A nostalgia também é negócio
Leia a coluna de Peck Mecenas, sócio-diretor e fundador da PECK

Peck Mecenas (Divulgação)
Durante muito tempo, a indústria acreditou que o novo era sempre mais valioso. Hoje, talvez o ativo mais disputado do mercado seja justamente a capacidade de despertar memórias – a nostalgia.
Não por acaso, festivais dedicados a artistas que marcaram gerações, turnês comemorativas e encontros inéditos entre grandes nomes da música vêm conquistando espaço no calendário cultural. Mais do que um movimento passageiro, esse fenômeno revela uma mudança importante na forma como o público escolhe viver as experiências ao vivo.
Existe uma pergunta que volta com frequência sempre que um festival anuncia um line-up formado por artistas que marcaram os anos 1980, 1990 ou 2000:
Afinal, a nostalgia virou uma tendência ou estamos apenas repetindo fórmulas?
Na minha visão, estamos diante de uma mudança de comportamento. E, quando o comportamento muda, a indústria precisa aprender a enxergar novas oportunidades.
Com o passar dos anos, acreditou-se que o sucesso de um festival dependia principalmente da novidade: o próximo grande artista, a próxima aposta, o próximo fenômeno. Essa lógica continua existindo e seguirá sendo fundamental para renovar a música brasileira. Mas ela passou a dividir espaço com outro movimento igualmente poderoso: a busca por experiências que despertam memória.
As pessoas já não compram apenas um ingresso para assistir a um show. Compram a oportunidade de reviver uma parte da própria história.
Uma música tem a capacidade de transportar alguém para um momento específico. Pode ser a adolescência, uma viagem, um namoro, uma amizade ou uma lembrança em família.
Poucas manifestações culturais conseguem criar uma conexão emocional tão imediata, e a ciência já mostrou que ouvir canções associadas a momentos marcantes ativa regiões do cérebro ligadas à memória autobiográfica e às emoções. Talvez por isso estejamos vivendo a era dos line-ups afetivos.
Isso não significa olhar para trás por falta de criatividade. Pelo contrário. Significa compreender que existe um enorme valor cultural e econômico em reunir artistas que continuam relevantes muitos anos depois de terem lançado seus maiores sucessos.
As plataformas de streaming e as redes sociais aceleraram esse movimento. Hoje, um clássico pode voltar às paradas depois de aparecer em uma série, viralizar no TikTok ou entrar em uma playlist. Enquanto uma geração revive a trilha sonora da juventude, outra faz sua primeira descoberta daquele repertório.
É cada vez mais comum ver pais e filhos cantando as mesmas letras, ainda que tenham conhecido aqueles artistas em momentos completamente diferentes da vida.
Tenho observado esse comportamento de perto. Quando criamos projetos como o 90’s Festival, dedicado a ícones que marcaram uma década inteira, ou o Clássicos do Brasil, que celebra alguns dos maiores nomes da nossa música, a intenção nunca foi apenas reunir artistas consagrados. A ideia sempre foi entender por que determinadas canções continuam emocionando pessoas tantos anos depois.
Esse comportamento chamou a atenção não apenas dos produtores, mas também das marcas.
Em um mercado cada vez mais disputado pela atenção das pessoas, criar conexões emocionais tornou-se um diferencial estratégico. E poucas coisas despertam tanta identificação quanto uma lembrança compartilhada.
Mas existe um ponto importante: nostalgia, sozinha, não sustenta um projeto. Uma programação pode despertar o interesse inicial, mas o que faz alguém voltar no ano seguinte é a qualidade. Estrutura, conforto, acessibilidade, gastronomia, segurança, ativações de marca e, principalmente, curadoria continuam sendo tão importantes quanto os artistas que sobem ao palco.
A memória leva o público até o evento. A experiência é o que transforma aquela lembrança em um relacionamento de longo prazo.
Talvez esse seja um dos maiores aprendizados que eu e a indústria tivemos nos últimos anos. O mercado deixou de vender apenas shows. Passou a vender experiências. O show da Madonna na final da Copa do Mundo de 2026 é um bom exemplo: foi mais do que uma apresentação, foi um momento pensado para ficar na memória.

Ao mesmo tempo, esse movimento traz uma responsabilidade. A nostalgia não pode se tornar um lugar confortável que impeça o surgimento de novos artistas. A música sempre precisará olhar para frente. Os grandes nomes de hoje também foram apostas um dia.
O desafio está justamente no equilíbrio: celebrar o repertório que marcou diferentes momentos da nossa história sem perder a capacidade de abrir espaço para aquilo que ainda está sendo construído.
Porque, no fim das contas, a nostalgia nunca foi apenas sobre saudade. Ela é sobre reconhecimento. Sobre identidade. Sobre a capacidade que certas canções têm de continuar encontrando sentido na vida das pessoas, independentemente da época em que foram lançadas.
Por isso, os line-ups afetivos deixaram de ser apenas uma tendência. Tornaram-se uma das formas mais inteligentes de conectar passado, presente e futuro, e um dos ativos mais valiosos da indústria da música.
+ Veja mais: 50 melhores álbuns brasileiros de 2026 (até junho), segundo a Billboard Brasil
Peck Mecenas é fundador da PECK há 25 anos, criou mais de 30 labels de sucesso, como o Festival de Inverno Rio, Clássicos do Brasil, Rock Brasil 40 Anos e 90s Festival, e em 2026 passou a realizar turnês nacionais com grandes nomes da música, como Alceu Valença.

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