50 anos de carreira de DJ Meme: ‘A música fez tudo por mim’
Em entrevista à Billboard Brasil, Meme repassa trajetória

DJ Meme no Hot Beats Music Conference (@bruno_contrino)
Nascido e criado no Rio de Janeiro, DJ Meme começou a se interessar por música aos 11 anos de idade, promovendo suas próprias festinhas e observando profissionais em boates da cidade. De lá para as pistas foi um passo: virou DJ de casas da zona sul e de bailes de equipes de som no subúrbio, até levar seu som para as rádios FM cariocas, com programas de mixagem históricos como “A Festa da Cidade”, na Rádio Cidade, e o “RPC Megamix”, na RPC FM.
Foi esse trabalho nas rádios que chamou a atenção de gravadoras e artistas, abrindo caminho para ele produzir os primeiros remixes feitos no Brasil — hoje já são mais de 7 milhões de discos vendidos entre álbuns e compilações. Em 1996, veio o grande salto internacional: seu remix para a estreante Shakira fez tanto sucesso fora do país que, segundo a Billboard, foi responsável pelo primeiro estouro internacional da cantora. Depois disso, DJ Meme também assinou remixes para Mariah Carey, Gloria Estefan, Dido e Toni Braxton, e chegou a ser convidado pessoalmente por Yoko Ono para remixar “Give Peace a Chance”, de John Lennon — faixa que chegou ao 1º lugar na parada Hot Dance da Billboard.
DJ Meme também integrou o casting da Mix, uma das agências de DJs de house music mais importantes do mundo, a convite do lendário Frankie Knuckles.
Com 50 anos de estrada e uma carreira que já rendeu mais de 150 remixes, 23 discos de ouro, 15 de platina e 3 de diamante, DJ Meme relembrou, em entrevista à Billboard Brasil durante a Hot Beats Music Conference, os momentos que mais marcaram sua trajetória — do primeiro disco de ouro à ligação com Shakira, passando pelo convite para integrar a mais importante agência de DJs de house music do mundo.
Billboard Brasil: Como tem sido esse caminho, 50 anos, cinco décadas?
DJ Meme: Prazeroso, divertido, diverso. Eu criei muitas oportunidades para mim que até refletiram dentro da cena do nosso país. É muito prazeroso, mas quando é uma coisa de que você gosta, você não sente que está se esforçando ou trabalhando no sentido ruim da palavra. E tem as pessoas que você vai encontrando pelo caminho, os lugares que você visita, que jamais visitaria. Eslovênia, por exemplo: que dia eu ia comprar uma passagem para ir para lá passar férias? Nunca. Então tem lugares aonde eu vou tocar em que, assim, a música realmente fez tudo por mim, e eu procuro sempre dar o melhor para ela.
Você trabalhou com grandes ícones, né? Shakira foi uma delas.
Sempre, ó. No freestyle mesmo, sem muito programar. Eu gosto quando o meu cérebro funciona sob pressão, sabe? Despretensioso mesmo: as coisas vão acontecendo, dão resultado, outras pessoas vêm, te chamam, te contratam, te convidam para isso, para aquilo. Você viu, eu estou dando entrevista para a Billboard. Quem diria, a Billboard? Eu, que sempre li a Billboard.
Aliás, o remix que você fez para a Shakira saiu na Billboard, está registrado lá — o remix que estourou a Shakira no mundo todo. E foi um dos motivos que impulsionaram a carreira dela aqui no Brasil. Ela teve agora um show incrível em Copacabana. Como é sentir que você fez parte dessa história?
É interessante, mas, cara, sem modéstia mesmo: isso tem 30 anos. Eu não penso nisso, nem ela. Mas nesse momento em que ela veio ao Brasil, passei um mês dando entrevista. É interessante, mas a gente tem que saber que, na segunda-feira, ninguém vai mais falar sobre o assunto. Se a gente tentar viver disso de novo, não vai dar certo. A gente tem que ter consciência de que isso é apenas um flashback.
E é muito legal que, com 50 anos, você continue nas pistas, continue produzindo despretensiosamente, e que isso vá rendendo frutos. Você poderia listar os top 5 momentos dessa carreira? É difícil, né?
O primeiro disco de ouro que eu ganhei foi uma grande realização — relativo às 100 mil cópias vendidas do LP “Desafinado”, um álbum mixado lançado em 1991. Eu consumia esse tipo de disco quando era DJ novinho, com 12, 13 anos, e sempre tive vontade de fazer isso um dia: mixar um álbum que saísse por uma gravadora e chegasse ao Brasil inteiro. Isso não só aconteceu como atingiu uma geração inteira, a que veio depois da minha. Foi muito prazeroso. Aquele primeiro disco de ouro foi tipo “pronto, não preciso de mais um”. Mas aí vieram outros, graças a Deus.
O segundo foi o estouro da minha fusão com artistas de música pop — Paralamas do Sucesso, Charlie Brown Jr., Gabriel O Pensador, Lulu Santos. Ver que eu conseguia botar o beat e a linguagem do DJ na música dessas pessoas, e que isso dava certo… tem uma geração inteira que só conhece certas músicas depois desse estouro. E a Fernanda Abreu é um exemplo à parte: trabalhamos muito tempo juntos, fizemos muita coisa, e acho que isso também foi um marco — a música brasileira ter deixado eu interferir e colocar um pouco da sonoridade que nós, DJs, temos na cabeça e na pista.
O terceiro foi ter entrado para a Mix, uma das agências de DJs de house music mais importantes do mundo, indicado pelo próprio Frankie Knuckles, o pai da house music, meu grande irmão mais velho, digamos assim. Um dia ele falou: “cara, você tem que vir trabalhar com a gente na Mix.” Achei que era brincadeira, mas era verdade. Viajar com aquelas pessoas todas, saber que me consideravam um deles, foi algo que marcou muito a minha vida.
O quarto são as viagens internacionais — elas sempre são um marco para mim, parece que é sempre a primeira. Eu vou sempre muito animado, porque gosto dessa coisa de cultura, idiomas, gastronomia, e de tocar para públicos diferentes.
E o quinto é dar essa entrevista para a Billboard do Brasil sem precisar sair de casa, sem pegar ônibus, sem pegar avião, sem pegar nada. A Billboard veio me procurar. Isso é um marco, já posso encerrar minha carreira: com 50 anos, a Billboard sabe que eu existo. Que maravilha!
Ouça os maiores sucessos de DJ Meme
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