No SP2B, Criolo diz que brasileiro vê política ‘como vê novela’
Compositor fez show no Ibirapuera durante festival neste sábado (15)

Criolo vai se apresentar no SP2B (@cidadecinza23)
O cantor e compositor Criolo está conversando com conhecidos no camarim do Auditório Ibirapuera, local onde realizaria show durante o festival SP2B, quando a reportagem da Billboard Brasil rompe o local.
“Agora, vou deixar vocês trabalharem”, diz um dos conhecidos e, então, a sala vira uma entrevista.
Aos 50 anos, Criolo tem as músicas dos álbuns “Nó na Orelha”, “Convoque Seu Buda” e “Espiral da Ilusão” na boca dos espertinhos que conseguiram retirar os ingressos gratuitos para o show que o rapper fez no gramado do Ibirapuera —o show no SP2B é consistente, quase sempre direto e reto.
Momentos antes, ainda no camarim do SP2B, ele conversaria sobre quase 10 anos do álbum “Espiral da Ilusão”, feito durante a chegada de Michel Temer à presidência do país, um movimento símbolo de um país que começava a experimentar palavras como “polarização”, “golpe”, “autocrítica”.
Por muitas vezes considerado “viajandão”, o rapper e as cenas protagonizadas por ele envelheceram bem, algo nítidamente contrastante quando aproximadas de algozes da mídia, da crítica e de campos pouco interessados no rap e na cultura.

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Três perguntas para Criolo e uma canção inedita no SP2B
Billboard Brasil: Eu estava vindo para cá ouvindo o “Espiral da Ilusão”, álbum que completa 10 anos em 2027 [Criolo sugere que fechemos a porta do camarim, o que acontece]. Na época, me chamou atenção a guinada ao samba e também o cronista do álbum em um momento estranho da democracia do Brasil. Você sente os impactos desse álbum considerando que ele não é o álbum mais lembrado da sua carreira?
Criolo: Sim, não. É… Esse álbum vai fazer 10 anos, mas eu esperei outros 10 quando tive no coração de fazê-lo. Gravar samba é uma audácia pelo respeito que tenho. Eu esperei 10 anos e, então, é uma história de 20 anos —para que eu tivesse coragem para pedir permissão ao samba. É muito forte, viu? Ontem mesmo, eu estava em Ouro Preto, fui cantar no festival Tudo É Jazz, maravilhoso. E um casal de senhores me parou na rua e disse: “Olha, a gente escuta muito seu disco de samba. Você vai fazer outro?”.
Então, acho que quem escuta guarda no coração. Assim como eu. Eu tenho feito sambas, mas ainda não dividi com vocês. Eu tinha um álbum de samba que eu ia gravar com Dino d’Santiago com a temperatura e os sabores de Cabo Verde. Não só uma participação dele, mas com ele em todas as faixas. E por conta desses encontros que nasceu a música “Esperança” que fortaleceu a trinca de amizade com o Amaro Freitas e foi o samba que fez a gente se encontrar em um disco de jazz-rap.
Eu tenho conversado com alguns artistas e a iniciativa da pergunta sobre política gera ora desconforto, ora vontade de falar. Como você tem se sentido com a imprensa, visto que artistas também parecem não estar confortáveis com a forma da imprensa usá-los como atores na busca por audiência, principalmente em assuntos como eleições? Você tem gostado de falar sobre isso?
Primeiro, é que a gente não gosta de falar de algo quando sempre acaba em um ponto triste para todos. Desconforto eu não tenho porque eu venho do Grajaú, a minha mãe lutou e lutou e luta a vida toda por melhoria do próximo. Dentro de casa, eu vi uma senhora que ama a palavra, que desafiou tudo e todos para dizer que em um barraco de favela tem uma pessoa que pensa e que intelectualidade independe de CEP.
Todos somos portadores de uma centelha divina muito maior que é capaz de construir pontes. O rap sempre foi muito forte na minha vida e a gente achava que ninguém nunca ia ouvir ou saber. Mas a gente fazia. E eu sou um filho de um cearense maravilhoso, chamado seu Cleon, que só lutou a vida toda. É natural chegar e falar de política, e isso está nas minhas canções. Então, a gente vem dessa picadilha de ensinamento. O que o outro faz disso não está em minhas mãos.
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O primeiro episódio é você com o Clemente [apresentador do programa Showlivre e ex-vocalista da banda punk Inocentes] quando ele te compara ao Freddy Mercury como algo pejorativo e você responde um tanto incrédulo com a graça que move a piada —o fato de o vocalista do Queen ser homossexual. Você saiu como piada, na época. E, depois, a entrevista com o Lázaro Ramos, no Canal Brasil, que você mesmo memetiza no álbum “Convoque Seu Buda”.
Sim, mas eu nem sabia. Eu só estava sendo natural, como o samba, como o rap em seus ensinamentos. Você não tem ideia da proporção porque você está tentando ser natural. É um não-habitat. A gente não nasce, cresce e se desenvolve dentro de uma entrevista, em uma construção de mídia. Eu não tive a felicidade de nascer dentro de uma empresa de comunicação. A gente não nasce em um estúdio, não é profissional da comunicação.
Mas quando vai ver, é freestyle, como nas canções. Não é caso armado, pensado, bolado. Embora isso aconteça com tantos artifícios e outras tantas histórias. São muitos hubs para se pensar o que é troca de diálogo e a evolução tecnológica e do ganha-pão através dessa tecnologia da comunicação também criou outros bolsões de como sobreviver… A comunicação é o grande poder do Brasil. Nós gostamos de novelas, aprendemos a odiar, amar personagens. E temos isso com a política. Preferimos absorver personagens mais que performance. E a gente vai vivendo esse freestyle. [O rapper começa a criar uma música].
Hoje posso até pensar que fui
e, se era, talvez, não sei.
Amanhã, talvez, eu e você na boca do tempo.
De quatro em quatro, cê lembra de mim
e, assim, vou seguir, sem paixão.
Por nós dois, te amar, e seguir.
Deixa o sol bater
na onda do mar
da praia de quem
não sabe o que é solidão
Paixão ou não
A boca atende
O coração às vezes nem passa pela razão
e, assim, na dura.
Vida, luta
cê me julga
Vou seguir…
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