Entevista: os Rolling Stones voltam a rugir com novo disco
Aos 82 anos, Mick Jagger e Keith Richards seguem vitais e criativos

Rolling Stones: Mick Jagger e Keith Richards (Joe Pugliese/Kevin Mazur)
Sob uma cobertura de jardim à beira da piscina, no oeste de Londres, Mick Jagger me oferece uma escolha irônica enquanto nos sentamos:
“Devo ser educado e inglês ou grosseiro como um nova-iorquino?”
O roqueiro inglês, que morou em Nova York durante 18 anos e recebeu o título de cavaleiro em 2003, sorri de maneira provocadora — mas temos a impressão de que ele poderia assumir qualquer um dos dois registros sem dificuldade. O vocalista dos Rolling Stones consegue mudar de tom num piscar de olhos, à la “Jumpin’ Jack Flash”, falando com a mesma naturalidade sobre física, aviação, estrelas do pop e músicos de blues.
Quarenta e oito horas depois, quando me encontro com Keith Richards em um clube de jazz de Manhattan para uma conversa separada, ele não oferece opções: Keef é simplesmente Keef. Enquanto Jagger, aos 82 anos, é polido e atento aos detalhes — ele opina sobre a posição das nossas cadeiras em relação à câmera que grava a entrevista e observa que um avião que passa deve ser “antiquado”, porque consegue ouvir sua hélice —, Richards, também com 82 anos, é descontraído e discretamente travesso. Solta risadas graves e frases rápidas sobre assuntos que vão de smartphones — “Sinto que a Cidade dos Brinquedos escapa de mim” — aos netos: “Há umas criaturinhas rolando por aí que lembram vagamente alguém.”
Eles podem compartilhar a obsessão pelo blues e pelo R&B norte-americanos, mas os Glimmer Twins estão longe de ser idênticos. Desde sua primeira gravação, há 63 anos, essa alquimia de água e óleo alimenta a maior banda de rock’n’roll do mundo.
Os Stones começaram como um grupo de covers de rhythm and blues liderado pelo guitarrista Brian Jones. Mas a dupla de compositores formada pelo cantor Jagger e pelo guitarrista Richards — que surgiu quando o então empresário Andrew Loog Oldham exigiu que eles escrevessem o próprio material para acompanhar o ritmo dos Beatles — logo se transformou na arma não tão secreta da banda.
Discípulos de Chuck Berry, Jagger e Richards dominaram a arte da concisão cortante do rock, lançando uma sequência de singles que atravessavam gêneros. Cinco dos oito primeiros lugares do grupo na Billboard Hot 100 foram conquistados entre 1965 e 1969. As músicas fizeram deles estrelas dos dois lados do Atlântico e inspiraram uma geração de roqueiros — do garage ao punk e ao country —, de Croydon à Califórnia.
Mas o sucesso também deixou vítimas. Em julho de 1969, Jones foi encontrado morto na piscina de sua casa, aos 27 anos, semanas depois de uma reunião com Jagger, Richards e o baterista Charlie Watts sobre seu abuso de drogas ter levado à saída do músico do grupo. Meses depois, uma mulher foi esfaqueada até a morte durante o show da banda no Altamont Free Festival — episódio posteriormente apontado como o momento em que o otimismo dos anos 1960 desmoronou.
A turbulência continuou nos anos 1970. Mick Taylor, substituto de Jones, acabou sendo substituído em 1975 por Ronnie Wood, que permanece no grupo desde então. A banda enfrentou prisões relacionadas a drogas, entrou em exílio fiscal fora do Reino Unido e processou o ex-empresário Allen Klein por supostas práticas fraudulentas. O acordo com Klein foi concluído em 1984.
Os problemas jurídicos não acabaram com a criatividade nem com o sucesso comercial. Na verdade, foi durante a chamada “década do eu” que os Stones consolidaram seu estilo particular: um rock sujo, calcado no blues e regado a álcool, conduzido pelo desdém insolente de Jagger e pelo sorriso maroto de Richards.

Essa identidade apareceu em álbuns fundamentais como “Sticky Fingers” (1971), “Exile on Main St.” (1972) e “Some Girls” (1978). No campo empresarial, o lançamento do selo Rolling Stones Records, hoje extinto, em 1970, apresentou ao mundo o icônico logotipo da boca com a língua de fora e sinalizou o esforço da banda para assumir o controle de suas gravações, de suas finanças e de seu futuro.
Em 1986, nove anos antes de ganhar um Grammy competitivo, os Stones receberam da Recording Academy um prêmio pelo conjunto da obra. Mas os veteranos do rock turbulento ainda não tinham terminado de abrir caminhos.
Ao perceber uma oportunidade, os Stones fecharam uma parceria com a fabricante de perfumes Jovan para a turnê de 1981. A banda recebeu vários milhões de dólares para compensar os custos da produção. A turnê “Steel Wheels”, de 1989 e 1990, promovida pelo lendário Michael Cohl, mudou a maneira como as excursões eram montadas e financiadas.
O projeto elevou o padrão dos cenários imersivos e estabeleceu normas para o mercado de shows — patrocínios corporativos e uma ampla oferta de produtos oficiais — que permanecem até hoje.

Desde então, os Stones se mantiveram como uma potência das turnês. Segundo a Billboard Boxscore, a banda arrecadou US$ 2,9 bilhões e vendeu 28,9 milhões de ingressos desde a “Steel Wheels”. Apenas a excursão de 2024 faturou US$ 235 milhões e vendeu 848 mil ingressos em 18 apresentações. Foi a quinta turnê consecutiva do grupo com média mínima de 45 mil ingressos por noite.
Os tempos de turbulência com empresários também ficaram para trás. Joyce Smyth, que entrou no círculo do grupo como integrante de sua equipe jurídica, é empresária da banda desde 2010. Jane Rose administra a carreira de Richards, enquanto Pia Squillino atua como executiva de negócios de Jagger.
Apesar da grande quantidade de shows, houve uma escassez relativa de novas músicas dos Stones no século 21. “Hackney Diamonds”, de 2023, foi o primeiro álbum do grupo formado por material original desde “A Bigger Bang”, de 2005.

Embora a banda estivesse trabalhando nas músicas havia anos, foi necessário um empurrão para que o disco chegasse à linha de chegada. Cerca de um ano depois da morte de Watts, em 2021, aos 80 anos, Paul McCartney sugeriu, durante um jantar com Wood, que a banda desse uma oportunidade ao produtor Andrew Watt — que se tornou uma espécie de especialista de estúdio em veteranos do rock, de Ozzy Osbourne ao Pearl Jam.
No dia seguinte, Wood conversou com Jagger e descobriu que o nome de Watt estava no topo da lista de produtores que o vocalista considerava contratar.
“Então experimentamos esse jovem atrevido” relembra Wood, falando por telefone de Londres, uma semana depois dos meus encontros com Jagger e Richards.
Segundo o guitarrista, que entrou para a banda há 51 anos, mas continua sendo seu integrante “mais novo”, Watt ajudou a manter todos concentrados.
“Keith dizia: ‘Faço minha guitarra na semana que vem’. E ele respondia: ‘Não. Você vai fazer agora’.”
A habilidade musical do produtor fez com que os Stones o levassem a sério.
“Ele é um grande guitarrista. Consegue tocar as minhas partes melhor do que eu” brinca Wood.

“Hackney Diamonds” estreou na terceira posição da Billboard 200, tornando-se o 38º álbum do grupo a chegar ao top 10. Posteriormente, venceu o Grammy de melhor álbum de rock. Desta vez, eles não esperaram 18 anos para lançar um sucessor.
Aproveitando material inacabado das sessões de “Hackney Diamonds”, os Stones voltaram a trabalhar com Watt em “Foreign Tongues”, álbum de 14 faixas lançado em 10 de julho pela Polydor/Capitol — gravadora do grupo desde o disco de covers “Blue & Lonesome”, de 2016.
Com participações discretas de Paul McCartney, Robert Smith, do The Cure, Chad Smith, do Red Hot Chili Peppers, e Bruno Mars, “Foreign Tongues” combina letras incisivas e frequentemente políticas com rock feito para movimentar o corpo, como em “Mr. Charm” e “Divine Intervention”, blues de Chicago, em “Rough and Twisted”, e uma abordagem do country em “Ringing Hollow”.
“Mick é muito concentrado nos grooves, no BPM, no movimento dos acordes e nos acentos” explica Watt, de 35 anos. “Keith consegue transformar isso em poesia: pega algo iniciado por Mick e cria um riff ao qual todos vão se agarrar, uma frase melódica tão marcante que se transforma no gancho da música.”
O resultado é um álbum sólido e potente, que acerta com mais força do que seu antecessor e derruba a ideia de que artistas mais velhos precisam viver de nostalgia.
Mesmo em lados diferentes do Atlântico, a química de yin e yang da dupla é evidente. Diante de perguntas semelhantes, Jagger e Richards partem de pontos distintos, mas frequentemente chegam a conclusões afinadas. Eles são incompatíveis de maneira sublime.
“Os dois são absolutamente incríveis juntos” diz Watt sobre a química da dupla no estúdio. “Não existe música de Mick que não fique melhor com Keith, nem música de Keith que não fique melhor com Mick. Eles se completam. É inacreditável observar e aprender com isso. Eles constroem juntos, tocam seguindo os batimentos cardíacos um do outro e fazem o teto sair voando.”
Quanto de “Foreign Tongues” surgiu das sessões de “Hackney Diamonds”?
Mick Jagger: Tínhamos três músicas de “Hackney Diamonds” que não colocamos no álbum de propósito, porque sabíamos que queríamos guardá-las. Sempre planejamos fazer outro disco rapidamente.
Keith Richards: Sinto que “Foreign Tongues” é uma continuação de “Hackney Diamonds” — não tanto pelas músicas, mas pela energia e pela sensação. Como acontece ocasionalmente comigo e com Mick, passamos algum tempo sem nos ver. Então, quando nos encontramos e perguntamos “O que você tem?”, percebemos: “Ah, esse trecho combina com aquilo”. De certa maneira, estamos escrevendo a mesma música sem saber, em lados opostos do planeta.
Jagger: Keith criou um riff muito bom em “Mr. Charm”, melhor do que o que eu tinha escrito originalmente. Esse é o trabalho dele: tocar o meu riff, só que melhor.
Como Ronnie entra nesse processo?
Richards: Ronnie escuta com ouvidos de águia e, de repente, aparece com: “E se eu fizer isto?”. Perfeito. Eu chamo isso de antiga arte de entrelaçar — é o que fazemos. Para mim, essa também é a outra parte divertida: não sei o que Ronnie vai criar. Você ouve a coisa crescer diante dos seus ouvidos.

Muitas dessas músicas têm uma pegada forte. De onde vem isso?
Richards: Essa é uma pergunta difícil de responder. Em diferentes momentos da minha carreira, eu poderia dar respostas muito distintas. Energia… Não sei se é uma questão de entusiasmo. Você passa por ondas disso.
Acho que grande parte também teve a ver com o fato de que realmente queríamos registrar como Stones esta seção rítmica formada por Steve Jordan — que substituiu Watts na turnê de 2021 e atualmente é o nosso baterista — e Darryl Jones, baixista que começou a trabalhar com a banda em 1993.
Porque perder Charlie Watts é um baque enorme. Graças a Deus, Charlie e Steve eram assim. (Cruza os dedos.) Portanto, nunca houve um problema de verdade. Charlie Watts disse: “Se eu não estiver lá, coloquem Steve”. Então estávamos, de certa maneira, cumprindo ordens. Era importante registrar em disco esta versão dos Stones.
Jagger: Tínhamos uma boa faixa com Charlie, “Hit Me in the Head”, e temos outras músicas com ele. Continuo lendo que esta é a última participação de Charlie. Bem, temos outras faixas com Charlie.
Qual é o papel de Watt no estúdio?
Richards: Ele diz: “Vamos experimentar esta, vamos colocar um piano aqui e ver o que acontece”. Basicamente, ele passa a fazer parte da banda. Um bom produtor costuma ser o outro integrante, aquele que ninguém vê.
Jagger: Andy e eu trabalhamos bem juntos porque equilibramos um ao outro.
Assim como em “Hackney Diamonds”, Paul McCartney faz uma participação, tocando baixo em “Covered in You”. Ele e John Lennon escreveram o segundo single dos Stones, “I Wanna Be Your Man”. Agora, seis décadas depois, ele está no estúdio com vocês.
Richards: Os Beatles e os Stones. Acho que Paul sempre sentiu falta de estar em uma banda desde que os Beatles acabaram. Ele adora essa camaradagem, essa maneira de fazer as coisas. E é muito divertido tocar com ele. Nós nos conhecemos há muito tempo.
Jagger: Paul estava no estúdio ao lado fazendo o álbum que lançou agora, “The Boys of Dungeon Lane”, que é muito bom. É ótimo. Chamamos Paul para tocar em duas músicas em um mesmo dia, porque não tínhamos exatamente um baixista.
Paul precisa escrever a linha de baixo, mas esta é uma música muito diferente daquela em que ele tocou em “Hackney Diamonds”, talvez um pouco mais difícil. De qualquer maneira, Paul gostou muito da música.
Há muitos convidados no álbum.
Jagger: Muitos deles não fazem muita coisa.
Não é uma situação de grandes estrelas chegando para fazer aparições. São elas entrando no universo de vocês. Bruno Mars, por exemplo: como ele acabou tocando cowbell em “Never Wanna Lose You”?
Jagger: Toda vez que recebíamos um convidado para ouvir o álbum — provavelmente já estávamos na fase de pré-mixagem —, colocávamos a pessoa para trabalhar.
“Você gostou da música? Então vá tocar alguma coisa.” Foi o que fizemos com Bruno. Ele disse: “Adorei este groove!”. E respondemos: “Você toca percussão. O que quer tocar? Vá lá e faça”.
Robert Smith participa de duas faixas. Ele também está no álbum que Olivia Rodrigo lançou neste ano. O que vocês acham do rock que ela faz?
“Toda vez que recebíamos um convidado para ouvir o álbum, nós o colocávamos para trabalhar. ‘Gostou da música? Então vá tocar alguma coisa.’”
— Mick Jagger
Jagger: Ela é muito boa nisso. Todos achavam que ela era outro tipo de cantora, mas há várias cantoras que fizeram essa transição. Não é necessariamente uma mudança permanente, mas é interessante essa capacidade de trocar de estilo e sair daquilo que você considera o pop mais “de garota” que elas faziam originalmente.
Como são os hábitos de vocês ao compor? Mantêm cadernos, gravam trechos no celular?
Jagger: A vantagem de escrever em um caderno é que você tem tempo para pensar e riscar. Você vê os trechos cortados e as correções. Mas a vantagem de despejar algo no celular ou no iPad é que não existe censura entre a sua cabeça e a escrita.
Você não censura nada porque acontece rápido demais. As coisas simplesmente saem numa torrente, em grande velocidade.
Richards: Há muitos cadernos com pequenas frases crípticas anotadas, cujo significado você deveria conseguir lembrar. Quando não lembra, passa por elas e inventa um sentido completamente novo.
Mas, sim, há muitas anotações. Compor é, na verdade, observar. Pode ser apenas uma frase que alguém diz do outro lado de um bar e alguma coisa se acende. A questão é perceber que existe algo ali.
Keith, a música cantada por você no álbum, “Some of Us”, fala sobre uma mulher incrível que deixa todo mundo de joelhos. De onde vem uma canção assim? Experiência pessoal?
Richards: Um pouco disso. A verdade é que a música existe há muito tempo. Há várias outras versões que devem ter começado a ser feitas há pelo menos 20 anos.
Não sei de onde elas vêm. Seja quem for essa mulher, ela está perdida nas brumas do tempo. (Risos.)
É importante ter uma música cantada por Keith em cada álbum dos Stones?
Richards: Não, não é um fetiche. Normalmente tenho uma ou duas e Mick diz: “Não consigo encontrar um jeito de cantar essa, é melhor você fazer”. Em outras ocasiões, eu digo: “Esta fica comigo, eu vou cantar”.
Depende da música e de precisarmos ou não de outra faixa. Não é algo forçado, do tipo: “Onde está a minha música?”. Mas sempre aparecem uma ou duas, e Mick diz: “Esta é sua”.
O álbum termina com uma versão de Chuck Berry, “Beautiful Delilah”. O primeiro single dos Stones também foi uma versão de Berry, “Come On”. Imagino que, se houvesse um Monte Rushmore das influências dos Rolling Stones, ele estaria lá. Quem mais entraria?
Jagger: Ele definitivamente estaria. Essa é uma boa pergunta. Acho que Muddy Waters, Howlin’ Wolf, talvez Jerry Lee Lewis e Little Richard.
Richards: Teria que ser Chuck Berry, Muddy Waters, Jimmy Reed, passando pela gaita de Little Walter Jacobs. Depois você percorre toda a velha ladainha dos anos 1950 e 1960 e o elenco do blues de Chicago — John Lee Hooker.
Os anos 1950 foram um período extraordinário, especialmente pelas maneiras como as gravações eram feitas.
Keith Richards fotografado em 2 de julho de 2026, no The Django, em Nova York.
“A música poderia fazer muito mais do que apenas tentar copiar a si mesma. Afinal, é algo bastante simples — isto não é Beethoven ou Bach, e não tenho dúvida de que a IA consegue fazer isso. Mas e daí? Queremos contribuições novas.”
— Keith Richards
Jagger: Não usamos fita há séculos, mas Andy Watt queria usar fita em “Beautiful Delilah”. Eu disse: “Que diferença faz? Se alguém escutar no celular, não saberá que foi gravada em fita. Não muda nada”.
Mas gravamos em fita e tocamos ao vivo. Foi à moda antiga.
O videoclipe de “In the Stars” usou tecnologia de deepfake para mostrar algo que parece ser a formação dos Stones de décadas atrás tocando o single de 2026. Como foi ver aquilo?
Jagger: Nós nos divertimos muito. Apenas os rostos dos músicos são diferentes. Não são pessoas falsas em uma sala falsa. Todos estavam realmente em uma sala, tocando juntos.
Os músicos são músicos de verdade que se parecem um pouco com os Rolling Stones de 1968. A única coisa modificada foram os rostos.
Começaram trabalhando no meu e ficou um pouco parecido comigo, mas não exatamente. Parecia um dos meus filhos aos 23 anos ou algo assim. Depois vi Ronnie e disse ao pessoal: “Está mais parecido com Jeff Beck”. Então tiveram que trabalhar um pouco mais.
Richards: Esse foi o nosso contato de raspão com a IA. Eu disse: “Muito bonito. Gostaria de ainda ter essa aparência”. Talvez seja para isso que ela sirva: videoclipes. Coloque-a no lugar adequado.
É um desenho animado de mim mais jovem. “Muito bonito. O que temos para o café da manhã?”
Além disso, quanto à ideia de vídeo e música juntos, eu já sabia nos anos 1970 que seria um desastre. Você não pode empurrar ouvidos e olhos ao mesmo tempo e dizer: “Aqui está, olhe isto”.
Mas esse é o lado comercial do negócio, e você precisa desviar das coisas e se adaptar. Durante algum tempo, o videoclipe se tornou mais importante do que a gravação, e foi aí que, para mim, ele realmente deixou de funcionar como algo viável.
Era simplesmente: “Você viu o novo clipe?”. “Não — eu acabei de fazer um disco.” Mas talvez seja apenas eu sendo ranzinza.
A inteligência artificial é a nova inovação tecnológica. O que vocês pensam sobre a IA na música?
Richards: O que penso é o seguinte: prefiro ouvir algo original. A música poderia fazer muito mais do que apenas tentar copiar a si mesma.
Afinal, é algo bastante simples — isto não é Beethoven ou Bach, e não tenho dúvida de que a IA consegue fazer isso. Mas e daí? Queremos contribuições novas. Não queremos mais e mais cópias e sintetizações.
Pelo menos esse é o meu ponto de vista. A música existe para você brincar com ela. Certamente há originalidade suficiente sem que seja necessário copiar cantigas infantis.
Jagger: Obviamente, não quero ser imitado por IA, nem vocal nem instrumentalmente, e a banda também não quer. Não quero pessoas simplesmente lançando coisas que soem exatamente como os Rolling Stones. Acho que isso está claramente errado.
Se alguém quiser fazer música com IA, vá em frente. Mas precisa ser original. É necessário colocar suas próprias ideias e pensamentos.
Há pessoas que usam IA para criar uma música do zero “no estilo dos Rolling Stones”. Se você fosse minimamente criativo, não faria isso.

Vocês faziam sincronizações comerciais antes da maioria das grandes bandas de rock — “Start Me Up” foi usada no lançamento do Windows 95. Na época, algumas pessoas criticaram vocês por isso, mas hoje é prática comum colocar músicas em comerciais. Isso incomodou vocês?
Jagger: Não. Sabíamos que estávamos fazendo algo que se tornaria normal, sinceramente. Foi como quando conseguimos patrocínio para as turnês e as pessoas disseram: “O que é isso?”. Eu respondi: “Bem, isso vai se tornar normal”.
Hoje é totalmente normal. Isto é a América. É assim que funciona.
Richards: Depende. Se você vai se vender, depende de como vai se vender.
Vocês se imaginam fazendo uma turnê deste álbum? Ou talvez uma residência de shows?
Jagger: No momento, sinceramente, não sei. Gostaria de fazer uma turnê. Gosto de viajar e de ir até as pessoas.
Caso só seja possível fazer uma residência, será uma residência. Mas a única desvantagem de uma residência para o público é que fica muito mais caro para as pessoas que moram longe e querem assistir ao show.
Richards: Sei que tudo isso está sendo discutido. Neste ano, decidimos: “Vamos lançar o disco e não apressar as coisas”.
Portanto, não vejo razão para que, no ano que vem — não imagino nada neste ano, não consigo correr tanto assim —, se Deus quiser, não possamos fazer, como você disse, talvez uma residência ou alguma outra coisa.
Talvez encontremos uma maneira diferente de colocar o projeto na estrada. Tragam a estrada até nós. Essa é a minha sugestão.
“Mr. Charm” talvez seja minha música preferida do álbum. Há um verso que diz: “os dias mais sombrios de 1916”. É uma referência à Batalha do Somme, na Primeira Guerra Mundial? Mick, você gosta de história?
Jagger: Somme ou Ypres. Não me lembro qual. Gosto muito de história, mas não sei por que tive a ideia de colocar isso ali como uma frase de sedução. (Risos.) Eu estava apenas me exibindo.
O que você está lendo agora?
Jagger: Não é exatamente um livro de história. É um debate entre físicos sobre o que aconteceu antes do Big Bang. É uma obra para leigos.
Todo o argumento é o seguinte: se aceitarmos que o Big Bang aconteceu — o que nem todo mundo aceita —, então de onde ele veio? Surgiu do nada? O que aconteceu antes do Big Bang?
Há vários cientistas com diferentes teorias sobre o que poderia ter existido. A questão ainda não foi resolvida e provavelmente nunca será.
Quando você não está em turnê nem gravando, o que faz em um dia normal? Acorda e o que vem depois?
Richards: “Acordar” é importante. Depois disso, depende do clima. Quando não há planos definidos para o dia, vejo aonde ele vai me levar.
Sou privilegiado nesse sentido, porque posso basicamente ligar ou desligar o dia, se quiser.
Quem chegou? Os netos. Então entramos nessa área da vida. Você apanha bastante. (Risos.) Para mim, é algo completamente novo. Acontece sem que você perceba.
Você tenta conhecê-los. É algo fascinante. Estou gostando muito.
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