Na música, a pressa é a inimiga do ‘clássico’

Tropicalia: Da esquerda para a direita, Jorge Ben, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Rita Lee e Gal Costa; à frente, abaixados, Sérgio Dias e Arnaldo Baptista (Arquivo Olivier Perroy/Reprodução)
Nunca se produziu tanta música na história. São mais canções, artistas, meios de produção e disseminação. Segundo dados do “Global Music Report”, publicado pela Federação Internacional da Indústria Fonográfica, o ecossistema de streaming superou a marca de 100 milhões de faixas disponíveis nos catálogos globais.
Nesse cenário, a expansão do acesso aos meios de produção e distribuição digitais, somada à mobilidade do consumo, transformou a relação artista-mercado-ouvinte. A engrenagem mudou.
Além da qualidade musical, elementos externos ganharam um novo peso, exigindo um pensamento mirabolante: superexposição do estilo de vida e a presença massiva em redes sociais. Se, por um lado, essa dinâmica aproxima o fã mais fervoroso, por outro, cria demanda por uma produção quase ininterrupta que, na maioria das vezes, sufoca o próprio artista.
A busca pelo próximo hit, junto à velocidade com que o conteúdo é devorado nas redes, expõe a fragilidade desse modelo. Selos, gravadoras, empresários e artistas são pressionados pelo giro constante de um produto cuja matéria-prima é a criatividade humana, preparando o terreno quase perfeito para a IA.
Parafraseando Caetano Veloso: “A força da grana que ergue e destrói coisas belas”. Ninguém inicia uma carreira sabendo onde ela vai desaguar, tampouco se a obra, a imagem e o conceito resistirão ao tempo.
Diferente das boybands e girlbands dos anos 1980 e 1990, que já nasciam ancoradas em propósitos comerciais claros, muitos artistas contemporâneos utilizam uma narrativa de “não encaixe” e de “pensamento livre” como cartão de visita, mas mantêm o mesmo objetivo: alcançar o topo dos charts, dos cachês e das vendas de tickets.
Nesse ambiente, vemos os artistas focados em operações meramente pontuais, sustentados por estratégias artificiais de engajamento e fazendas de bots. É o topo das paradas transformado em uma ilusão matemática: fenômenos com bilhões de reproduções que, no entanto, enfrentam dificuldades para converter o digital em venda de bilhetes, se tornando sucessos online e fracassos offline.
É após esse impacto inicial que o destino de uma carreira é selado. Se, depois de um sucesso, houver um trabalho sólido e não apenas uma busca pelo próximo hit, o caminho pode mudar de rumo. No limite dessa transição, a linha que separa a persistência artística da mera teimosia de mercado torna-se visível.
Muitos artistas saem do “Top 10”, mas levam consigo uma base de fãs que se mantém fiel. É nesse ponto que se atinge o platô que pode vir a representar o verdadeiro sucesso. Um lugar onde nascem obras que proporcionam sensação duradoura de relevância e carreiras tão consistentes que atravessam anos mantendo a coerência com a verdade de seus criadores.
Há artistas que atravessam gerações; há outros que são acompanhados de perto pela sua própria geração. O perfil menos propenso à longevidade é, justamente, aquele que vive à sombra do possível esquecimento, buscando se adequar a todas as tendências e faixas etárias simultaneamente.
Essa obsessão deu origem às fórmulas musicais engessadas: obras curtas criadas com o único fim de virarem a trilha perfeita para um vídeo de 15 segundos que viralize. E, assim, o antigo termo “15 minutos de fama” dá lugar ao “15 segundos de play”. Quando se almeja uma carreira longeva, o imediatismo é a forma certa de dar errado.
E, aqui, trago alguns questionamentos: quem é você enquanto artista? E enquanto “produto”? O que você tem a mostrar além dos seus números? Como vai se sentir ao ouvir a sua própria música daqui a alguns meses ou anos, quando a moda tiver passado?
Para construir um legado que sobreviva ao tempo, é preciso ir além da métrica. Isso exige três pilares fundamentais: identidade, persistência e resiliência para enfrentar altos e baixos.
Para além da produção, há a necessidade do silêncio, o momento de voltar-se para dentro, calar o ruído do mercado e buscar novas fontes de inspiração fora dos analytics. O artista que vive dentro de uma bolha de nicho se esvazia. Ampliar o repertório cultural e social não é opcional: é vital.
O mercado satura dos excessos e faz suas escolhas, seguindo em busca do que há de mais raro: o trabalho sólido e consistente, que independe de modismos ou de intercâmbios forçados de gêneros musicais.
A verdadeira diferenciação reside na capacidade de manter o ser autêntico. É essa verdade que sustenta e justifica a permanência e o respeito dedicados a nomes de diferentes vertentes e gerações do cenário nacional, como João Gomes, Anitta, Liniker, Jorge & Mateus, Os Paralamas do Sucesso, MC Hariel, BK, Ana Castela, Simone Mendes, Xanddy, BaianaSystem, Marina Sena e Belo, entre outros.
Embora operem em mercados com dinâmicas distintas, os artistas entenderam que a pressa é a principal inimiga do clássico. Em uma era de conceito tortuoso sobre o que é sucesso, a maior rebeldia de um artista continua sendo a coragem de ser real.
Fabio Almeida é gestor de carreiras artísticas e um dos principais nomes da produção cultural e do entretenimento no Brasil. Também é administrador de empresas, com especialização em Marketing e Gestão Estratégica de TI.
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