
"Verified by Spotify" atesta se a música é feita por humanos ou IA (Divulgação)
‘Verified by Spotify’: entenda como a música agora precisa provar que é humana
O Spotify lançou o selo “Verified by Spotify” para garantir que o artista que você ouve é, de fato, uma pessoa real.
Pense comigo: décadas atrás, a indústria alimentícia encheu as prateleiras de produtos ultraprocessados e o mercado adorou, porque era escala, era eficiência, era lucro. Aí vieram os estudos. Aí vieram os rótulos. Aí veio o símbolo do coraçãozinho vermelho que ninguém lê, mas que existe para dizer: “Calma, isso aqui pode não ser o que parece”.
A música chegou ao mesmo lugar mais rápido do que qualquer um esperava.
Em 2023, o próprio Spotify admitiu que estava removendo centenas de milhares de faixas geradas por inteligência artificial (IA) que infringiam direitos, e que o volume de uploads havia triplicado em dois anos. Hoje, mais de 100 mil músicas são enviadas à plataforma por dia. Ninguém sabe quantas são humanas.
O critério do novo selo, aliás, diz tudo sobre o momento: o Spotify não pede documento; ele verifica se o artista existe no mundo real. Se faz show. Se vende camiseta. Se tem um corpo, em algum sentido. Se apenas faz o upload da faixa e não aparece em lugar nenhum, talvez não seja alguém.
Mas aqui está a pergunta que o selo tenta evitar: tudo o que é artificial é ruim?
O ultraprocessado faz mal porque foi projetado para viciar, não para nutrir. A questão nunca foi a origem, foi a intenção. Uma música gerada por IA que te move, que te acompanha em uma noite difícil, que você coloca no repeat às 2h da manhã: ela é menos válida porque não tem CPF?
A ressalva do próprio Spotify no comunicado entregou o jogo: “O conceito de autenticidade artística é complexo e está evoluindo rapidamente”.
Traduzindo: o selo é provisório. A porta ficou aberta. Eles sabem que essa definição vai mudar. O que não muda é o comportamento do ouvinte. As pessoas sempre souberam, em algum nível, que o ultraprocessado não era exatamente comida — e continuaram comendo. O mesmo vai acontecer com a música. O selo vai existir, vai ser ignorado às vezes, vai importar em outras, e o mercado seguirá testando os limites do que aceitamos como real.
A pergunta certa não é se a IA vai tomar conta da música. É o que a gente escolhe nutrir e por quê.
Gustavo Luveira é sócio do Bona Casa de Música, espaço independente dedicado à música brasileira. Publicitário, transita entre criação, curadoria e escrita, atuando no desenvolvimento de projetos que investigam música, cultura e comportamento.