Published by Mynd8 under license from Billboard Media, LLC, a subsidiary of Penske Media Corporation.
Publicado pela Mynd8 sob licença da Billboard Media, LLC, uma subsidiária da Penske Media Corporation.
Todos os direitos reservados. By Zwei Arts.

Os desafios da produção de megaeventos no Brasil

Camila Rebouças é Head de Projetos e Produção Executiva

Camila Rebouças fala sobre os desafios da produção de megaeventos no Brasil (divulgação)

Camila Rebouças (divulgação)

Quem vê um megaevento pronto raramente imagina o que existe por trás. Palco no lugar, artista no horário, público satisfeito… Ver tudo funcionando pode dar a impressão de que basta vender ingressos e abrir os portões. Mas não é bem assim. Ao longo de mais de duas décadas atuando nessa área, aprendi que, por trás de cada espetáculo, tem uma engrenagem que só funciona quando gestão, operação, financiamento e articulação entre poder público e iniciativa privada andam juntos e em sintonia.

Não existe receita pronta, mas alguns fatores são indispensáveis à produção de eventos de grande porte. O primeiro é a gestão, que atravessa tudo: da concepção ao pós-evento. É ela que define conceito, curadoria, orçamento, cronograma, comunicação e contratação de fornecedor, e coordena uma cadeia de pessoas que precisa funcionar como um time só. Também é a gestão que calcula e gere os riscos. Sejam financeiros, responsabilidade civil, obrigações trabalhistas e um ativo valioso e cada vez mais difícil de recuperar: a reputação.

Outro ponto é a composição das receitas. Patrocínio ainda é essencial, mas raramente sustenta um megaevento sozinho. Ingresso, alimentação e bebidas, ativação de marca, produto oficial, direito de transmissão e, por vezes, apoio público formam uma equação que precisa estar fechada antes da operação começar, não no meio dela.

A infraestrutura talvez seja o retrato mais fiel da realidade brasileira. Diferentemente de países com estrutura permanente pronta para grandes eventos, boa parte do que fazemos aqui acontece em praias, gramados ou em vias públicas fechadas de última hora. Isso significa montar quase tudo do zero: megapalcos, energia, iluminação, sinalização, logística para dezenas de milhares de pessoas. Somo, aqui, um fator que era exceção e virou regra: o clima. Calor extremo, tempestade e vento forte entram no projeto desde o primeiro rascunho.

Recentemente, o Global Citizen Live Rio, evento que levou conscientização e mobilização social às areias do Rio de Janeiro, precisou ser transferido da praia de Ipanema para a Enseada de Botafogo devido à previsão de uma forte ressaca. Ter cautela e saber recalcular a rota, muitas vezes, é necessário, inclusive em produções internacionais.

Global Citizen Festival: Amazônia reuniu música e mobilização climática no Mangueirão, em Belém, em 2025 (Divulgação)
Global Citizen Festival: Amazônia megaevento reuniu música e mobilização climática no Mangueirão, em Belém, em 2025 (Divulgação)

Há bastante tempo, segurança deixou de ser só controle de público. Agora, é engenharia de multidão de verdade, com muito cálculo de fluxo, rota de evacuação e protocolo de emergência. A tecnologia ajudou bastante nesse quesito, com reconhecimento facial e cashless, mas, por outro lado, criou uma dependência nova. Quando a conectividade cai, o que era problema de TI vira problema de operação em segundos.

Um aspecto ainda subestimado nessas produções, com certeza é o impacto econômico. Megaeventos movimentam o turismo, a hotelaria, transportes e uma cadeia inteira da economia criativa. Por isso, o investimento público nesse setor não deve ser tratado como benesse ou favor e, sim, como instrumento que amplia a arrecadação, estimula negócios, fortalece o destino turístico e ameniza os efeitos da sazonalidade.

Um grande exemplo disso é o sucesso do Todo Mundo no Rio. Segundo a Riotur, a primeira edição, com a popstar Madonna, da qual tive a oportunidade de participar, reuniu mais de 1,6 milhão de espectadores, registrou 96% de ocupação hoteleira e gerou um retorno superior a R$ 300 milhões para a economia. Resultados semelhantes aos das demais edições reforçam, sob a perspectiva econômica, a continuidade do projeto.

A cantora Madonna
Madonna durante o megaevento do Todo Mundo no Rio no Brasil em 2024 (Manu Scarpa/BrazilNews)

Por último, destaco o fator mão de obra. São milhares de profissionais envolvidos no planejamento e na operação: produtores, técnicos especializados, equipes de limpeza, alimentação, segurança e logística. São eles que sustentam toda a engrenagem enquanto os holofotes permanecem voltados para o palco. Em tempos de políticas ESG, cresce a responsabilidade de transformar discurso em prática também para quem trabalha nos bastidores. Sustentabilidade e responsabilidade social não podem existir apenas nas campanhas; precisam estar presentes nas relações de trabalho e nas condições oferecidas aos profissionais que, de fato, fazem o espetáculo acontecer.

Organizar um megaevento no Brasil é administrar risco o tempo inteiro sem deixar a audiência perceber. O público compra uma experiência, mas ela só existe porque teve planejamento, investimento e uma capacidade de coordenação enorme entre organizadores, artistas, patrocinadores, fornecedores, trabalhadores e o poder público.

No fim, o sucesso de um megaevento se mede também pelo que o público nunca vê: o risco que foi evitado, o problema que não aconteceu, a operação que rodou praticamente invisível. A lembrança que fica na cabeça de quem foi é fruto de meses de planejamento e do trabalho duro e silencioso de milhares de pessoas. Quanto mais o setor investir em gestão, inovação, capacitação e valorização das pessoas, maior será sua capacidade de transformar grandes eventos em legado econômico, cultural e social.

Acompanhe as redes sociais da Billboard Brasil: Camila Rebouças fala sobre os desafios da produção de megaeventos no Brasil

Camila Rebouças é Head de Projetos e Produção Executiva na Join Entretenimento.