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Sangue de Bode: um papo sobre como a dor moldou um dos álbuns de metal do ano

Vocalista Verme fala sobre morte, identidade e disco elogiado pela crítica

Sangue de Bode

Sangue de Bode (Divulgação)

Tristeza e orgulho caminham em paralelo enquanto o vocalista e guitarrista Verme fala sobre “O Funeral de Tudo”, quarto disco do Sangue de Bodee um dos destaques da lista de melhores álbuns do semestre da Billboard Brasil.

Vindo da região serrana do Rio de Janeiro, o grupo lançou seu quarto álbum, com a máxima de não se repetir. “O Funeral de Tudo” mistura black metal e grindcore com influências de death, thrash, sem perder identidade. Pelo contrário: cada vez mais o grupo encontra seu caminho — mais sujo, ousado, pesado e também sofrido.

Para Verme, esse peso nunca foi uma construção estética. As letras surgem de experiências pessoais que atravessam praticamente toda a história da banda: a morte do pai após anos de alcoolismo e, mais recentemente, a perda de um amigo e do próprio tio durante a gravação do disco transformaram o que era trabalhar com o que eles vinham compondo havia dois anos.

“O Sangue de Bode nasceu de um acúmulo de experiências muito bizarras e traumáticas da minha vida”, resume ele, sobre sua experiência na banda.

Em entrevista à Billboard Brasil, Verme fala sobre a origem da banda em Miguel Pereira (RJ), cidade de 30 mil habitantes, explica por que evita rótulos como black metal e conta como encontrou no grupo uma forma de transformar dor em música.

Como nasceu o Sangue de Bode?

Verme: A banda foi formada aqui na minha cidade, Miguel Pereira. A gente tinha um parceiro, o Marquinho Pirata, que tem um estúdio. Praticamente toda a origem da banda aconteceu graças a ele, por a gente ter um lugar pra ensaiar, criar e gravar.

Você já tinha um gosto pelo metal extremo?

Eu tenho contato com rock desde que nasci, por causa do meu tio. Comecei ouvindo Kiss, Guns N’ Roses, Raimundos… Quando chegaram Pantera e Sepultura, a coisa mudou. E o que virou a chave pra mim foi ouvir “Inhale/Exhale”, do Nasum, e “Live Kreation”, do Kreator. Desde os 14 anos eu tive banda autoral. Trabalhei também como músico da noite durante muito tempo e, antes do Sangue de Bode, eu já tocava com o Gabriel (conhecido como Sinuê, bateria) e o Zé (baixo) em outra banda, mas era uma coisa mais alternativa, mais Deftones. [O grupo ainda conta com Nekrose na guitarra]

Eu e o Gabriel queríamos fazer um negócio realmente pesado. No começo pensamos em algo que tivesse uma base meio grind, meio black. Só que eu sempre fui muito influenciado pelo Max Cavalera, e essa influência acabou se misturando com aquela base mais black e grind e virou essa mistura que a gente faz até hoje. Muita gente chama de hardcore, muita gente chama de black metal. Eu considero metal. Nunca fiquei muito preso a subdivisões. O importante é que tenha identidade e que a gente não faça o mesmo disco duas vezes.

O que “O Funeral de Tudo” representa para vocês?

Foi um disco muito selecionado. Das oito músicas, acho que existiam pelo menos umas 16 ideias. Quando lançamos “Eu Sou a Derrota”, em 2024, já existiam rascunhos do que seria esse álbum. Então ele foi muito trabalhado. Também foi o primeiro disco gravado depois de muitos anos fazendo turnês, o que deixou a banda mais entrosada. E a gente teve a decisão curiosa de gravar tudo na afinação padrão. O peso do disco não vem de afinações graves. Ele vem da construção das músicas.

Você conta que o álbum acabou ganhando outro significado durante a gravação, com questões pessoais influenciando…

Foi uma loucura. A gente já tinha conceito, título, letras, praticamente tudo pronto. Durante a gravação, eu perdi um amigo muito próximo em um acidente. E tem uma música em que a guitarra para de tocar; foi exatamente o momento em que me deram essa notícia. Trinta dias depois meu tio também faleceu. Tudo aquilo que tinha sido pensado artisticamente virou realidade de um jeito muito pesado. Mudou completamente a forma como eu escuto esse disco, até hoje.

Sangue de Bode
Sangue de Bode, com Verme na parte de baixo, com o rosto pintado de branco

O Sangue de Bode sempre trabalhou temas muito pesados. De onde isso vem?

É uma coisa muito natural para mim. O Sangue de Bode, da minha parte, tem um acúmulo de experiências muito bizarras e traumáticas da minha vida. Passei por muitas situações difíceis na infância, problemas com padrasto. Meu pai enfrentou um alcoolismo muito pesado, que virou um câncer. Enquanto meus amigos estavam estudando e curtindo a vida, eu estava vendo meu pai morrer dentro de casa. Dois anos depois da morte dele, um dos meus melhores amigos tirou a própria vida. Foi justamente no ano em que o Sangue de Bode surgiu. O Gabriel viveu tudo isso comigo. Então, quando a banda nasceu, era sobre isso que existia para falar.

Você enxerga a banda como uma forma de lidar com tudo isso?

Com certeza. Ainda bem que eu tenho a banda para gritar essas coisas, porque eu não sei como seria lidar com isso sem ela. Não é um sentimento que você fala uma vez e acabou. Ele continua ali. Por isso eu sempre digo que o Sangue de Bode é mais triste do que raivoso. O primeiro disco é muito mais raivoso porque tudo era muito recente. Depois veio uma melancolia maior. Acho que a banda sempre transitou entre esses dois sentimentos.

O disco já vem ampliando o alcance da banda? Como foi se ver ali na lista da Billboard Brasil?

A repercussão tem sido muito especial. Conseguimos organizar uma turnê logo depois do lançamento. E, em números, também é o álbum que mais cresceu rapidamente na nossa discografia. A turnê fez a gente conhecer uma galera muito legal, como os caras do Angra. Para quem cresceu ouvindo rock, isso significa muito. E sair na lista foi muito foda, é papo de mandar pro meu grupo da família, né? (risos). Ainda estamos curtindo esse momento.

Foi um disco muito triste para mim por tudo que aconteceu, mas também é um disco de que eu tenho muito orgulho.

Ouça Sangue de Bode