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Opinião: o Brasil não cabe mais no Brasil

Leia a coluna de Marcelo Castello Branco

Marcelo Castello Branco Brasil

Marcelo Castello Branco (Divulgação)

O Brasil quer sair do Brasil.

Vamos começar com os fatos. O Global Music Report 2026 da IFPI (Federação Internacional da Indústria Fonográfica), divulgado em março de 2026 com dados de 2025, aponta que o mercado global de música gravada cresceu 6,4%, atingindo US$ 31,7 bilhões.

O Brasil mantém forte destaque, ocupando a 8ª posição no ranking mundial de crescimento do setor fonográfico, impulsionado principalmente pelo consumo de serviços de streaming. O país segue consolidado entre os dez maiores mercados fonográficos do planeta, destacando-se consistentemente no engajamento digital e consumo de música nacional e internacional.

Mais de 75% do consumo musical no Brasil é de música brasileira, dado raro que demonstra o quanto a valorizamos e, ao mesmo tempo, o potencial deste “soft power” para instrumentarmos novos desafios e revermos velhas impossibilidades.

Ou vamos seguir reforçando a ideia de que o Brasil nunca perde uma oportunidade de perder oportunidades? Eu pessoalmente acho que chegou a hora desta gente bronzeada mostrar seu valor. E conheço uma pequena multidão de artistas e executivos decididos a mudar este paradigma e dizimar este estigma.

O incômodo estigma de que a música brasileira é maravilhosa, mas… E quando você assume o “mas”… tudo o que vem antes é desimportante. Nunca tivemos uma infraestrutura tanto a favor, um ecossistema mais profissional, globalizado, digital e acessível.

Claro que trocamos o acesso pelo excesso. A escassez pela abundância. A sede da longevidade pelo instante que não cabe em qualquer estante. Muitas gavetas saíram do armário e armaram suas tendas de comunidades.

+ Veja mais: 50 melhores álbuns brasileiros de 2026 (até junho), segundo a Billboard Brasil

Grammy Latino
Grammy Latino 2026 acontece em novembro deste ano (Divulgação)

E, para mim, esta é a palavra-chave, a senha de novos possíveis mundos, onde fronteiras linguísticas já são secundárias com a volatilidade da tecnologia e a troca é o truque mais mágico e lúcido. Que, apesar de nada nos garantir, inevitavelmente nos fará crescer em outras direções. Vamos reconhecer.

Não fazemos parte da onda latina que domina o mundo, mas somos o candidato mais original para animar a festa. E para isso precisamos estar. Precisamos entrar, às vezes sem bater na porta. Participar. Se misturar. Influir e ser ativo neste fluxo. Atuar com reciprocidade.

Reconhecer que somos latinos retardatários, meio otários por vivermos décadas sonhando com a Europa quando nossas raízes se avizinham pelos lados e para a mãe África, enquanto o maior mercado musical do mundo se latinizou na nossa cara, com 60 milhões de latinos (legais) impondo sua cultura, diáspora e tentáculos de um novo mercado.

É o US Latin empurrando um corredor do mundo latino, um trem de vários vagões numa viagem sem volta. Mais do que nunca, precisamos subir neste trem. Ou inventar um novo trilho e trilha. Nesta nova oportunidade histórica de um novo roteiro e itinerário, o Latin Grammy, já na sua 27ª edição, se credencia como a janela de maior autoridade e oportunidade para o nosso rico e inesgotável repertório em língua portuguesa.

As novas gerações já entenderam isso e ativamente participam deste movimento, que na última edição já levou cerca de 500 brasileiros a Las Vegas. E este número só tende a crescer e nos surpreender. Hoje temos 9 categorias em língua portuguesa, território particular da lusofonia e seus dialetos e idiossincrasias.

Mas o repertório brasileiro pode participar em diversas outras categorias também, principalmente as quatro de maior protagonismo geral, que são:

  • Álbum do Ano: reconhece a qualidade artística, a gravação e a composição de um disco completo lançado no período de elegibilidade.
  • Canção do Ano: premia diretamente os compositores da letra ou melodia de uma música de sucesso.
  • Melhor Artista Revelação: consagra o novo talento que causou maior impacto na música latina durante o ano.
  • Produtor do Ano: destaca o profissional de estúdio por trás dos arranjos, direção e sonoridade dos sucessos latinos.

Cabe-me destacar uma categoria onde o profissional brasileiro brilha todos os anos e pouco se destaca com justiça. A categoria técnica oficial dedicada à engenharia no Grammy Latino chama-se Melhor Álbum de Engenharia de Gravação. Ela faz parte do campo de Produção da premiação. Diferente das categorias focadas nos intérpretes, este prêmio avalia os aspectos técnicos e a qualidade sonora do trabalho de estúdio.

Nesta categoria, ano passado, dos 5 álbuns indicados, três eram de profissionais brasileiros. Um reflexo da maestria e inclusão destes técnicos que se repete quase todo ano, de seu ofício não só de artistas brasileiros, mas de toda a América Latina. A estatueta é entregue diretamente aos engenheiros de gravação, engenheiros de mixagem e engenheiros de masterização responsáveis pelo disco.

O artista que canta só recebe o prêmio se também tiver atuado em uma dessas funções técnicas. Por isso, é fundamental ler e estudar bem as regras de cada categoria. O ato de saber inscrever seu trabalho é vital para ele ter a visibilidade que merece. Para evitar decepções futuras.

Delegar completamente a responsabilidade de inscrever seu produto pode ser um risco indesejado. E as regras se atualizam ou se ajustam todos os anos, como manda a velocidade do mercado. Vale a pena ler e reler para melhor entender. Outra coisa é vital ter em mente.

A Academia Latina de Gravação premia a excelência do produto, não seu lugar no chart ou no top 200 do Spotify. Esta relação pode até acontecer, mas não é para nada obrigatória ou automática. O corpo votante da Academia é feito pelos profissionais do meio de sua própria indústria, numa modalidade chamada “Peer-to-Peer”.

Em português, isso seria como “entre pares”, ou seja, colegas do próprio meio musical. Não existe fã-clube, voto popular ou nado por estilo. Seu trabalho é ouvido e avaliado pelos próprios colegas do mundo latino.

Outra observação e comparação capital: no Oscar, o prêmio do cinema, é “and the winner is”. No Grammy é “the Latin Grammy goes to”. Isso marca toda uma diferença.

Quando você é indicado ao Latin Grammy, no mês de setembro de cada ano, você já deve se considerar um vencedor. Estar entre os indicados finais já merece comemorar e muito. Por isso, a cerimônia mais bonita e simbólica da semana do Latin Grammy é o evento dos indicados, onde todos recebem suas medalhas.

Aqui também vale uma observação. Se seu produto foi inscrito, aconselho veementemente a bloquear a segunda semana de novembro, todo ano. Pelo menos até a indicação final de setembro.

Estar presencialmente significa estar aberto para as inúmeras conexões latinas que sucedem durante toda a semana, onde criação e negócio se misturam sem pudor e com naturalidade. É a maior semana de encontros latinos do ano. Uma semana de insônia e hiperatividade produtiva. Uma semana para aprender novos vocabulários.

Onde todos estão abertos a conhecer seus vizinhos, se aproximar e buscar afinidades, encurtar distâncias fictícias. Este é o maior legado do Latin Grammy, nestes já quase 30 anos de existência.

Um mapa de aproximação, de flerte profissional, uma ponte de circulação e integração de muitos países que política nenhuma consegue desenhar ou desemparedar.

Não porque agora parece ser moda ser latino. Mas é um modo de ver o mundo, de se reconhecer nele, de recosturar novas bandeiras sem a cela da geografia e tendo a música como instrumento e armamento pacificador.

Marcelo Castello Branco é Senior Advisor e Membro do Comitê de Nominação e Governança do Latin Grammy.