde cedo. Aquela suavidade, aquela elegância, aquela melancolia — nunca alta, mas sempre profunda. Para mim, a Bossa Nova não é um gênero, é um estado de espírito.

Ao mesmo tempo, a arquitetura de Oscar Niemeyer — essas formas fluidas e sensuais inspiradas na paisagem e no corpo humano. Curvas em vez de arestas. Ritmo traduzido em concreto.

E então esse contraste marcante: a Amazônia, Manaus, o teatro de ópera no meio da selva. Cultura encontra natureza, civilização encontra origem. O Brasil vive dessas tensões.

Depois que você vive o Carnaval no Sambódromo do Rio de Janeiro, entende o que ritmo realmente significa. Não é uma experiência coletiva muito forte. As escolas de samba carregam uma energia que atravessa você por completo.

E então, aqueles momentos inesperados: uma Oktoberfest em Blumenau, no Sul. Surreal, quase poética em seu absurdo — e ainda assim estranhamente perfeita.

Tive a sorte de tocar no Brasil muitas vezes ao longo dos anos. O público de lá tem uma relação muito única com a música — física, emocional, honesta. Para eles o ritmo não é uma escolha, faz parte da própria natureza.

Musicalmente, o Brasil sempre esteve presente na minha trajetória — desde as primeiras influências até o presente eletrônico. Artistas como Gui Boratto mostraram que profundidade e melodia podem existir dentro do techno e do house de maneira verdadeiramente atemporal e internacional.

Hoje, vejo uma nova geração carregando essa energia adiante. Artistas como Vintage Culture, Mochakk e ANNA trazem o espírito brasileiro para o palco global — cada um à sua maneira.

Com o Mochakk, você sente aquela energia crua e brincalhona e uma conexão direta com a pista de dança — quase como uma forma moderna de samba traduzida em música eletrônica.

E a ANNA representa uma dimensão mais profunda, quase espiritual, do techno — poderosa, hipnótica, mas ao mesmo tempo centrada e refinada.

Tenho uma admiração enorme por toda a riqueza cultural desse país e um carinho enorme por cada experiência que já vive aí.

 

Sven Väth é um DJ e produtor alemão com mais de quatro décadas de carreira. Ícone do techno, é também um dos nomes fundamentais para o desenvolvimento da cena da música eletrônica global.