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Toda ação gera uma reação – ainda falando sobre marcas e a comunidade LGBTQIA+

Colunista analisa o recuo das marcas nas pautas LGBTQIA+

João Felipe Villanova fala sobre marcas e comunidade LGBTQIA+

João Felipe Villanova (Divulgação)

Colunista analisa o recuo das marcas nas pautas LGBTQIA+, o boicote à Bud Light e o retrocesso nos índices de aceitação da homossexualidade no Brasil.

Começo minha última coluna com uma frase que considero certeira: “A sociedade está cada vez mais polarizada”. E isso não é à toa. Nos últimos anos, os lados estão cada vez mais opostos, o caminho do meio foi realmente esquecido, e eu discordo muito.

Com a natural alternância entre lados distintos do espectro político, é esperado que políticas públicas sofram ajustes, ganhando mais ou menos força, mais ou menos defesa, conforme quem está no poder. O que chama atenção, porém, é a brutalidade com que políticas de diversidade vêm sendo desmontadas por determinados governos. E toda ação produz uma reação: o que começa como uma decisão isolada se propaga globalmente, em efeito cascata, e é justamente essa dinâmica em cadeia que preocupa.

De um lado, grupos de afinidade que buscam por uma sociedade mais equilibrada, de outro, o reacionarismo feroz gritando alto. O que nós ganhamos com isso? Nada. Foram necessárias décadas de enfrentamento, movimentos sociais, mortes e posicionamento público para que o respeito ao próximo pudesse, finalmente, existir. Não podemos titubear agora.

A sociedade moderna é um bebê aprendendo a engatinhar. Somos uma sociedade, pós-Cristo, de 2026 anos, onde um Sr. que tenha 71 anos, que mora nos Estados Unidos, cresceu e se desenvolveu em um período onde pessoas brancas e pessoas pretas tinham lugares diferentes no ônibus público, e o mesmo servia para banheiros. Surreal. Se você não conhece Rosa Parks, pesquise.

Eu nasci em um mundo onde ser homossexual era sinônimo de doença. E estou sendo literal aqui. Foi apenas em 17 de maio de 1990 que a OMS tirou a homossexualidade da lista internacional de doenças. Vocês entendem como o debate ainda é algo novo? Percebam a importância desse debate, e sim, o quanto precisamos de ajuda externa, marcas, mercado e sociedade para desenvolver a pauta. 30 anos de debate não mudam toda uma sociedade, é pouquíssimo tempo.

É natural que esses movimentos ganhem cada vez mais força. Foram séculos de marginalização, sem direitos básicos, andar livremente no ônibus, casar com quem se ama, demonstrar afeto em público. Eu mesmo, até hoje, sinto receio e medo de expressar afeto homoafetivo em público, mesmo com todos os privilégios que tenho.

Por algum motivo, que nem Freud explica, a liberdade de uns virou sinônimo de insatisfação de outros. Hoje, com as redes sociais, esses movimentos ganharam força, ganharam voz. Mas o que isso tem a ver com o posicionamento das marcas perante a comunidade LGBTQIA+ e causas em geral? Tudo! O que poderia ser uma evolução muito bacana da sociedade virou um grande campo minado, onde as empresas caminham tentando não explodir.

Segundo matéria publicada no New York Times, em 2023, a Budlight teve uma queda de 17% nas vendas após uma campanha com uma pessoa trans. A marca sofreu um dos maiores boicotes da história, simplesmente por apoiar e dar luz a um recorte tão esquecido da comunidade LGBTQIA+. Pelo contrário, um movimento antitrans se instaurou na época.

A marca faz isso para criar visibilidade para a causa, ela sofre boicote, tem queda das vendas. E o próximo passo? Nunca mais repetir o feito. Até hoje, a Bud Light carrega as consequências: perdeu o posto de cerveja mais vendida dos Estados Unidos. No ano seguinte, o país elege um político que vai contra todas as políticas públicas de diversidade, zera os investimentos em diversas pautas sociais e arrasta consigo dezenas de marcas americanas.

O resultado? Um retrocesso em escala global, que nos afasta do lugar a que levamos séculos para chegar. Quando as marcas seguem os governos ao invés de valores e passam a ouvir os extremos, nós perdemos como sociedade.

Não será do dia para a noite que perderemos todos os direitos que tanto lutamos para conquistar; por isso, é extremamente importante estarmos atentos. Ano passado, presenciamos as marcas tirarem seu posicionamento de todas as pautas. Esse ano, vivemos o Pride cinza, com menos ações de marcas. Como serão os próximos anos?

Segundo o Datafolha, após 12 anos aumentando gradativamente a taxa de aceitação da homossexualidade no Brasil, em 2026 tivemos um recuo na aceitação, um retrocesso nos números que impactam em vidas. O que isso pode refletir na próxima década e na próxima geração. Hoje temos uma geração aberta à diversidade e lida muito melhor com o tema, queremos que as próximas sejam ainda mais abertas e não o oposto.

Ainda aqui no Brasil, tem político achando possível colocar a Parada do Orgulho em local fechado (Ps: são em média 3 milhões de pessoas, risos). Após 30 anos de existência e resistência, por que não podemos ocupar a via pública? Há algum problema em ser homossexual? Vamos voltar à década de 80/90?. “Ah, porque tem crianças participando”. Pois eu nunca tive um homossexual no meu círculo familiar, sou de uma família tradicional e estou aqui… As pessoas não entendem, e não querem entender, que somos assim, nascemos assim e nada irá nos mudar, e nada irá nos calar.

+ Leia também: Ser ou não ser uma marca que apoia a comunidade LGBTQIA+? Eis a questão

Nós, como comunidade LGBTQIA+, precisamos nos organizar, e a sociedade apoiadora também. Existe boicote a marcas que apoiam a causa LGBTQIA+, mas o mesmo não acontece com marcas de comportamento oposto. São muitos os escândalos envolvendo marcas, ou seus donos, com discursos e atitudes homofóbicas. E, infelizmente, como comunidade LGBTQIA+, muitas vezes não fazemos nada. Pior: há muitos gays consumindo produtos dessas mesmas marcas.

A reação não pode ser de mão única. Se uma ação desencadeia resposta de um lado, uma ação equivalente precisa gerar resposta do outro. Coerência não é luxo, é o mínimo.

Isso não significa parar de dialogar, pelo contrário. O silêncio não é neutralidade, é omissão. Precisamos reagir, sim, mas também é hora de sentar à mesa: com marcas, com governos, com quem pensa diferente. Só existe avanço real quando os dois lados aceitam se ouvir e construir juntos, não apenas gritar.

Ouvir nem sempre foi fácil, mas com muita luta, funcionou. Precisamos de mais Rosas Parks, de mais movimentos como Stonewall, a Parada do Orgulho de SP, precisamos falar e nos fazer ser ouvidos. Não podemos nos calar e fingir que está tudo bem, precisamos reagir.