
Anitta se encontra com a sua espiritualidade no disco "EQUILIBRIVM" (Jhuan Martins)
Entenda a busca do equilíbrio no macumbeats de Anitta
Alguns discos são marcos culturais. Outros são divisores de águas na carreira de um artista. O oitavo álbum de estúdio de Anitta, “EQUILIBRIVM”, lançado em abril de 2026, parece reunir essas duas qualidades. O trabalho surpreendeu o público e a crítica por seu tom confessional e espiritualizado, pelas parcerias ecléticas e por explorar raízes sonoras brasileiras pouco difundidas no mercado pop global.
Em tempos de celebração da latinidade comandada por nomes como Bad Bunny e Shakira, Anitta torna-se ainda mais internacional ao se mostrar profundamente brasileira. O trabalho carrega um forte teor de sincretismo religioso: une pontos de umbanda, orixás do candomblé, mantras de meditação budista e símbolos de rituais indígenas.
O disco que muda tudo
Na história da música popular, os capítulos mais fascinantes pertencem aos momentos de ruptura estética e resiliência pessoal de grandes artistas.
Em 1975, quando Tim Maia rompeu com o mercado para mergulhar em uma doutrina mística, ele concebeu o clássico “Tim Maia Racional”. A Cultura Racional era uma doutrina baseada nos livros “Universo em Desencanto”, que pregava que a humanidade deveria buscar a “imunização racional” por meio de um estilo de vida rígido. Foi essa busca por pureza e respostas existenciais que fascinou o cantor e inspirou seu antológico disco.
Em 2011, “Nó na Orelha” salvou a carreira de Criolo. Após mais de duas décadas no underground, ele passava por dificuldades quando o disco o transformou em um fenômeno nacional. O álbum representou uma ruptura ao implodir o purismo do rap, misturando hip hop com samba, reggae, afrobeat e brega. Ao trocar as rimas faladas pelo canto melódico e vulnerável, o artista construiu uma ponte definitiva entre a periferia e a MPB.
O novo disco de Anitta posiciona-se justamente nessa prateleira de transições corajosas. A carioca repete esse rito de passagem ao silenciar o ruído externo para ouvir o próprio centro criativo.
Antes de lançar “EQUILIBRIVM”, Anitta viveu um colapso. O ritmo frenético de trabalho resultou em uma crise de exaustão física e mental. Esse momento de vulnerabilidade e seu subsequente afastamento dos palcos foram os temas centrais do documentário “Larissa: O Outro Lado de Anitta”, lançado pela Netflix em 2025. A produção expôs as feridas de uma artista esgotada. Para se curar e repensar suas prioridades, ela desacelerou drasticamente e buscou refúgio em uma viagem transformadora ao Nepal.
Esse período de isolamento foi essencial para que Larissa se distanciasse da persona Anitta dos palcos. Ela deixou de lado as cobranças do sucesso internacional para focar em sua saúde mental, em suas raízes e em sua devoção, especialmente ao candomblé.
Toda essa bagagem espiritual e de autoconhecimento moldou diretamente o álbum. O projeto foi estruturado em dois atos bem definidos. O primeiro abraça suas origens brasileiras com ritmos ancestrais e parcerias nacionais, enquanto o segundo traz faixas em inglês e espanhol voltadas ao mercado global. Foi a fórmula que ela encontrou para balancear sua vida e sua arte.
Antes mesmo do lançamento oficial do álbum, Anitta consagrou-se no mercado norte-americano com uma performance no lendário programa “Saturday Night Live”, rito restrito à realeza do pop, onde apresentou sua nova estética focada nas religiões de matriz africana.
Já com o disco saindo do forno, o retorno promocional ao Brasil expôs fraturas culturais importantes: a apresentação das novas faixas no “Domingão com Huck”, em plena Páscoa, recebeu duras críticas de setores conservadores. A reverência espiritual da performance escancarou a intolerância religiosa do país, levando a artista a desabafar no Instagram e a exigir para sua fé o mesmo respeito direcionado às outras religiões. Além disso, o lançamento de “EQUILIBRIVM” coincidiu com um período de grande exposição internacional.
A “Girl from Rio” brilhou na etapa nacional da mega turnê “After Hours til Dawn Stadium Tour”, de The Weeknd. Diante de arenas cheias, as apresentações ao vivo das canções em conjunto, “Rio” e “São Paulo”, incendiaram o público.
Pouco tempo depois, a brasileira dividiu os holofotes com Shakira em um momento histórico. A carioca foi uma das convidadas especiais do show gratuito da colombiana na praia de Copacabana. O evento atraiu uma multidão impressionante de 2 milhões de pessoas.
A gira coletiva
Para ter êxito no projeto ambicioso e complexo, “a Patroa” formou um bonde poderoso. O primeiro nome que precisa ser citado é da capitã do time: Nídia Aranha atuou como diretora criativa por trás do universo visual e conceitual.
Nascida em Itaguaí (RJ), a artista visual é uma das mentes mais inovadoras do cenário pop global. Como mulher trans negra e periférica, ela tensiona narrativas de gênero e o pensamento colonial em projetos marcantes para estrelas como Pabllo Vittar, IZA, Ludmilla e Gloria Groove.

Esse impacto estético levou o British Fashion Council a listá-la como uma das 50 vozes visionárias que moldam o futuro da moda contemporânea. Ela explica suas primeiras impressões sobre a criação do álbum e seu maior desafio: “A primeira ideia que tive para ‘EQUILIBRIVM’ nasceu justamente desse encontro entre o sagrado e o humano. Nossa intenção era entender como seria possível construir uma obra onde ancestralidade, espiritualidade, desejo e celebração coexistiam sem contradição.”
Nidia Aranha entendeu que seria um trabalho único feito por muitas mãos.
“O processo de construção de ‘EQUILIBRIVM’ aconteceu de forma muito orgânica e colaborativa. O álbum foi se desenhando quase como uma gira, onde cada faixa ativa uma energia e uma camada diferente dessa travessia.”
O projeto teve a participação de 55 compositores e mais de 20 produtores em 15 faixas, unindo múltiplos talentos da nova geração, como KING Saints, Melly, Felipe Barros, Lary e Dja Luz.
A imensa lista de parceiros traz Marina Sena em “Mandinga”, Liniker em “Caminhador”, Luedji Luna em “Bemba”, Ponto de Equilíbrio em “Deus Existe”, Os Garotin em “Caso de Amor”, Rincon Sapiência e King Saints em “Nanã”, Ebony e Papatinho em “Vai Dar Caô”, Shakira em “Choka Choka”, Los Brasileros em “Meia Noite” e Emanazul em “Ouro”.
Para a identidade visual do álbum, as capas dos singles e as ilustrações dos lyric videos, a cantora chamou a marca mineira Arado. O convite surgiu após Anitta ganhar de seu maquiador um calendário do estúdio intitulado “Rituais Mágicos Brasileiros”, que ilustrava 12 tradições místicas do cotidiano nacional, desde o uso de amuletos até interpretações de sonhos e adivinhações, que deixou Anitta encantada A proposta do disco se alinha perfeitamente à do calendário: celebrar a rica pluralidade da espiritualidade brasileira.

A espinha dorsal de “EQUILIBRIVM” foi moldada em um processo de imersão coletiva que não é muito usual no mercado pop nacional. O projeto nasceu a partir de um intenso camping de compositores. O objetivo principal era criar uma unidade sonora que abraçasse a proposta sem soar caricata. Durante semanas, os profissionais convidados debateram conceitos e traduziram as vivências pessoais da cantora em arranjos inéditos.
A casa do macumbeats
O processo de gravação ocorreu quase que inteiramente no estúdio particular da cantora, localizado no Rio de Janeiro.
Para evitar qualquer risco de vazamento de “EQUILIBRIVM”, Anitta gravou o especial “Som Brasil”, da Rede Globo, praticamente em silêncio. Ela e sua banda se apresentaram utilizando apenas pontos eletrônicos auriculares, o que impediu que qualquer pessoa no estúdio ouvisse as novas faixas enquanto a cantora entregava performance. Uma estratégia de mestre para garantir o impacto total do lançamento.
Musicalmente, o álbum navega pelo samba, pop, funk, reggae, axé, ijexá e MPB. O uso de sample do grupo vocal Os Tincoãs demonstra reverência e cuidado com a ancestralidade musical preta. Para nomear toda essa mistura, a cantora usou constantemente o conceito do macumbeats, som em torno de atabaques e ijexá, e que guia a produção técnica. Nomes como Iuri Rio Branco, Papatinho, Carlos do Complexo e Magary Lord estão na ficha técnica oficial.
O trio Los Brasileros, formado por Pedro Dash, Dan Valbusa e Marcelo Ferraz, entrou no projeto apenas depois da imersão de compositores. Pedro Dash explica:
“Ela mostrou o disco novo para a gente e disse que estava na vibe meio macumbeats. Aí eu olhei para o Marcelo… Porque eu sou do candomblé, o Marcelo é iniciado na umbanda e também cultua orixás do candomblé. Nós começamos a ouvir as coisas e ela já tinha quase 17 músicas prontas. Aí eu lembro que olhei para o Marcelo e falei: ‘Quem tem 17, tem 18, né?’.”

A compositora KING Saints exerceu um papel central no desenvolvimento lírico e na amarração poética de toda a obra. A artista assina a autoria de sete faixas: “Desgraça”, “Mandinga”, “Ternura”, “Deus Existe”, “Vai Dar Caô” e “Choka Choka”. Essa parceria de escrita foi essencial para garantir a coesão temática entre as diferentes referências musicais apresentadas.
Mas a coesão da proposta também passou pela coragem da cantora e de seu bonde em defender raízes brasileiras.
“Nós carregamos historicamente um complexo colonial muito profundo, uma sensação constante de desvalorização da nossa própria identidade e um certo fetiche pelo que vem de fora. Então, viver esse reconhecimento foi também romper, pessoal e simbolicamente, com essa lógica de subalternização cultural”, explica Nídia Aranha.
A faixa “Meia Noite”, produzida pelo trio Los Brasileiros, tornou-se um dos maiores destaques do álbum. A ideia da música surgiu quando Pedro Dash sentiu falta de uma energia específica no repertório. “Desde que ouvimos as faixas, senti que faltava uma música com uma coisa das lavadeiras, algo que trouxesse mais a energia de Pombagira. Liguei para a Anitta e perguntei se cabia mais uma faixa. Ela topou na hora”.
A sonoridade foi inspirada diretamente na umbanda. Segundo Dash, a melodia do coro buscou essa essência: “São pontos que têm essa melancolia, essa tonalidade menor, que remetem à rua, à noite”.
A própria Anitta acabou escrevendo o refrão final, criando o gancho “Prepara para eu chegar, respeita, tem que respeitar…”.
A química em estúdio reflete a longa bagagem do trio, que trabalha junto desde 2008. Dan Valbusa explica como esse histórico facilita o processo criativo com a cantora: “Foi um entrosamento tão grande que hoje a gente até brinca: eu sei exatamente o que o Pedro faria nessa música, ele sabe o que eu faria, e nós sabemos como o Marcelo vai finalizar. Ficou um convívio de tantos anos que já conhecemos a maneira de cada um trabalhar”.
Com essa sintonia, a faixa de Anitta com o trio alcançou o Top 10 Global do Spotify e conseguiu traduzir o conceito do álbum. Pedro Dash finaliza celebrando a coragem da artista em pautar o tema na TV, apesar dos julgamentos.
“Conseguimos sintetizar em um som o que é o macumbeats que a Anitta havia pedido… O que a Anitta fez foi levantar essa pauta de forma muito leve e respeitosa em um país laico, mas que tem preconceitos. Ela teve coragem”.
O projeto apresenta uma curadoria minuciosa de participações especiais que definem o atual cenário da música brasileira contemporânea. A presença e a voz aveludada de Liniker na faixa “Caminhador” eleva a mensagem de resiliência e fé, com um clipe que faz referência à infância da funkeira em Honório Gurgel, incluindo o famoso look feito de copinhos descartáveis.
O flerte com o pop contemporâneo e as raízes da MPB ganha força na maliciosa “Mandinga”, que traz Marina Sena, além de samples e interpolações do clássico “Canto de Ossanha”, obra de 1966 composta por Baden Powell e Vinicius de Moraes.

Mesmo na ilustre participação internacional de Shakira na dançante “Choka Choka”, há lastro com raízes brasileiras. A canção ganhou um videoclipe gravado no Projeto Ibiti (MG). Como um manifesto de valorização dos povos originários, a produção se conecta ao candomblé por meio da figura da Cabocla, exaltando a ancestralidade indígena, a força feminina e a sabedoria da cura pelas ervas.
A narrativa visual foca no protagonismo das mulheres da tribo Marabo Yura e traz referências do povo Yawalapiti, do Alto Xingu, incluindo uma oca real e a luta tradicional huka-huka.
Nidia Aranha fala do cuidado necessário para abordar temas e símbolos: “Neste álbum sobre a alma e a festa do Brasil, tivemos muita responsabilidade para traduzir signos com respeito, sem reducionismo”.
Ao selar essa mistura rica de ritmos e conceitos, Anitta consolida sua posição como uma grande curadora.
O disco prova que a artista vai além do papel de cantora pop e assume a vanguarda da promoção da diversidade cultural brasileira. Assim como Criolo e Tim Maia fizeram em suas respectivas rupturas e retornos, Anitta entrega uma obra imersa em verdade e coragem artística.