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Entenda o boom do vinil no mundo

Vinil de 'Bossa Sempre Nova', de Luísa Sonza

Vinil de 'Bossa Sempre Nova', de Luísa Sonza (Divulgação)

A venda de discos de vinil bateu um recorde histórico em 2025, superando US$ 1 bilhão, de acordo com a Recording Industry Association of America (RIAA)

 Isso confirma a forte retomada do mercado de mídia física, visto que tal patamar não era alcançado desde 1983.

Dizer que essa informação não consolida um boom (ou o retorno) do vinil seria comum entre colecionadores, DJs e entusiastas do formato, que costumam afirmar que “o vinil não voltou, pois ele nunca foi embora”.

Pois bem, estamos no Brasil e, sim, este boom mundial chegou aqui também — embora, em muitos países, a produção de discos de vinil nunca tenha deixado de acontecer, mesmo que em escala reduzida.

No Brasil, hoje, temos três fábricas de discos de vinil: Polysom (RJ), Vinil Brasil (SP) e Rocinante (RJ), sendo esta última a mais nova do mercado. Todas estão trabalhando a todo vapor, com demanda alta e uma fila de espera de alguns meses para quem deseja produzir um disco, o que demonstra a vitalidade do setor.

Três fábricas é, de fato, um número pequeno para um país das dimensões do Brasil. Vale considerar também que a maioria dos insumos necessários para o funcionamento de uma fábrica de discos é importada, o que encarece o produto final. Ainda assim, muitos artistas da nova, da velha e da geração “mediana” têm lançado seu material em vinil. Edições e reedições especiais, discos coloridos, pôsteres, tiragens limitadas e numeradas, discos com efeitos holográficos… um combo de detalhes que tem feito a cabeça de muita gente.

Os clubes de assinatura também demonstram o quanto este mercado está vivo. Por aqui, temos quatro principais: Noize Record Club, Três Selos, Rocinante, Clube do Vinil Universal e Vinil Brasil Clube. O funcionamento é semelhante ao de assinaturas de revistas ou vinhos: você paga mensalmente e recebe o produto em casa.

O aspecto interessante dos clubes (que também pode ser um desafio para os ansiosos) é a surpresa sobre qual será o artista do mês, já que os títulos costumam ser divulgados com apenas algumas semanas de antecedência. De certa forma, os clubes têm sido uma ótima via para descobrir novos artistas e bandas — e não são poucos. Muitos deles, a partir do lançamento em vinil, caem no gosto das pistas através de DJs, e seus discos tornam-se “pepitas” procuradas no mundo inteiro, visto que a maioria dos LPs desses clubes não é comercializada em lojas e possui tiragem limitada. Reprensagens de discos clássicos e raros também ocorrem esporadicamente, aliviando a ansiedade de colecionadores que passam a vida atrás desses títulos (embora boa parte ainda prefira a busca por uma edição original de época).

O mistério em torno deste boom é entender de onde vem a vontade e a procura por um material físico em uma era tão tecnológica. Estamos em 2026 e o disco de vinil nasceu em 1948. O “promissor” CD (compact disc) nasceu e morreu, enquanto o LP continua firme e forte.

Colecionadores, lojistas e DJs afirmam que a relação com a música para quem ouve vinil é totalmente diferente de quem consome via streaming. Talvez essa seja a resposta para o mistério deste (re)consumo. O ritual de colocar o LP para tocar, posicionar a agulha na faixa desejada, ouvir o disco na íntegra, manusear a capa, acompanhar as letras no encarte e apreciar o pôster é uma experiência sensorial única. Dar essa pausa para algo tão prazeroso, entender a poética que compõe um álbum ouvindo por completo os lados A e B, e conferir a ficha técnica — que abre portas para novas descobertas musicais — são detalhes que fisgam os novos colecionadores e mantêm por perto os veteranos.

Em um momento de consumo rápido, em que tudo é fast food, o disco de vinil vem na contramão. Há ainda quem cite o cheiro, o tato, a sensação de romper o shrink (o plástico que lacra os LPs novos), os estalinhos de discos antigos e a própria história de um item com mais de 50 anos que ainda coloca muita gente para dançar.

O aumento no número de lojas físicas e virtuais, a volta de DJs discotecando com o formato, clubes e bares que dão ênfase (ou até exigem) o uso do vinil e a fabricação de toca-discos mais acessíveis são fatores que consagram este movimento crescente.

Enquanto o Record Store Day ainda é um sonho distante por aqui — com suas prensagens exclusivas e eventos que agitam lojas na Irlanda, Reino Unido, Europa, EUA, Japão e Austrália —, sigamos comemorando o nosso Dia Nacional do Disco de Vinil em 20 de abril. A data é uma homenagem ao poeta e compositor Ataulfo Alves, marcada pelo dia de seu falecimento em 1969.

Desejar vida longa ao disco de vinil chega a ser redundante.


Mimi é  DJ e colecionador de discos desde os anos 1980. Sócio e curador da Loja de Discos Collectivinyl (SP) representando a ShowMeYourCase. Integrante do Tomba Trio.