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‘Gil, Andar com Fé’: um espetáculo que ensina a ficar amigo do tempo

Julio Beltrão, CEO do Prêmio Potências, fala sobre o musical; leia

Julio Beltrão (divulgação)

Julio Beltrão (divulgação)

Não é todo dia que um espetáculo nos convida a dançar antes mesmo de o piano começar a tocar. Mas “Gil, Andar com Fé”, a primeira biografia musical de Gilberto Gil, em cartaz no Teatro Santander até 29 de novembro, faz exatamente isso. E faz com a leveza de quem sabe que o tempo, afinal, é um velho conhecido.

Sob direção de Miguel Falabella e com texto de Newton Moreno, a montagem nos puxa para dentro de um fluxo vivo onde passado, presente e futuro se misturam sem pedir licença. E como não se render? A estreia para convidados, na última segunda-feira (24), já deu o tom: o próprio Gil, aos 84 anos, esteve lá, ao lado de Falabella, recebendo amigos como Baby do Brasil, Heloísa Périssé e Linn da Quebrada. O teatro, ali, virou extensão daquele abraço que ele canta.

No palco, Gui Ventura e 34 artistas conduzem essa conversa profunda com uma das figuras mais emblemáticas que já pisaram na terra. E o fio condutor? O exílio em Londres, em 1969. É dali que a narrativa se desdobra, sem pressa e sem ordem cronológica, passeando pela infância em Ituaçu, pelas efervescências da Tropicália, pela dor da ditadura, pelo reencontro visceral com a negritude e pelo retorno ao Brasil. Tudo ao mesmo tempo, como num grande tambor que bate no peito.

Gilberto Gil e Gui Ventura para o musical 'Andar com Fé'
Gilberto Gil e Gui Ventura para o musical ‘Andar com Fé’

Mas é num dos momentos mais silenciosos que o espetáculo nos pega de jeito. Quem teve a sorte de conhecer a luz de Preta Gil sabe: leve seus lenços. A cena entre Gui Ventura e Luci Saluzzi, que interpreta Preta com uma sensibilidade rara, é puro afeto, um respiro que arrepia e transborda o teatro.

A cenografia, por si só, já merecia um capítulo à parte. Uma explosão visual que resgata o vanguardismo dos anos 1950 e nos lembra o impacto definitivo da viagem de Gil a Lagos, em 1977. O musical acerta em cheio ao mostrar como aquela imersão na diáspora africana ressignificou seu olhar e, de quebra, transformou a favela não em espaço de potência e protagonismo negro.

E é aí que mora a grande força da montagem: ela nos lembra que contar a própria história é um ato de urgência e de afeto. Quando a arte brasileira ocupa os grandes palcos com rigor estético e memória cultural, ela devolve ao público a dignidade da sua identidade. “Gil, Andar com Fé” reafirma que nossa história é patrimônio vivo.

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Julio Beltrão é CEO do Prêmio Potências.