Coluna: Anitta prova em ‘EQUILIBRIVM’ que repertório é tudo
Colunista analisa show de Anitta em São Paulo e destaca repertório

Anitta durante participação no 'Fantástico' (Globo/Raísa Carvalho)
Domingo, eu fui assistir à nova turnê da Anitta, “EQUILIBRIVM”, aqui em São Paulo e posso dizer, foi um dos melhores shows de uma artista brasileira que vi nos últimos anos. E olha que eu já vi show, hein. É muito bom quando você vê um artista se superando, quando alguém que já chegou tão longe consegue chegar artisticamente a um lugar ainda maior.
“EQUILIBRIVM” é um show lindo, criativo, sensível, emocionante e, acima de tudo, muito bem pensado. Mas antes de falar dos detalhes, eu quero falar de uma coisa que, para mim, vem antes de tudo: as músicas. Repertório é tudo. Eu sempre falo disso.
Você pode ter o maior cenário do mundo, a melhor luz, milhões de efeitos, bailarinos e figurinos, se não tiver música boa, não existe espetáculo que se sustente. E “EQUILIBRIVM” tem grandes canções, muitas. Anitta colocou o novo repertório no centro do show.
Em vez de construir uma apresentação dependente dos grandes hits que acumulou ao longo da carreira, ela confia nos dois volumes do álbum novo e passa a maior parte do espetáculo dentro desse novo universo. E o público sabe tudo, canta as letras, responde, está conectado àquelas músicas e principalmente às mensagens delas.
Tem espiritualidade, tem fé, tem amor, tem autocuidado, tem reflexão, tem corpo, tem liberdade. Musicalmente, é um Brasil enorme. No show tem música afro-brasileira, tem tambor, tem metais, tem MPB, samba, forró, pop, rock, reggae. Gilberto Gil COM “Andar com Fé”. E Djavan com “O Azul”, em espanhol.

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Uma banda excelente, dando um peso especial a tudo isso. Um destaque para a direção musical do Thiago Gomes, meu amigo JP na bateria e o Bruno Santos no trompete nos arranjos de metais. PA estava maravilhoso, som quente, potente, gostoso de ouvir. Obra-prima do meu amigo Arthur Luna.
Tem outra coisa que eu valorizo muito. Por trás dessas músicas existe uma nova geração de compositores e produtores excepcionais. “EQUILIBRIVM” é um achado de colaborações, um time jovem de novos compositores, produtores e engenheiros de áudio. E Anitta não esconde essas pessoas, pelo contrário, fala delas, agradece, dá os nomes e valoriza quem construiu esse trabalho com ela.
No show de São Paulo, por exemplo, ela recebeu Katú Mirim e Brô MCs para cantar “O que?” justamente no Dia Internacional dos Povos Indígenas. Momento muito bonito. E aí entra um dos grandes pilares desse trabalho. A direção criativa é de Nídia Aranha.
Nada ali é apenas estética, existe pesquisa, fundamento, intenção. A espiritualidade, os signos, as cores, as plantas, os figurinos e toda essa brasilidade partem de uma investigação sobre ancestralidade, fé e identidade brasileira. Isso ganha ainda mais força num país tão marcado pelo racismo estrutural e pela intolerância religiosa.

A própria Nídia define “EQUILIBRIVM” como uma espécie de oferenda artística e defende uma ideia que eu gosto muito. Aquilo que produzimos no Brasil em narrativa, intelectualidade, linguagem visual, não deve nada a ninguém. E não deve mesmo. E o show materializa exatamente isso.
É brasileiro sem precisar explicar que é brasileiro, é sofisticado sem parecer gringo. O espetáculo é dividido em atos e vai mudando de temperatura, sai da contemplação, atravessa a espiritualidade, ancestralidade e vai ficando cada vez mais físico, pulsante e explosivo.
Anitta está muito bem, cantando consciente, dançando, sorrindo, emocionada. Mas existe uma coisa nela que vai além de cantar e dançar. Ela sabe estar no palco, tem postura, tem carisma, tem teatro, tem atuação, que sabe exatamente onde está e o que está fazendo. Cada passo tem significado. E o mais impressionante é perceber que esse universo não começa quando o show começa.

O evento inteiro parece um pequeno festival. As ativações, as experiências de bem-estar, a ideia de equilíbrio, paz, conexão, reflexão, tudo conversa com o álbum.
Nada ali parece colocado por acaso. Impressionante a capacidade que Anitta tem de pegar a mensagem central de um trabalho e construir um mundo inteiro em volta dele, um verdadeiro ecossistema do bem-estar. E tudo com muito bom gosto nos detalhes. O show começou às 6 da tarde em ponto, foram quase duas horas de música, com um público extremamente diverso, entregue e conectado.
Quando os hits das outras fases aparecem finalmente com mais força no final, você percebe uma coisa: ela não precisou passar o show inteiro lembrando ao público tudo que já fez. Ela preferiu mostrar onde está agora.
Após tantos anos de carreira, tantos hits, tantos países e tantas versões da Anitta, ela consegue fazer um espetáculo que parece menos preocupado em provar alguma coisa, mais interessado em dizer alguma coisa. “EQUILIBRIVM” tem produção, estética, performance e espetáculo. Mas no centro de tudo continuam estando elas, as canções.
E quando você tem uma superstar global que sabe inovar dentro do próprio universo, aliada a um repertório imbatível, a mágica acontece. Porque repertório é tudo.
Veja o vídeo de Rodrigo Lampreia sobre Anitta
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