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Como Gusttavo Lima pagou R$ 10 milhões para virar bilionário

Gusttavo Lima

Gusttavo Lima (Divulgação)

Setembro de 2014. Gusttavo Lima era o nome mais quente do sertanejo brasileiro. “Balada” havia virado fenômeno global. Shows lotados, cachê em ascensão, carreira no pico.

Foi exatamente nesse momento que ele decidiu jogar tudo fora. Ele rescindiu o contrato com a AudioMix, separou-se do empresário Rafael Carvalho e pagou caro por isso. Em entrevista ao jornalista Leo Dias, descreveu o estrago sem rodeios.

“Em 2014 e 2015, eu praticamente fali, de verdade. Num dia eu tinha tudo e, no dia seguinte, já não tinha mais nada. Carros, casa e helicóptero, tudo entrou no acordo para viabilizar a saída.”

Ele chegou a morar de aluguel e a pensar em largar a música. O mercado deu o cantor como acabado, mas errou feio. Antes de 2014, ele era o ativo principal de uma cadeia que não controlava.

A AudioMix cuidava da produção, outro gerenciava o agenciamento e mais um ficava com a venda de ingressos. Cada elo cobrava a sua parte e o cantor, único insubstituível na estrutura, ficava com uma fração do que gerava.

É um modelo que a indústria da música repete há décadas. Elvis Presley passou grande parte da carreira cedendo metade dos direitos autorais ao seu empresário, o Coronel Tom Parker. O contrato só foi desfeito após a morte do cantor.

Michael Jackson, por outro lado, entendeu o jogo cedo. Em 1985, pagou US$ 47 milhões para comprar o catálogo da ATV Music Publishing. O negócio incluía boa parte das músicas dos Beatles.

Muita gente achou caro, mas aquele catálogo hoje vale bilhões. A lógica é a mesma em qualquer setor: quem controla a cadeia, controla a margem. Quem apenas executa dentro da cadeia dos outros recebe o que sobra.

Artistas aceitam esse modelo porque, no começo, precisam. A estrutura abre portas que eles ainda não conseguiriam abrir sozinhos. O problema é que poucos percebem quando esse momento passou.

Quando a estrutura que antes era trampolim virou pedágio, Gusttavo percebeu. Ele pagou o preço de sair. A virada não foi glamourosa, foi operacional.

Depois da ruptura, ele construiu um ecossistema próprio, camada por camada. A Balada Eventos assumiu a gestão da carreira artística e a Balada Music o agenciamento. O BaladApp eliminou mais um intermediário da cadeia.

Cada elo que ele absorvia era uma margem que deixava de vazar para fora. Não é diferente do que Taylor Swift fez quando decidiu regravar todo o seu catálogo. Após perder os direitos das masters em 2019, ela reconstruiu o ativo do zero.

O custo foi enorme em tempo, energia e dinheiro. O retorno foi maior ainda e trouxe de volta algo que nenhum contrato pode comprar: o controle. No caso de Gusttavo, o retorno apareceu de forma inequívoca em 2021.

Em plena pandemia, ele vendeu 192 shows da temporada de 2022 para um fundo de investimentos por R$ 100 milhões. Foram R$ 520 mil por apresentação, garantidos antes de subir num palco sequer.

Era o sinal mais claro possível de quanto o mercado havia revalorizado aquele ativo. Hoje seu patrimônio é estimado em R$ 1 bilhão. Possui fazendas, jato, iate e marcas próprias como o “Vermelhão”.

Tudo foi construído depois do colapso de 2014. O que ele fez tem nome no mundo dos negócios: verticalização. Isso significa cortar intermediários e absorver elos da cadeia produtiva.

A estratégia aumenta a margem sem necessariamente aumentar o preço. É notoriamente dolorosa de executar, pois exige um custo imediato alto para liberar um ganho futuro maior. No varejo, a Amazon fez isso.

A empresa construiu sua própria logística, data centers e sistema de pagamentos. Hoje a AWS e o FBA são os ativos mais lucrativos da companhia. No agronegócio, frigoríficos como a JBS cresceram assim.

Eles compraram cada elo da cadeia, da fazenda ao balcão do supermercado. A lógica é sempre a mesma: cada intermediário que você elimina não apenas reduz custo, mas aumenta a margem de forma multiplicativa.

Agora você captura o lucro que antes ia para outro. Ainda ganha controle sobre a qualidade, o timing e o relacionamento com o cliente final. O caso de Gusttavo Lima é didático pelo timing da decisão.

Ele não verticalizou quando estava quebrado e sem opção. Ele escolheu quebrar para poder verticalizar. Foi uma decisão estratégica disfarçada de crise que ele se deu ao luxo de provocar.

Ele enxergou, antes de todo mundo, o que estava do outro lado. Nem todo empresário tem essa clareza ou coragem de pagar o preço de sair de uma estrutura que ainda funciona, mas já não serve.

Gusttavo Lima tinha os dois e a conta fechou. Quantos intermediários estão comendo a sua margem hoje? Fornecedor que cobra caro demais ou representante com comissão alta?

Plataforma com taxa abusiva ou distribuidor que você poderia substituir por canal próprio? Quanto custaria cortar um deles? Pode ser que valha a pena pagar caro agora para ficar com tudo depois. Faz a conta.

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Marcio Eugenio é empresário do setor têxtil, cofundador da F5 Têxtil e criador do “Workshop Fabrique Sua Malha”. Analisa estratégias de lucratividade empresarial para donos de negócio.