Baile do algoritmo: russos do 0to8 levam Phonk ao mundo a partir de Dubai
Dupla atingiu milhões de visualizações com remixes e versões de faixas de funk

Os russos Artem Shargin e Kirill Smetkov, da 0to8
Um vocal de MC brasileiro pode hoje sair de um pacote de acapellas, cair no computador de um produtor a milhares de quilômetros daqui, perder alguns BPMs, ganhar distorção e reaparecer no Brasil após circular em outros países como trilha de vídeos de futebol no TikTok.
A 0to8 (Zero to Infinity), gravadora fundada por Artem Shargin e Kirill Smetkov, representa bem esse processo de recirculação do funk brasileiro e sua metamorfose no Brazilian Phonk. Os dois vieram do ecossistema empresarial e musical russo: Smetkov comandou anteriormente a gravadora steezy, enquanto Shargin havia criado negócios em São Petersburgo antes de vender uma empresa de moda digital e se mudar para Dubai, nos Emirados Árabes Unidos.
Curiosamente, o funk brasileiro não fazia parte do plano original. Em entrevista à Billboard Brasil, Shargin conta que a dupla começou em 2022 fazendo remixes e tentando crescer no TikTok. Só no início de 2023, depois de ler uma reportagem sobre o mercado sul-americano, resolveu investigar aquela música que vinha do Brasil. “Nós nem sabíamos que o termo baile funk existia”, diz.
O primeiro teste foi “Bate Forte e Dança”, lançado pelos projetos 0to8 e DJ Ritmo55. Segundo Smetkov, a faixa ganhou dezenas de milhares de vídeos nas primeiras semanas, depois centenas de milhares, com adesão especialmente forte de páginas de futebol. O executivo afirma que a música ultrapassou 130 milhões de streams no Spotify em três anos.
Quando o funk encontra o phonk
Dizer simplesmente que o funk “virou phonk” esconde metade da história. O phonk nasceu muito antes desse encontro, a partir da recuperação, nos anos 2010, de estéticas do rap de Memphis dos anos 1990. Depois veio o drift phonk, fortemente associado a produtores russos e a vídeos de carros. O chamado Brazilian Phonk apareceu mais tarde como uma zona híbrida: percussão e vozes do baile funk misturadas a distorção, música eletrônica e fórmulas desenvolvidas na cultura de internet.
Shargin resume o fenômeno de outra maneira: “O gênero não superou suas raízes, ele começou a viajar. O material brasileiro ainda é o motor. O que mudou foi quem pode tocar nele”. A 0to8 trabalha hoje com produtores de diferentes países e também diretamente com MCs brasileiros, entre eles MC MN, MC Fernandinho, MC Duduzinho e MC GW.
Um desses trajetos já chegou às paradas do outro lado do planeta. O filipino BellyJay levou “MONTAGEM HIKARI” à Billboard Japan Hot 100 em 2026, permanecendo no ranking durante várias semanas. É difícil encontrar imagem mais literal para a circulação atual do gênero: um produtor filipino, uma forma musical identificada imediatamente com o Brasil e uma parada japonesa.
Letra nem sempre importa
Perguntados se a equipe entende as letras das acapellas brasileiras, Smetkov responde sem rodeios: “Na maioria dos casos, acho que nem o artista nem o ouvinte entendem o que está sendo cantado.”
Para ele, não existe grande diferença entre isso e milhões de pessoas ao redor do mundo cantarem sucessos em inglês sem compreender a letra. A escolha é sonora: se a voz encaixa na produção, funciona. Muitos produtores encontram acapellas já recortadas em pacotes disponíveis na internet e, segundo Smetkov, algumas vezes nem sabem inicialmente quem é o MC que estão sampleando. A 0to8 diz que passou a estabelecer relações diretas com artistas brasileiros para obter novas vozes e acertar o uso desse material.
Música para ser usada
Outra transformação acontece na velocidade. Enquanto vertentes do funk brasileiro trabalham há anos com batidas de 150 ou 170 BPM, parte do catálogo da 0to8 segue na direção contrária. Shargin explica que o destino da faixa é diferente: no Brasil, ela precisa funcionar na pista; para eles, muitas vezes precisa funcionar embaixo de um vídeo de 15 segundos.
Uma faixa rápida demais, argumenta, disputa espaço com a fala, os efeitos e o próprio conteúdo do vídeo. Ao reduzir o BPM, abre-se espaço entre as batidas. “A faixa se torna algo sobre o qual o criador consegue construir. É por isso que nossos discos são usados, e não apenas ouvidos”, afirma. A gravadora já trabalha, segundo ele, com estruturas diferentes para comunidades de carros, futebol e humor.
A 0to8 afirma ter registrado números superlativos: mais de 4 bilhões de streams em 2025, 250 bilhões de visualizações em redes sociais e mais de 130 milhões de vídeos de usuários utilizando seu catálogo. Algumas dessas músicas já escaparam do feed. “Heavenly Jumpstyle”, de TWXNY, Sxilwix e Innxcence, chegou ao 9º lugar da parada Hot Dance/Electronic Songs da Billboard e passou 24 semanas no ranking.
O caso da 0to8 mostra até onde o funk brasileiro conseguiu viajar. Uma voz gravada no Brasil pode ser desmontada, desacelerada e reconstruída por alguém que não fala português para um público que tampouco fala. O baile vira sample, o sample vira phonk, o phonk embala o meme de TikTok e, pelo algoritmo, às vezes volta ao Brasil depois de rodar o mundo.
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