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Cachês para shows aumentam e geram uma conta que ninguém quer pagar

Leia a coluna

Público vibra no show do Oasis em São Paulo (@JOSHUAHALLING)

Público vibra no show do Oasis em São Paulo (@JOSHUAHALLING)

Há uma conta que ninguém quer pagar – aliás, ninguém gosta de pagar conta nenhuma, claro.

Mas existe uma conta que está cada vez mais difícil de equalizar… O cachê subiu. E agora?

O fornecedor aumentou. E agora?

A bebida ficou mais cara. E agora? Alguém tem que pagar essa conta.

Com o crescimento dos cachês artísticos, está se redesenhando o cenário no mercado do entretenimento, colocando produtores, marcas e público diante de uma equação cada vez mais difícil de fechar.

Durante décadas, o show ao vivo foi tratado como o produto final da música. Hoje, paradoxalmente, ele se tornou também o principal motor financeiro de boa parte da indústria.

Com a transformação digital, a queda da relevância econômica das vendas físicas e a pulverização das receitas de streaming, os artistas passaram a enxergar a estrada não apenas como ferramenta de divulgação, mas como sua principal fonte de faturamento.

O resultado foi uma escalada significativa nos cachês cobrados por grandes atrações.

O fenômeno é compreensível sob a ótica dos artistas. O problema é que ele desencadeou um efeito dominó que afeta toda a cadeia do entretenimento.

A pergunta que o mercado começa a fazer é simples: até onde os cachês podem subir sem comprometer a sustentabilidade dos eventos?

A matemática que não fecha sozinha: quando um artista dobra seu cachê, o impacto não dobra apenas para o contratante. Ele se multiplica.

O produtor não paga apenas o artista. Existe uma estrutura inteira que cresce ao redor daquela contratação: palco, som, iluminação, painéis de led, geradores, equipe operacional, segurança, brigadistas, camarins, hospedagens, transporte, impostos, marketing, seguro do evento…

Em muitos casos, o cachê artístico já representa entre 40% e 70% do custo total da operação.

Quando ele sobe excessivamente, a conta inteira se desequilibra.

E o público chegou ao limite?

Existe um conceito econômico conhecido como “elasticidade de preço”.

Ele mede o quanto um consumidor aceita aumentos antes de desistir da compra.

Durante muitos anos, a indústria do entretenimento acreditou que o fã absorveria praticamente qualquer reajuste para assistir ao seu artista favorito.

Mas os sinais recentes mostram que talvez estejamos chegando ao limite dessa lógica.

O consumidor atual enfrenta aumentos em praticamente todos os setores, como: alimentação, combustível, moradia, educação, saúde, serviços digitais etc.

Ao mesmo tempo, o ingresso de um grande show passou a competir diretamente com outras formas de entretenimento.

Hoje, uma família pode comparar: um show, um final de semana de viagem, um jantar especial, uma assinatura de streaming durante vários meses.

A decisão deixou de ser emocional e passou a ser também financeira.

No paradoxo da casa cheia, curiosamente muitos eventos parecem lotados. Mas a lotação nem sempre significa rentabilidade.

Existe uma realidade pouco discutida nos bastidores: nem todo evento esgotado gera lucro.

Em diversos casos, o produtor consegue vender praticamente todos os ingressos e, ainda assim, encerra a operação com margem mínima ou até prejuízo.

Isso ocorre porque os custos cresceram mais rápido do que a capacidade de geração de receita.

É o fenômeno da “casa cheia e caixa vazio”.

O papel das marcas: patrocínio ou subsídio?

Nos últimos anos, as marcas passaram a ocupar um espaço central no financiamento dos eventos. Não foi por acaso.

Elas ajudam a fechar uma conta que muitas vezes não fecha apenas com a venda de ingressos.

O patrocínio deixou de ser apenas uma ação de branding.

Em muitos casos, tornou-se um verdadeiro mecanismo de viabilização econômica.

Sem ele, diversos festivais e turnês simplesmente não aconteceriam.

A questão é que as marcas também possuem limites.

Se os custos continuarem subindo em ritmo superior ao retorno de exposição e engajamento, o investimento tende a ser reavaliado.

Nenhuma empresa investe indefinidamente em uma conta que deixa de gerar retorno proporcional.

Imagine uma corrida de Fórmula 1. Se apenas um piloto aumentar sua velocidade, a competição continua. Mas, se todos aumentarem simultaneamente, o diferencial desaparece.

É exatamente o que acontece no mercado de shows. Quando um artista eleva seu cachê de forma expressiva, outros artistas da mesma categoria passam a utilizar aquele valor como referência.

Cria-se uma corrida inflacionária.

O problema é que o consumidor não recebe aumento salarial na mesma velocidade.

O mercado artístico acelera enquanto o poder de compra do público permanece praticamente estacionado.

O risco invisível: menos eventos, menos oportunidades

Existe uma consequência pouco debatida: quando os cachês atingem níveis muito elevados, não são apenas os produtores que sofrem.

Os próprios artistas podem acabar prejudicados, já que menos cidades conseguem contratar, menos festivais conseguem montar line-ups competitivos, menos casas de shows conseguem assumir riscos, menos eventos corporativos entram no mercado.

O resultado é uma redução do número total de apresentações. Ou seja: um cachê maior nem sempre significa uma receita anual maior. Em alguns casos, significa apenas menos datas.

O entretenimento brasileiro vive um fenômeno semelhante ao observado no futebol europeu. Quando salários e transferências cresceram de forma exponencial, apenas alguns clubes passaram a conseguir competir. O mercado ficou concentrado.

Nos shows acontece algo parecido. Grandes grupos empresariais conseguem absorver riscos maiores. Produtores independentes encontram cada vez mais dificuldade para operar. O risco é criar uma indústria onde apenas poucos agentes conseguem realizar grandes eventos.

Menos concorrência quase sempre significa menos inovação.

O ingresso VIP virou necessidade

Há alguns anos, setores premium eram um complemento. Hoje, em muitos eventos, eles se tornaram essenciais.

Backstage, lounges, camarotes e experiências exclusivas deixaram de ser apenas luxo. Passaram a funcionar como mecanismo de compensação financeira.

O mercado tenta equilibrar a equação vendendo experiências de alto valor para uma parcela menor do público. Na prática, isso cria uma segmentação cada vez mais evidente dentro do entretenimento ao vivo.

A ‘uberização’ da experiência musical

Levanto aqui outra reflexão importante: o streaming democratizou o acesso à música. Mas os shows caminham em outra direção.

Enquanto ouvir uma canção custa poucos reais por mês em uma plataforma digital, assistir ao artista presencialmente se torna cada vez mais caro.

A música se populariza. A experiência ao vivo tem que ir pelo mesmo caminho. É uma contradição que merece atenção da indústria.

O que pode acontecer nos próximos anos?

Alguns movimentos já começam a aparecer: mais eventos patrocinados e a participação das marcas tende a crescer ainda mais. Modelos híbridos de receita. Eventos tentam depender menos exclusivamente da bilheteria.

Festivais podem reduzir o número de atrações e investir mais em experiência.

Em algum momento, o próprio mercado pode impor um freio natural aos aumentos. Não por regulação. Mas por limitação econômica do cliente final.

Ele é quem faz essa roda girar.

Como soldado do entretenimento e da música, deixo aqui minha reflexão final:

A indústria do entretenimento sempre viveu de emoção. Mas nenhuma emoção é capaz de desafiar indefinidamente a matemática!

O desafio dos próximos anos não será apenas contratar os maiores artistas. Será encontrar um ponto de equilíbrio entre três interesses legítimos: o artista que deseja maximizar sua valorização, o produtor que precisa manter operações sustentáveis, o público que quer consumir cultura sem comprometer seu orçamento.

Bingo.

Quando um desses três pilares perde força, toda a estrutura se desequilibra. Porque, no fim das contas, o maior risco para o mercado é quando o espetáculo deixa de ser acessível para quem o torna possível: o público.

Sou um otimista visceral. Por isso sempre me ecoa aos ouvidos o nosso eterno mestre Arlindo, sempre com aquele sorriso a cantar:

“Nós iremos achar o tom
Um acorde com lindo som
E fazer com que fique bom
Outra vez o nosso cantar
E a gente vai ser feliz,
Olha nós outra vez no ar…
O show tem que continuar!”


Empresário e jornalista, Maurícìo Dutth é um profissional multifacetado com uma trajetória de destaque nas áreas de comunicação, entretenimento, empreendedorismo e tecnologia.