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Michael Jackson

Michael Jackson (Reuters)

Renascido das cinzas: como Michael Jackson voltou à moda

Michael Joseph Jackson era um ex-popstar em atividade (nota do redator: termo criado para classificar artistas que vivem mais de glórias passadas do que presentes) quando seu coração parou de bater no dia 25 de junho de 2009, por conta de uma intoxicação aguda por medicamentos –em especial o anestésico propofol e do sedativo benzodiazepina.

A última cartada de sua carreira seria “This Is It”, maratona de 50 apresentações que teriam como palco a O2 Arena, em Londres, entre julho de 2009 a fevereiro de 2010. O lucro, acredita-se, seria usado para abater as dívidas do astro de “Thriller”, que estariam na casa dos 500 milhões de dólares.

Mas a morte de Michael Jackson, vejam só, mostrou-se uma fonte inesgotável de renda. Estima-se que o espólio do cantor –administrado por John Branca, seu advogado, e por John MccLain, executivo da indústria musical– arregimentou mais de 1 bilhão de dólares, das mais diferentes fontes.

Uma delas foi as filmagens do ensaio de sua última turnê (que gerou o documentário “This Is It”), vendidas para a Sony Music, que rendeu um lucro de 392 milhões de dólares. Já as editoras musicais que Michael tinha em seu poder foram vendidas por 130 milhões de dólares e um contrato para lançamento de álbuns póstumos foi fechado por 31 milhões de dólares.

Até o cancelamento da turnê rendeu dividendos: a AEG, empresa que iria bancar as performances finais do astro global, faturou 6,5 milhões de dólares pelos ingressos que os fãs se recusaram a devolver (e que viraram souvenir) e mais 5 milhões de dólares de merchandising. Além disso, ela produziu uma exposição da memorabilia de Michael no Japão, que gerou um lucro de 3,5 milhões de dólares para o espólio do cantor. Que deve seguir para a China.

A caixa registradora da família Jackson deve tilintar ainda mais com “Michael”. A fantasiosa cinebiografia do popstar, em cartaz desde 23 de abril, faturou 704 milhões de dólares no mundo inteiro –até a segunda quinzena de maio, data de fechamento desta edição. A título de comparação, “Bohemian Rhapsody”, produção de 2018 que retrata a vida de Freddie Mercury e detém o posto de cinebiografia com maior arrecadação na história, alcançou 900 milhões de dólares até agora.

Ou seja, a vida de Michael deve levar muito mais gente aos cinemas. O sucesso ainda provocou uma “Jackson Mania”, com pessoas cantando e dançando nas salas de cinemas. Talvez essa seja a intenção real do filme, que entrou nas plataformas de streaming para alugar e comprar no dia 08 de junho: mais do que ilustrar os dilemas e a personalidade “de verdade” do cantor (que no filme parece ser um anjo caído do céu), optou-se por um videoclipe de mais de duas horas de duração, repleto de hits e coreografias emblemáticas do intérprete de “Rock with You”.

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Cena de “Michael’, cinebiografia do cantor Michael Jackson (Divulgação)

Veja o trailer de “Michael”

O resultado? Claro, todo mundo quer saber do popstar e consumi-lo nas mais diferentes formas. Na Deezer, as reproduções das músicas de Michael Jackson cresceram 153%, fazendo o cantor subir 40 posições no ranking dos artistas mais ouvidos da plataforma e alcançar o 68º lugar nas últimas duas semanas.

As canções mais populares são do clássico “Thriller”, de 1982: “Billie Jean” e “Beat It” estão nas primeiras três posições, ao passo que a balada “Human Nature” ocupa o sétimo lugar entre as preferidas dos consumidores.

 

O Spotify, por seu turno, aponta que Michael Jackson tem 64,8 milhões de ouvintes mensais e 40,5 milhões de seguidores, fazendo com que ele se torne o 27º artista mais escutado na plataforma. “Billie Jean”, aliás, liderava a parada global do Spotify no dia 14 de maio. Por fim, nas paradas de sucesso, Michael tem nada menos do que 13 números um (equivalente ao rapper canadense Drake) e ainda “Thriller”, de 1982, é o disco mais bem-sucedido de todos os tempos, com 70 milhões de unidades comercializadas –o número passa de 121 milhões se contabilizarmos as vendas digitais.

Michael Jackson, na verdade, nunca deixou de ser moda. Por mais que tenha enfrentado revezes que incluíram acusações de pedofilia e seu visual dos anos 1990 fosse ridicularizado por comediantes de stand-up e comédias do cinema (alguém pensou em Chris Rock e na série “Todo Mundo em Pânico”?), ele se enfronhou tanto na cultura pop mundial que todo artista traz um pouco de Michael em seu DNA.

Bruno Mars hoje é o número um? Sua dança é inspirada, na cara dura, nos movimentos do intérprete de “Don’t Stop ‘Till Get Enough”.

Bruno Mars
Bruno Mars durante show no Grammy 2025 (Reuters)

Os vocais em falsete de The Weeknd, que recentemente fez shows arrebatadores no Brasil, saíram de fartas audições de Mr. Jackson –na dúvida, escute a música “I Feel it Coming”, do disco “Starboy”, de 2016.

Justin Timberlake é tão influenciado pelo astro que um de seus singles de maior sucesso –”Rock your Body”, de autoria de Pharell Williams–, havia sido recusado pelo maior popstar do século 20.

The Weeknd no Estádio do Morumbis (Brazil News)
The Weeknd no Estádio do Morumbis (Brazil News)

Você gosta de hip hop? Pois o new jack swing –uma combinação de batidas eletrônicas de bateria com vocais adocicados, que Michael colocou na faixa “Dangerous”– foi assimilado por vários versejadores de hoje. Aliás, Jay-Z e Kendrick Lamar criaram canções a partir dos samples de Michael –o primeiro em “Izzo (Hova)” e Lamar fez uma interpolação em “King Kunta”.

A coisa se complica ainda mais quando vamos para a Coreia do Sul. A cinebiografia do cantor faturou 3,6 milhões de dólares na primeira semana de sua estreia, ofuscando a comédia blockbuster “O Diabo Veste Prada 2” e diversas produções locais. É uma relação de amor de mais de três décadas, com momentos de extrema tensão.

Em 1996, durante uma apresentação da “HIStory Tour” no país, um fã subiu no guindaste que suspendia Michael a dez metros do solo e o abraçou durante a execução de “The Earth Song”. O cantor, para delírio do público, não interrompeu a música e trouxe o sujeito para perto de si.

O impacto de Michael Jackson na Coreia de hoje pode ser percebido através do K-pop. Praticamente todos os astros do gênero –em especial as boy bands– imitam as coreografias e os trejeitos do astro. Recentemente, Hongjoong, do Ateez, fez uma bela versão de “Beat It” e “Black and White”, e o cantor Tae Yang coverizou “Smooth Criminal”, com direito a coreografia e tudo.

O sucesso de “Michael”, o filme, pode render uma continuação. Antoine Fuqua, cineasta responsável pelo videoclipe filmado, comentou sobre a possibilidade de surgir uma segunda parte, visto que a produção termina em 1988, durante uma performance da turnê “Bad” na Inglaterra. Não se sabe, contudo, se o filme vai incluir as acusações de abuso de menores que o perseguiram nas últimas décadas de sua vida.

Aliás, elas até estavam na primeira parte da produção. No caso, a estranha relação de Michael com Jordan Chandler, cuja família foi a primeira a alertar a Justiça sobre as, digamos, liberdades do popstar (para evitar problemas legais, os produtores gastaram 15 milhões de dólares a fim de criar novas cenas e situações). Polêmicas à parte, a cinebiografia “Michael” é uma mostra de que o ídolo superou a própria morte.

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Cena de “Michael”, cinebiografia do cantor Michael Jackson (Divulgação)