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Coluna: Quanto mais tecnológico o mundo, mais valioso será o encontro

Leia a coluna de Dody Sirena

Dody Sirena para a coluna de música ao vivo e IA (divulgação)

Dody Sirena (divulgação)

Há alguns milhares de anos, antes mesmo de Cristo, o ser humano já fazia uma coisa que continua fazendo até hoje: encontrar gente.

Nos reuníamos para caçar, negociar, rezar, celebrar, competir, decidir e contar histórias.

Yuval Harari, no livro “Nexus”, fala sobre a capacidade humana de construir redes a partir da informação e de histórias compartilhadas.

De certa maneira, um show continua sendo uma das manifestações mais poderosas dessa velha tecnologia humana: centenas e até milhares de desconhecidos ocupando o mesmo espaço, na mesma hora, compartilhando uma história.

Só que agora chegamos a um momento curioso e talvez assustador.

Depois de internet, streaming, smartphones e redes sociais, uma nova avalanche tecnológica avança sobre a indústria da música.

A inteligência artificial já não atua apenas na distribuição ou na comunicação da obra.

Ela começa a participar da própria criação. Compõe, produz, imita vozes, recria imagens, inventa artistas, personaliza conteúdos e embaralha as fronteiras entre original e reprodução, criador e criatura.

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E tudo isso acontece numa velocidade muito maior do que nossa capacidade de estabelecer critérios éticos, econômicos e regulatórios.

Sou totalmente a favor da tecnologia. Em 48 anos trabalhando com entretenimento, vi praticamente todas as grandes transformações tecnológicas do nosso negócio.

Quando comecei, não havia internet, celular, streaming ou rede social. Mudaram as ferramentas, os formatos, a distribuição, a comunicação, a forma de consumir música e o comportamento do público.

Música no streaming

Mas talvez estejamos vivendo algo diferente agora.

Até aqui, a tecnologia ampliava principalmente a capacidade humana. Agora começamos a perguntar em que medida ela poderá substituí-la, simulá-la ou apropriar-se dela.

De quem é uma voz? De quem é um rosto? Quem é autor quando uma máquina aprende com milhões de obras anteriores? Quem remunera o artista cuja criação ajudou a treinar aquilo que passará a competir com ele?

E quem estabelece as regras quando a inovação corre a 200 quilômetros por hora e a regulação ainda procura a chave do carro?

Não tenho todas as respostas. Desconfio de quem diga que tem.

Mas tenho uma convicção construída em quase cinco décadas observando públicos: quanto mais artificial e infinitamente reproduzível se tornar o conteúdo, maior poderá ser o valor daquilo que é irreproduzível.

E poucas coisas são tão irreproduzíveis quanto “estar lá”.

Por isso acredito que o show, o evento, a live performance podem ocupar um lugar ainda mais importante na indústria musical que está surgindo.

Um algoritmo pode recomendar uma música. Uma IA pode criar uma canção. Uma plataforma pode colocar praticamente todo o repertório do planeta na palma da nossa mão através do celular.

Mas nenhuma delas consegue reproduzir exatamente o que acontece quando milhares de pessoas cantam juntas e um artista responde à energia daquela plateia naquele instante.

Aquele encontro e aquela noite só existem uma vez.

Aprendi isso produzindo grandes shows, festivais e experiências muito diferentes entre si. Com Michael Jackson, aprendemos sobre o poder do desejo.

Com o Planeta Atlântida e Tomorrowland, vimos um festival deixar de ser apenas a soma das atrações para se transformar em comunidade.

Com a criação do Projeto Emoções com Roberto Carlos, o show se expandiu para um universo de convivência e experiência.

Em projetos imersivos, nos nossos parques e espaços permanentes, aprendemos que conteúdo também pode ser aquilo que atravessamos, tocamos, escutamos e descobrimos.

Consciencia é o tema do Tomorrowland Brasil 2027 (divulgação)
Tomorrowland 2026 (divulgação)

O formato mudou. A essência, não.

E talvez seja justamente essa essência que volte a ganhar valor econômico e cultural.

O Brasil tem uma posição extraordinária nessa discussão. Como lembrou Marcelo Castello Branco recentemente em artigo na Billboard, mais de 75% do consumo musical no país é de música brasileira.

Somos um dos dez maiores mercados fonográficos do mundo e temos um patrimônio de artistas, repertórios, ritmos e diversidade cultural que poucos países possuem.

Mas o acesso trouxe também o excesso.

Temos milhões de músicas, vídeos, posts, recomendações e estímulos disponíveis permanentemente. A escassez deixou de ser conteúdo. A escassez passou a ser atenção. E, talvez, presença.

É aí que o ao vivo encontra sua oportunidade.

Se eu tivesse que montar hoje um pódio das ferramentas de comunicação, colocaria a mídia convencional em terceiro lugar, o digital em segundo e a experiência em primeiro. Não porque uma substitua a outra. Ao contrário: elas precisam umas das outras.

A mídia conta uma história. O digital permite interagir e multiplicar essa história. A experiência nos coloca dentro dela.

E, quando uma experiência é realmente boa, ocorre algo ainda mais interessante: ela volta para a mídia convencional e digital transformada em conteúdo. Um show gera milhões de imagens, conversas, vídeos e memórias.

O presencial alimenta o virtual, que novamente produz desejo pelo presencial.

O melhor evento não termina quando as luzes se apagam.

Isso também cria uma enorme responsabilidade para nossa indústria. Se a inteligência artificial está alterando a criação, a propriedade intelectual, a comunicação, o marketing e a distribuição, precisamos discutir rapidamente quais serão os limites e as regras desse novo jogo.

Tecnologia sem critério não é necessariamente evolução. E inovação sem responsabilidade pode criar valor para alguns enquanto destrói valor para muitos outros.

Não acredito, porém, que a resposta seja tentar deter a tecnologia. Nunca conseguimos fazer isso e provavelmente nunca conseguiremos.

A questão é outra: o que vamos fazer com ela?

Podemos usar inteligência artificial para conhecer melhor públicos, reduzir desperdícios, ampliar acessibilidade, criar cenários, personalizar jornadas, traduzir idiomas e potencializar a criatividade humana.

Mas precisamos decidir em que momento a ferramenta começa a ocupar indevidamente o lugar do autor, do intérprete e da própria criação.

Essa talvez seja uma das grandes conversas dos próximos anos. Enquanto ela acontece, continuo acreditando numa tecnologia muito mais antiga: gente.

Gente quer encontrar gente. Quer pertencer. Quer se emocionar. Quer olhar para o palco e saber que aquilo está acontecendo ali, diante dela, naquele segundo. Quer voltar para casa com uma história que não estava disponível para download.

A inteligência artificial poderá criar coisas extraordinárias. E certamente transformará profundamente a música. Mas, quanto mais perfeita se tornar a capacidade das máquinas de fabricar o artificial, mais importante será sabermos preservar o valor do humano.

Talvez o futuro da música ao vivo não seja competir com a tecnologia.

Talvez seja oferecer aquilo que nenhuma tecnologia consegue prometer completamente: a certeza de que você precisava estar lá.