Published by Mynd8 under license from Billboard Media, LLC, a subsidiary of Penske Media Corporation.
Publicado pela Mynd8 sob licença da Billboard Media, LLC, uma subsidiária da Penske Media Corporation.
Todos os direitos reservados. By Zwei Arts.

O que o Lollapalooza Chicago 2026 diz sobre o futuro da música ao vivo

Leia a coluna de Marcelo Beraldo, diretor do Lollapalooza Brasil

Olivia Dean se apresenta no Lollapalooza Chicago Escobar Garcia Divulgacao

Olivia Dean se apresenta no Lollapalooza Chicago (Escobar Garcia/Divulgação)

Existe uma frase que ficou ecoando na minha cabeça durante todo o fim de semana em Grant Park: ninguém lembra o placar do fim do primeiro tempo. Ela resume melhor do que qualquer análise o que foi o Lollapalooza Chicago 2026 — quatro dias, oito palcos, mais de 170 artistas e uma tempestade que, entre sexta e sábado, quase colocou tudo a perder.

A chuva veio forte. No sábado, o gramado virou um lamaçal e a grade precisou ser remanejada às pressas. Os portões abriram com quatro horas de atraso, às três da tarde, com a cidade ainda sob resquícios dos temporais. Alguns artistas menores acabaram cortados ou com os shows reduzidos. Era o tipo de dia em que festival nenhum tem garantia de acontecer. E, ainda assim, o Lolla aconteceu — e lindo!

Quem nunca trabalhou por dentro de um festival talvez não entenda a dimensão do que isso significa. Um evento desse porte não se sustenta apenas nos nomes do line-up: ele se sustenta na engenharia invisível que faz o parque escoar água, secar o solo, refazer a drenagem e recolocar toneladas de cobertura de solo em poucas horas. As equipes de operação fizeram exatamente isso, virando a noite, transformando um Grant Park alagado numa arena de novo pronta para receber cem mil pessoas. É um trabalho braçal, anônimo, que raramente aparece nas fotos — e que é, na prática, o que separa um festival lendário de um cancelamento. 

Tenho orgulho e sorte de trabalhar ao lado de alguns dos melhores profissionais — e das melhores pessoas — que conheci na vida. Ver esse time reagir à tempestade sem alarde e sem hesitar, cada um cobrindo o outro, foi um lembrete de por que um festival desse tamanho é, antes de tudo, um feito coletivo. Foi esse time que ganhou o jogo. O placar do primeiro tempo, de fato, ninguém lembra.

O Lollapalooza após a tempestade 

Superada a água, o que ficou foi a música — e ela contou uma história interessante sobre a indústria ao vivo. A primeira coisa que salta aos olhos é o Lollapalooza como vitrine, como rampa de lançamento. 

Chicago é, há anos, o palco onde o artista cruza a linha que separa “promessa” de “headliner”. Foi ali que, em 2007, uma Lady Gaga ainda desconhecida tocou num palquinho lateral sob olhares de desconfiança — para voltar três anos depois, em 2010, abrindo a noite principal como estrela mundial. 

Foi ali que Chance The Rapper, garoto da cidade, subiu ao pequeno palco da BMI em 2013 antes de virar headliner em 2017, num arco que só Chicago poderia ter escrito. E foi ali que Billie Eilish, aos 16 anos, tocou num palco menor em 2018 e retornou em 2023 para fechar o festival com naturalidade de quem sempre pertenceu àquele lugar. O Lolla não apenas recebe grandes nomes: ele os fabrica.

Em 2026, essa engrenagem seguiu girando — e talvez com mais força do que nunca. O momento mais bonito foi a estreia de Olivia Dean como headliner de festival: a inglesa fechou o T-Mobile Stage no sábado e transformou o show num dos pontos altos do fim de semana, chamando Sam Fender ao palco para cantar “Rein Me In” pela primeira vez ao vivo nos Estados Unidos. 

Mas ela não esteve sozinha nesse clube de estreantes. Jennie fez história como a primeira artista solo feminina de K-pop a ser headliner do Lollapalooza Chicago. E o Smashing Pumpkins, banda nascida na própria cidade, só agora estreou como headliner do festival em casa — Billy Corgan chegou a lembrar que o grupo havia sido “banido” do Grant Park por um prefeito no passado, o que deu à noite um sabor de acerto de contas.

Soul britânico, K-pop e rock alternativo: três mundos distintos consagrados na mesma edição. Isso é vitrine para o planeta inteiro, e o que acontece em Grant Park sinaliza o que os fãs vão querer em Berlim, Paris, Santiago, Buenos Aires e em São Paulo.

Lollapalooza Chicago
Lollapalooza Chicago acontece no Grant Park (Escobar Garcia/Divulgação)

O rock está vivo, bebê! 

O segundo movimento, e talvez o mais empolgante, é o “renascimento” das bandas de rock. Depois de anos de hegemonia do pop e da eletrônica, o rock voltou a ocupar os grandes palcos — e não como nostalgia. 

O Turnstile, que se apresentou no Lollapalooza Brasil no último março, subiu no último dia e entregou hardcore de mosh pit e stage dive, com Brendan Yates literalmente se jogando na multidão; a banda vem de dois Grammys neste ano, de Melhor Álbum de Rock e Melhor Performance de Metal por “BIRDS”. 

O Smashing Pumpkins abriu um novo capítulo rumo aos seus 35 anos de estrada. Nomes como Wet Leg e Wolf Alice reforçaram que a guitarra voltou a ser assunto. 

E há um sinal ainda mais eloquente: Charli xcx, uma das maiores estrelas pop do planeta, headliner na sexta, chegou a Chicago já no seu novo momento, o do disco “Music, Fashion, Film”, carregado de guitarras. Foi ela quem cravou a provocação que virou manchete — “a pista de dança morreu, agora estamos fazendo rock”. Quando uma das rainhas do hyperpop empunha guitarras e abraça o formato banda, é porque alguma coisa mudou no vento. E o Lolla é o termômetro dessa virada.

Há, por fim, algo que só entende quem olha o festival de dentro: a simbiose entre o Lollapalooza e a cidade que o abriga. Diferentemente da maioria dos grandes festivais do mundo, montados em descampados isolados a horas da civilização, o Lolla pulsa no meio de Grant Park, no coração de Chicago. Isso muda tudo.

O público sai do hotel a pé, pega uma linha do metrô elevado da cidade, um trem da Metra ou um carro de aplicativo e, em minutos, está diante dos palcos; e, quando o show acaba, volta para um jantar tardio, um dos vários aftershows, um bar ou a cama sem enfrentar horas de estrada e poeira. Essa facilidade de chegar e sair é um luxo raro, e é parte do que faz o festival funcionar mesmo em dias de tempestade. 

Some-se a isso o cenário: os arranha-céus de Chicago formando uma moldura de tirar o fôlego atrás dos palcos, as luzes da Willis Tower e da Michigan Avenue se acendendo enquanto o headliner sobe, a Buckingham Fountain, a orla do Lago Michigan a poucos passos. Nenhum telão reproduz aquilo. A cidade não é apenas a sede do Lolla — ela é parte do line-up, um pano de fundo que nenhum outro festival consegue copiar.

E há retorno concreto nessa relação: em 2025, o festival gerou cerca de US$ 480 milhões de impacto econômico para a cidade, com mais de 460 mil pessoas — o maior público de sua história — e já são mais de US$ 3,6 bilhões movimentados desde 2010, entre aluguel de parque, impostos, recuperação de áreas verdes e um salto de quase 180% no fluxo de turistas. Por quatro dias, Grant Park deixa de ser um parque no centro da cidade e vira o coração pulsante de Chicago. Essa relação é o modelo que sustenta cada uma das edições do Lolla mundo afora, inclusive a nossa.

No Brasil

E é justamente aqui que Chicago me faz olhar para casa. Em 2027, o Lollapalooza Brasil completa 15 anos, e a edição comemorativa já está sendo desenhada. Não vou entregar spoilers — mas quem passou o último fim de semana em Grant Park sabe o tamanho da régua. 

A resiliência das equipes diante da chuva, a coragem de apostar em novos headliners e novos talentos, a sensibilidade de ler a virada do rock antes que ela vire consenso: tudo isso é o DNA que atravessa o oceano e chega a Interlagos. 

Se Chicago provou algo em 2026, é que festival grande não se faz de sorte com o clima, e sim de gente muito boa fazendo o trabalho invisível. 

Nos vemos em 2027, para comemorar como só o Brasil sabe.

Marcelo Beraldo
Marcelo Beraldo, diretor do Lollapalooza Brasil (Divulgação)