Entre ‘hate’ e ‘hype’: Vera Fischer Era Clubber quer provocar o Brasil
Grupo comenta ódio na internet, estética e o próximo álbum 'Veras II'

Vera Fischer Era Clubber (Foto: @nadjakouchi)
Combinando synths sombrios, beats próprios para a pista e letras que misturam desejo, ansiedade e humor ácido, a banda Vera Fischer Era Clubber virou um dos projetos mais comentados e divisivos da cena independente brasileira. Formado em Niterói por Crystal (voz), Pek0 (beats), Malu (baixo) e Vickluz (synths), o quarteto nasceu de encontros em festas e jams por volta de 2023 e rapidamente passou a chamar atenção pelo híbrido de música dançante, performance e deboche que construiu em torno do disco “Veras I”.
Mas a repercussão aumentou ainda mais após uma apresentação da banda no Cultura Livre, da TV Cultura. Trechos do programa viralizaram nas redes sociais e dividiram opiniões: enquanto usuários criticavam as músicas e questionavam a proposta estética do grupo, outros defenderam justamente o caráter provocativo e as referências da trupe. Falando bem ou mal, o episódio acabou ampliando o alcance das Veras e transformando o grupo em um dos assuntos mais debatidos da cena alternativa brasileira nos últimos tempos.
Com ecos de Fausto Fawcett, Cansei de Ser Sexy, No Porn e da cultura clubber carioca, o grupo faz da ironia uma linguagem artística. O resultado provoca reações opostas: enquanto parte do público vê frescor na mistura de synthpop, pós-punk e teatralidade pop, outros enxergam exagero, caricatura e provocação gratuita. Mas para elas, esse atrito não é um efeito colateral; é parte do próprio projeto.
“As pessoas confundem muito qualidade de produção com qualidade estética, com qualidade musical, com o que faz elas sentirem alguma coisa. Eu acho que o meu objetivo como artista e das Veras também é fazer as pessoas sentirem alguma coisa, é atravessar as pessoas com som e performance”, diz Crystal. “As Veras estão aí porque a gente é a gente, temos uma coisa para dizer e isso teve ressonância com outras pessoas. E que bom, isso é maravilhoso”, afirma a vocalista.
Em entrevista à Billboard Brasil antes de embarcarem para uma mini turnê pelo Nordeste – que passou por Maceió (AL), Aracaju (SE) e Salvador (BA) -, a banda falou sobre o futuro álbum “Veras II”, o lugar da ironia na música contemporânea, o hate gratuito que receberam nas redes e a busca por existir fora das fórmulas tradicionais da música brasileira.

Leia a entrevista com Vera Fischer Era Clubber
O nome Vera Fischer Era Clubber já parece uma obra em si. O que ele significa para vocês hoje?
Crystal: Além do nome que a Pek0 trouxe pra nossa jam, eu acho que ele virou uma expansão do universo do álbum. O Rio de Janeiro tem esse lado hollywoodiano, do Projac, das pessoas famosas circulando pela cidade, e ao mesmo tempo tem essa decadência noturna, o underground. A “Vera Fischer” representa esse glamour da atriz loira, bronzeada, esse símbolo nacional. E o “Era Clubber” traz esse outro lado: a sujeira, a pista, a decadência. São duas faces do Rio.
Pek0: Pra mim também tem uma coisa de registrar que a gente teve nossa fase clubber. Hoje eu me sinto distante disso, mas existe esse desejo de tirar o club do lugar tradicional dele e levar essa experiência para o formato de banda ao vivo.
Vickluz: Acho que o nome traduz muito bem essas dicotomias do Rio. Glamour e decadência convivem o tempo todo aqui.
A ironia é central no trabalho de vocês. Existe um limite entre ironia e verdade?
Crystal: Esse conceito de verdade, ele é meio… difícil. A ironia também é uma forma de verdade. Acho que a gente vive numa era em que tudo perdeu um pouco da seriedade. Existe uma distância enorme entre as pessoas e os fatos por causa das telas. Então a ironia virou uma linguagem contemporânea inevitável. Não é exatamente algo pensado racionalmente, mas é uma forma natural de falar sobre as coisas. É a linguagem das Veras.
Vickluz: Eu acho que a ironia é uma linguagem de todas nós. E dentro de uma brincadeira que não é tão brincadeira assim, a gente tem uma hora de levar a sério. Mas o processo começa através de uma grande ironização de tudo, um grande ‘foda-se’ pros formatos que nos foram apresentados, que era assim que se fazia ou se deixava de fazer. E aí é um start, mas no meio do processo a gente repensa e vai ali buscando formas de se fazer irônica, mas ainda muito certeira, pontual, sabe? Bem precisa.
Pek0: O processo nasce muito das letras da Crystal. A ironia já está ali, aí a banda embarca nisso e vai ampliando. Quando fizemos “Altinha”, por exemplo, pensamos: “E se colocarmos um beat de bossa?”. Tipo, usar isso já é ironizado, sabe? A gente claramente não tá fazendo bossa. A gente pega ali o cheiro, o símbolo e brinca literalmente com ele, realmente ironiza isso.
O primeiro disco tinha uma atmosfera mais soturna. O novo álbum aponta para outro caminho?
Crystal: “Veras I” era a introdução de um universo mais concreto e ligado ao Rio de Janeiro. “Veras II” será um mergulho mais pessoal dentro de uma cidade imaginária chamada Vulgária. O vulcão que aparece nesse universo virou símbolo de sentimentos: ódio, tesão, vergonha, amor. O novo disco fala muito sobre a “dor de crescimento”. Não é para você ver o Rio de Janeiro, é para você ver um outro lugar.
Vickluz: enquanto o “Veras I” é um filme que a gente tá ali como espectador, eu tenho a impressão de que o “Veras II” é um filme que passa dentro das nossas próprias cabeças. E aí nós somos espectadores, produtores e atores do filme que tá dentro da nossa cabeça.
Pek0: Um grande diferencial que eu sinto no “Veras II” é que, diferente do “Veras I”, é a experiência que a gente tem agora. A gente tá mais consciente da nossa potência e assim a gente vem explorando muito bem.
Vocês têm já uma data de lançamento para esse disco novo?
Crystal: Não, ainda não… (risos) Mas a gente quer lançar até o fim do ano.
Pek0: Ele tá em processo ainda. Tem muito processo a ser feito ainda…
Crystal: Mas assim, a nossa expectativa de ter uma coisa nova para mostrar pro público, pras pessoas curtirem, ouvirem mais e mergulharem mais na gente é ainda esse ano, sim.
Existe uma ideia cinematográfica muito forte no universo da banda. Isso vem da formação em cinema da Crystal?
Crystal: Ah, com certeza. Pô, cinema é uma coisa que fica na gente, né? Se você trabalha e estuda isso, não consegue esquecer nunca. E eu sempre gostei muito. Eu estudei para ser roteirista e até hoje eu escrevo roteiro, mas fui fazer artes visuais e mestrado justamente para elaborar essa parte específica de ter ideias, porque cinema é uma coisa gigante, né? O que eu fui percebendo é que são só outras formas de eu escrever, de fazer cinema. Essas divisões não existem de verdade. Assim, existem mais no mercado e na academia do que pro artista. Então, com certeza todos os meus processos se embolam, tudo que eu faço acaba transbordando de uma coisa para outra.
Vickluz: A Crystal inclusive escreveu, dirigiu e produziu o roteiro do nosso clipe que estamos fazendo, de “Vera Fischer Era Clubber”. E tem essa questão também da relação com estética, que é também muito o rolê do cinema, mas também é muito o meu rolê e da Pek0, de quem teve também uma introdução com moda e estudou essas coisas.
Vocês falam muito sobre estética. Acham que as pessoas confundem qualidade técnica com qualidade artística?
Crystal: As pessoas confundem muito qualidade de produção com qualidade estética, com qualidade musical, com o que faz elas sentirem alguma coisa. Eu acho que o meu objetivo como artista e das Veras também é fazer as pessoas sentirem alguma coisa, é atravessar as pessoas com som e performance. Eu não acho que isso é uma coisa que tem que se discutir a partir de quem toca mais ou toca menos. Com certeza tem mil cantoras, tecladistas ou bateristas mais virtuosas. Não é sobre isso. Ser o melhor em alguma coisa é extremamente subjetivo e você só pode ser você mesma. As Veras estão aí porque a gente é a gente, temos uma coisa para dizer e isso teve ressonância com outras pessoas. E que bom, isso é maravilhoso. Mas a gente não tá aqui porque somos melhores em nada não; não é sobre ser melhor do que ninguém. A vida não é isso.
Vickluz: A gente tá só fazendo o nosso, né?
Crystal: É simplesmente sobre não seguir uma receita de bolo e viver a sua vida. Eu acho que a nossa música é muito sobre isso.
O hate que vocês receberam online mudou algo na relação de vocês com a banda?
Pek0: A história mais absurda foi falarem que a gente recebeu milhões da Lei Rouanet. Eu queria muito que isso fosse verdade! (risos) A gente até pensa “caralho amiga, que que a gente fez para acharem que a gente é milionária?” A gente deve tá arrasando muito nos looks (risos).
Crystal: Mas isso é parte de pessoas que não têm noção como funcionam as leis de cultura. E qualquer coisa que você fala sobre um corte de dois segundos na internet é equivocado, porque todo mundo é muito mais complexo do que isso. As pessoas têm o direito de tirar as conclusões loucas delas e falar o que quiserem. Discurso de ódio e tal tá envolvido nisso e não deveria ser permitido, mas nada impede elas de tirarem conclusões e opiniões equivocadas. Mas se elas olhassem na sua cara, elas jamais falariam isso para você. Se elas assistissem o seu show, talvez elas até aplaudiriam. É essa posição do comentador anônimo, que passa pelo Instagram e despeja um ódio que é um reflexo da própria pessoa, do que ela tem dentro dela, de como ela passa os dias dela. Enfim, eu acho muito doido, mas também acho que é sintoma da época que a gente vive, né? Não tem o que fazer.
Vocês sentem que existe um estranhamento por não se encaixarem em nenhuma cena específica?
Pek0: Quando a gente começou a tocar e sair do circuito de Niterói e a tocar no Rio, tinha um desencaixe. A gente não se encaixava, não era como se o que a gente fazia tinha uma outra galera fazendo também, né?
Vickluz: É que as coisas que surgem da MPB são tão clichês, né? São tão pautadas dentro de um formatinho, essa coisa da MPB carioca também. A coisa tá tão dentro de um aspecto de expectativa ou do que as pessoas esperam receber, que quando receberam nosso som, acho que entraram numa confusão mental, sabe? Aí colocaram a gente numas caixinhas que não são as nossas, mas acho que isso se dá muito por conta de uma cena que também não entrega coisas inéditas. Não que nós sejamos assim inéditos, mas talvez sim para esse pessoal que entrou nesse lugar e nos viu.
E afinal: Vera Fischer Era Clubber é pop, punk, rock ou música eletrônica?
Pek0: Música eletrônica experimental.
Vickluz: Eu acho que é punk. Para mim é Vera Fisher Era Clubber é recontextualizando o que é rock hoje, sabe?
Malu: Eu acho que tá entre o experimental e o pop assim, são coisas que mais se destacam, mas é difícil…
Crystal: Ah, eu não acredito nisso de gênero musical. Acho que tem pessoas que produzem música de gênero, mas eu acho que as fronteiras já se misturaram há muito tempo. Então eu não sei, mas acho que concordo com todas. É experimental para caralho, tem uma coisa do pop chiclete, com certeza tem punk para caralho sim. É eletrônico também. É tudo isso ao mesmo tempo e não é nada. É tipo assim, todos esses alfabetos.
Falando no nome da banda, vocês pensam em gravar alguma coisa com a Vera Fischer, como um show ou clipe? Já rolou algum convite?
Crystal: A gente ainda não teve contato cara a cara com ela, mas ela sabe que a banda existe. Já comentamos em posts, mandei vídeo e ela até comentou sobre a gente.
Vickluz: A gente sonha com ela indo num show nosso um dia. Acho que vai acontecer quando as agendas baterem.
Pek0: Mas nunca existiu um contato concreto, de conversar diretamente com ela.
Malu: É uma aproximação aos poucos. Ainda vai acontecer.
Crystal: Esses dois planetas vão se colidir!
Existe vontade de dialogar com o mainstream?
Crystal: Não conscientemente. A gente só tenta fazer música sobre o agora.
Pek0: A gente é bem experimental, mas acho que a gente tá junta com o pop brasileiro de certa forma.
Vickluz: Existe um prazer em fazer coisas chiclete também. “A Gata Agora” teve muito disso.
Quando sobem no palco, vocês sentem que estão interpretando personagens?
Crystal: Eu não acredito muito nessa separação. O palco é um estado emocional diferente, claro, mas continua sendo você. A minha mãe sempre fala para mim que é um personagem. Mas eu não acredito nessa ideia fixa de identidade.
Vickluz: O palco altera o corpo e a percepção. Você vira outra pessoa naquele momento, mas não no sentido de personagem.
Pek0: Eu não sei o que eu acho. Eu, por exemplo, venho do teatro e nas Veras, eu tenho uma dificuldade de performar. Eu fico ali tão concentrada, tão presa ao que eu tenho que fazer, a me agarrar no não errar, que eu acho que eu me desmonto um pouco visualmente, enfim, às vezes se eu danço um pouquinho, me desconcentro, eu falo: “Meu Deus, não vou errar. Ui, fico nervosa”. Eu acho que são relações diferentes.
Além do clipe e das novas músicas, o que vem agora?
Malu: Tem um feat com Katy da Voz e As Abusadas vindo aí! Ainda não tem data para sair, mas vamos decidir com o selo e vai ser muito foda e estamos muito animadas para isso.
Crystal: Vai ser um hino, vai ser a pior música do mundo. Escreve isso.
Pek0: Queria deixar um apelo assim para chamar a gente pra trabalhar, porque as Veras querem trabalhar! (risos)
Vickluz: Isso, a gente precisa rodar por aí e tocar mais!
Crystal: As Veras tem que sentar o cu, trabalhar e fazer o álbum sair, sabe?
Pek0: Mas as Veras querem dinheiro também. Elas querem fazer show por onde tiver. Chamem a gente! (risos)
Ouça Vera Fischer Era Clubber
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