Coluna: música em excesso e artista em risco no desequilíbrio da indústria
Nunca se produziu tanta música, mas o preço está sendo pago por quem a faz

Música, arte e tecnologia (CDX/Unplash)
É possível que uma cultura esteja cheia de música e, ao mesmo tempo, torne economicamente descartáveis as pessoas que produzem? Essa pergunta está no centro de um artigo publicado pela “Digital Music News”, e ela me fez pensar sobre um dos grandes desequilíbrios da indústria atual.
A música está em todos os lugares: nas plataformas, nas redes sociais, nas lojas, nos restaurantes, nos filmes, nos games, na publicidade. Nunca a tivemos com tanta disponibilidade, e também nunca foi tão acessível fazer, lançar, distribuir e produzir.
Mas construir uma carreira sustentável continua sendo muito difícil — todo mundo sabe disso. Eu trabalho com artistas há quase 30 anos, e acompanhei muitas dessas transformações de perto ao longo dos últimos anos. As ferramentas ficaram muito mais acessíveis, a distribuição foi democratizada, e um artista hoje consegue lançar uma música para o mundo inteiro praticamente sozinho, consegue produzir praticamente sozinho e, em pouco tempo, distribuir tudo isso. Isso é, de fato, extraordinário. Mas, ao mesmo tempo, uma parte enorme do risco foi transferida para ele.
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Hoje o artista compõe, grava, investe, lança, produz conteúdo, alimenta as redes, constrói comunidade — e ainda precisa descobrir como transformar tudo isso numa carreira. E aí, quando não funciona? Vão dizer que faltou conteúdo, faltou estratégia, faltou entender o algoritmo, faltou construir a fanbase, faltou público. Só que existe um limite para responsabilizar individualmente o artista por tudo.
Eu não acredito que a indústria tenha a obrigação de sustentar toda pessoa que decide fazer música. Nenhuma carreira está garantida — ninguém está garantido nesse sentido.
Repertório, talento, profissionalismo, planejamento, estratégia e comportamento continuam sendo fundamentais, mas existe uma grande diferença entre não garantir o sucesso de alguém e construir um ecossistema que depende do artista enquanto transfere cada vez mais o risco para ele. E é aqui que a inteligência artificial torna essa discussão ainda mais importante.
Eu não acho que a questão seja simplesmente ser contra ou a favor da IA. A pergunta que realmente me interessa é: quem ganha poder com ela?

Se a tecnologia ajuda músicos a criar, produzir e trabalhar melhor, preservando autoria, propriedade e controle, ótimo. Mas se ela passa a ser usada para imitar, substituir ou diminuir ainda mais o valor de quem cria, temos um problema muito maior. Porque o perigo não é ficarmos sem música — teremos mais música do que nunca, a música é abundante hoje em dia. O perigo é termos música infinita e cada vez menos pessoas com condições de dedicar a vida a fazê-la.
Isso importa porque artistas não produzem só conteúdo: eles transformam experiências em canções, documentam épocas, representam lugares e comunidades, criam movimentos culturais, são testemunhas do seu próprio tempo.
A tecnologia vai continuar avançando, a música vai continuar mudando, e o artista também precisa mudar com ela. Mas uma indústria que precisa cada vez mais de música não pode precisar cada vez menos de quem faz música. Esse, para mim, é o verdadeiro desequilíbrio.
Veja o vídeo de Rodrigo Lampreia sobre o desequilíbrio da indústria musical
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