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Dia do Reggae: o gênero como território de identidade e permanência

'Reggae moldou nossa existência', diz cantora de São Luís (MA)

A cantora de reggae Núbia (Divulgação)

A cantora de reggae Núbia (Divulgação)

Falar sobre reggae no Brasil é também falar sobre pertencimento, memória e resistência. Nasci e cresci em São Luís, cidade conhecida como Jamaica Brasileira, ouvindo uma música que sempre carregou espiritualidade, denúncia social, afeto e comunidade. O reggae moldou não apenas a paisagem cultural da cidade, mas também a maneira como muitas pessoas aprenderam a existir coletivamente.

Durante muito tempo, o reggae produzido no Maranhão foi tratado de forma regionalizada, quase como uma manifestação isolada. Mas, existe uma força criativa muito profunda acontecendo ali há décadas. Uma cultura construída pelas radiolas, pelos bailes, pelos bairros periféricos e pela população negra que transformou esse gênero em linguagem cotidiana.

Hoje, percebo uma nova geração retomando esse legado de forma muito consciente. Artistas independentes vêm aproximando o reggae de outras sonoridades afro-diaspóricas, da música eletrônica, do dub, do dancehall e das referências regionais brasileiras sem perder a conexão ancestral que sustenta o gênero.

Ao mesmo tempo, ainda existe um desafio importante de representatividade dentro da indústria musical. Principalmente para mulheres negras dentro do reggae. Muitas vezes precisamos ocupar espaços que historicamente não foram pensados para nós. Isso exige insistência e construção coletiva.

Quando lancei “Sabores”, queria justamente construir um trabalho que dialogasse com essas camadas. Um disco atravessado por negritude, afeto, ancestralidade e pelas experiências que me constituem enquanto mulher maranhense. O reggae sempre me ensinou sobre resistência, mas, também, sobre cura, delicadeza e transformação.

A música feita nas periferias brasileiras movimenta cultura, comportamento e mercado há muitos anos. O que muda agora é que essas narrativas começam a ocupar espaços de maior visibilidade sem precisar abandonar suas origens.

Existe algo muito potente acontecendo na música negra brasileira contemporânea. E isso passa também pela valorização dos territórios culturais fora do eixo tradicional da indústria. O Maranhão tem uma contribuição histórica para a música brasileira e continua produzindo artistas, bandas, DJs, produtores e movimentos fundamentais para a cultura do país.

O reggae segue vivo porque continua falando sobre realidade, espiritualidade, desigualdade, amor e permanência. E talvez seja justamente por isso que ele continua atravessando gerações.


* Sobre Núbia

Núbia é cantora e compositora maranhense e um dos nomes em ascensão da nova cena do reggae brasileiro. Natural de São Luís, cidade conhecida como a “Jamaica Brasileira”, conecta o reggae roots e outras vertentes da música jamaicana a elementos da musicalidade regional maranhense e afro-brasileira. Em 2024, lançou “Sabores”, seu primeiro álbum de estúdio, produzido por Sandoval Filho. O disco aborda temas como negritude, gênero, sexualidade, ancestralidade e questões sociais, e foi indicado em duas categorias no Prêmio BTG Pactual da Música Brasileira 2025.