Quem tem medo de um rock diverso?
Leia a coluna de Flavia Biggs

Sister Rosetta Tharpe
Antes de ser um gênero musical, o rock nasceu como uma força de ruptura: uma vontade de experimentar, misturar referências, questionar padrões e transformar inquietações em música. Sua essência sempre esteve ligada à liberdade de criar, à coragem de desafiar convenções e à capacidade de transformar diferentes experiências em expressão artística.
LEIA TAMBÉM
– Veja a cobertura especial da Billboard Brasil para o Dia do Rock
– Confira o especial Locomotivas do Rock da Billboard Brasil
O curioso é que, mesmo sendo criado quebrando padrões, acabou, em muitos momentos, preso a alguns deles — os mais chatos, diga-se de passagem. O rock nasce da mistura, do encontro de culturas, mas, ao longo do caminho, acabou sendo muitas vezes apresentado como um território de homens brancos, heterossexuais e cisgêneros. Como se existisse uma espécie de “manual” dizendo quem poderia vestir uma jaqueta de couro, pegar uma guitarra e se chamar de roqueiro.
Só que a história real é muito mais interessante. Mulheres, pessoas negras e pessoas LGBTQIAPN+ sempre estiveram no rock. Estavam nos palcos, nas bandas de garagem, nos estúdios, na produção, na técnica, nos festivais e em todos os lugares onde a música acontece. Muitas vezes tiveram que enfrentar olhares desconfiados, preconceitos e aquela velha pergunta inconveniente: “Será que esse lugar é mesmo para você?”. A resposta veio da melhor maneira possível: criando música e provando que sim.
Sister Rosetta Tharpe, mulher negra e guitarrista, uma das grandes responsáveis por inaugurar o rock, já fazia sua guitarra elétrica falar alto muito antes de muitos nomes que entraram para os livros como os grandes pioneiros do gênero. Sua história mostra algo fundamental: o rock sempre foi muito maior do que a narrativa que contaram sobre ele.
E essa história continua sendo escrita todos os dias. Quando uma mulher sobe ao palco, quando uma pessoa negra ocupa um espaço de criação, quando uma pessoa LGBTQIAPN+ encontra liberdade para transformar sua experiência em música, o rock ganha novas possibilidades. Não muda apenas quem aparece na foto do festival; muda a própria música. Surgem novas histórias, novas sonoridades, novas formas de criar e novas comunidades.
A diversidade não chega para mudar o rock. Ela sempre esteve lá. O rock nasceu justamente do encontro entre diferenças: do blues, do rhythm and blues, da música negra norte-americana, das juventudes que queriam criar algo novo e de artistas que não estavam muito preocupados em seguir regras.
É por isso que falar sobre diversidade é falar sobre a própria essência do rock. No Girls Rock Camp Brasil, vejo isso acontecer de perto. Ao longo dos anos, acompanho centenas de meninas descobrindo que podem tocar guitarra, bateria, baixo, escrever músicas e ocupar um palco. Mas a maior transformação acontece antes do primeiro acorde: quando elas percebem que também podem criar cultura, liderar projetos e fazer parte dessa história.
Nem todas vão seguir como musicistas, e tudo bem. Algumas serão produtoras, técnicas de som, fotógrafas, iluminadoras, pesquisadoras, educadoras ou gestoras culturais. Porque uma cena musical nunca é feita apenas por quem está no microfone. Ela é construída por todas as pessoas que fazem a música acontecer.
Os festivais, as escolas, os centros culturais e os projetos de formação têm uma responsabilidade enorme nesse processo. Eles ajudam a mostrar quem está criando, quais referências chegam às novas gerações e quais histórias serão lembradas. Uma cena diversa é uma cena mais interessante, mais criativa e muito mais difícil de ficar parada no tempo.
O futuro do rock não depende apenas das próximas bandas. Depende de quem terá a oportunidade de contar as próximas histórias. Quanto mais mulheres, pessoas negras, artistas LGBTQIAPN+ e jovens das periferias estiverem escrevendo essa história, mais vivo, criativo e relevante o rock continuará sendo.

Afinal, o rock sempre encontrou sua maior força na capacidade de romper padrões, desafiar estruturas e abrir novos caminhos. Reescrever sua própria história talvez seja, hoje, o gesto mais fiel à sua essência, promovendo, visibilizando, reconhecendo e celebrando a sua diversidade.
Flavia Biggs é socióloga e musicista sorocabana. Atua como diretora do Girls Rock Camp Brasil e vocalista e guitarrista da banda The Biggs
TRENDING
- Jennifer Finch, do L7, é diagnosticada com câncer cerebral antes de turnê final 13/07/2026
- Veja a agenda de shows de Natanzinho Lima 06/07/2026
- Veja a agenda de shows de Ana Castela 07/07/2026
- Vídeo: BTS apresenta ‘Louder Than Bombs’ ao vivo pela 1ª vez 13/07/2026
- Todas as músicas surpresas que o BTS apresentou na turnê ‘ARIRANG’ (até agora) 13/07/2026