O grave evoluiu: DJ Kenya20hz apresenta nova persona, Dona Sinistrus
Leia a entrevista na Billboard Brasil

Kenya20hz (@youknowmyface)
O grave sempre esteve no centro da pesquisa de Kenya20hz. Agora, a DJ e produtora transforma essa busca em Dona Sinistrus, nova persona que sintetiza anos de investigação sobre música eletrônica, ancestralidade e construção de narrativas sonoras.
“A Dona Sinistrus é a versão da Kenya que conseguiu controlar os 20 hertz”, resume a artista em entrevista à Billboard Brasil. Os 20 hertz são justamente uma menção aos sons mais graves que saem das caixas.
Mais do que um alter ego, Dona Sinistrus representa uma evolução da identidade artística construída por Kenya20hz ao longo de mais de uma década de carreira. O projeto reúne referências que passam pelo techno, dubstep, electro e psytrance, mas também pela pesquisa sobre culturas africanas, audiovisual e literatura, criando um universo próprio que, segundo ela, nasceu da necessidade de transformar anos de pesquisa em produção autoral.
“Eu estava querendo botar para fora esses tantos anos absorvendo tanta referência. É muita referência, muita interferência.”
A nova fase surge após um longo período conciliando duas atividades que, para ela, exigem processos diferentes: pesquisar música e produzi-la.
“Eu admiro muito os DJs que conseguem manter o trabalho de curadoria intacto e também adicionar isso ao compromisso com a produção musical. São coisas bem diferentes”, explica. “O meu processo de curadoria leva muito tempo. Foi moldado com muito esmero, com muito carinho. Procurar música, para mim, é uma pescaria. Posso ficar horas até conseguir pescar algo interessante. E a produção musical também é um desafio de paciência.”
Depois de anos dividida entre esses dois universos, Kenya sentiu que havia encontrado o equilíbrio necessário para dar o próximo passo.
“Eu sinto que esse novo momento vem ao encontro desse equilíbrio.”

O grave que não é só um som
Se no início da carreira os 20 hertz representavam principalmente uma preferência estética, hoje eles ganharam um significado muito mais amplo. “Hoje em dia, eu entendo que esse som do grave não é somente um som. Ele é uma sensação.”
É justamente essa ideia que conduz Dona Sinistrus. Em vez de construir um projeto centrado em um gênero específico da música eletrônica, Kenya prefere pensar cada faixa como uma experiência. Essa narrativa aparece na construção dos ambientes sonoros, na velocidade das faixas e, principalmente, nas vozes que atravessam o projeto.
“Eu acredito que a Dona Sinistrus seja um projeto de narrativa. É uma história que eu tento contar em cada música. Em algumas músicas, eu utilizo vocal, utilizo também a minha voz. É um processo que eu gosto bastante. Utilizo outras vozes também, de várias línguas, para trazer a sensação de alguém contando uma história”, conta a DJ fluminense.
Mais do que identificar influências, a artista busca criar um lugar que não possa ser definido apenas por etiquetas. “Eu não quero necessariamente que as pessoas ouçam e falem: ‘isso aqui é techno’, ‘isso aqui é tal gênero’. Eu quero que elas descubram sozinhas esse lugar.”
Kenya deixa como spoiler que ouvintes encontrarão elementos do techno hipnótico, tribal techno, electro, dark psy e forest, mas insiste que nenhuma dessas referências explica o projeto sozinha. “Todos esses nomes, no final das contas, são para criar um lugar único.”
“Existe um mistério a ser descoberto. Quando eu penso nas músicas, eu penso nesse lugar experimental. Eu penso em trazer um não-lugar.”
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Um ouvido que aprendeu a escutar diferente
Ao explicar o nascimento de Dona Sinistrus, Kenya volta diversas vezes à ideia de escuta. Não apenas ouvir música, mas desenvolver um ouvido capaz de perceber detalhes que antes passavam despercebidos.
“Hoje eu posso falar que o ouvido com o qual eu escuto música é completamente diferente do ouvido da Kenya que escutava música com 16 anos.” Essa transformação também mudou sua forma de produzir, misturando referências de uma vida toda, experimentando nas pistas e ouvindo outros talentos.
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Uma evolução, não uma ruptura
Embora represente um novo capítulo da carreira, Kenya faz questão de dizer que Dona Sinistrus não substitui Kenya20hz. Pelo contrário, existe continuidade entre as duas.
“A Dona Sinistrus é a versão da Kenya que conseguiu controlar os 20 hertz.”
Segundo ela, a nova persona habita um universo que vem sendo construído há anos — não apenas pela música, mas também pelas imagens. “O som é uma pintura no ar. É uma materialidade. E foi com essa materialidade que se criou esse universo.”
Também roteirista, Kenya conta que sempre enxergou o audiovisual como parte inseparável de seu trabalho. Por isso, Dona Sinistrus nasce acompanhada de uma identidade própria. “Essa personagem tem cara. Tem rosto. Sempre foi muito importante para mim trazer o universo visual. Através do figurino, através das artes que eu faço, através de vídeos, através das peças artísticas com as quais eu represento o meu som.”
Ao definir esse momento da carreira, a artista evita falar em mudança. Prefere outra palavra. “É uma evolução. Literalmente uma evolução. É um amadurecimento. É uma materialização de tudo isso.”
Do rock para o eletrônico
Antes de construir Dona Sinistrus, Kenya20hz cresceu em Nilópolis, na Baixada Fluminense, muito mais pelo rock do que pela música eletrônica. Ouvia The Doors e Grateful Dead, e a virada aconteceu quando se mudou para Brasília para cursar Relações Internacionais. Nas festas clandestinas, teve o primeiro contato com o dubstep e o psytrance, descobertas que mudaram sua relação com a música.
A curiosidade rapidamente virou obsessão. Em menos de um ano, já pesquisava subgêneros, passava horas procurando novas sonoridades e baixou o Virtual DJ para entender como aqueles sons eram construídos. Depois de trancar a faculdade e voltar ao Rio de Janeiro, foi selecionada para uma residência da Red Bull voltada à formação de jovens DJs e produtores. A partir dali, transformou a pesquisa em profissão.
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Ancestralidade, África e o nascimento de Dona Sinistrus
Kenya fala sobre ancestralidade não como uma reconstrução literal do passado, mas como um processo sensorial. Segundo ela, determinados sons despertam estados mentais semelhantes, independentemente da origem.
Ela cita desde o rock psicodélico — especialmente The Doors, banda que considera sua favorita — o dub, o psytrance e, mais tarde, os estudos sobre religiosidade de matriz africana.
“Quando eu comecei a estudar mais sobre religiosidade e culturas africanas, eu tive contato com a umbanda e percebi que aqueles tambores, aquela percussividade, também me colocavam num lugar mental transcendental. Quando eu escutei psy, percebi que aquilo também fazia isso comigo. Tudo isso faz um fio em relação à minha ancestralidade.”
A DJ reconhece que boa parte dessa ancestralidade foi interrompida ao longo da história da população negra brasileira. Por isso, acredita que a música pode funcionar como uma forma de reencontro.
“Se eu for pensar na minha cultura e na minha família, boa parte dessa ancestralidade foi apagada. Então, quando eu entro em contato com esses tipos de sonoridades que me fazem olhar para dentro, eu acho que isso também é estar em contato com a minha ancestralidade.”
Durante a conversa, ela também menciona o conceito de ancestrofuturismo, aproximando essa ideia do afrofuturismo e de uma imaginação de futuro construída sem romper completamente com a memória.
“É imaginar esse futuro sabendo que ele também carrega uma memória do passado. Um conhecimento que foi perdido durante muito tempo, mas que está sendo retomado por meio da arte, da música, do audiovisual.”
Essa relação aparece também quando fala sobre a música brasileira. Apesar de dizer que seus primeiros contatos com os graves vieram de expressões estrangeiras, Kenya acredita que a força da percussão brasileira inevitavelmente atravessa sua produção.
“Quando eu penso no Brasil, quando eu penso nos tambores, nessa timbragem, nesses instrumentos que vêm de África e fazem parte da nossa música, o grave está presente. Mas eu amplio isso para a percussividade. Boa parte da percussividade que existe na minha música é por eu ser brasileira. É uma coisa da qual eu nunca vou abrir mão.”
Todo esse universo ganha uma representação concreta em Dona Sinistrus. Para Kenya, a personagem não funciona exatamente como um alter ego, mas como a principal habitante do universo que ela vem construindo ao longo da carreira.
Ouça Kenya20hz
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