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COPA DO MUNDO
Foto da capa especial da Copa do Mundo 2026 com Zeca Pagodinho, Romário e Bebeto (Billboard)

Foto da capa especial da Copa do Mundo 2026 com Zeca Pagodinho, Romário e Bebeto (Billboard)

Resenha campeã: Zeca Pagodinho, Romário e Bebeto num papo de samba e futebol

Trio formado pelo cantor e os tetracampeões estampam a capa de Billboard Brasil

Zeca Pagodinho é uma fonte inesgotável de causos e anedotas. Uma das mais significativas – pelo menos para essa reportagem – se deu em 2012, durante as comemorações do título mundial do Corinthians. Ginásio cheio, plateia entregue, cerveja à vontade e o cantor pede uma salva de palmas para… Luiz Felipe Scolari, técnico do Palmeiras, arquirrival do time de Parque São Jorge. Os aplausos se transformaram em vaias, os sorrisos deram lugar a xingamentos impublicáveis. Foi então que alguma alma caridosa explicou que Scolari era o treinador “deles” e o Corinthians era comandado por Tite. Gafe devidamente explicada, Zeca se desculpou junto à torcida e o pagode continuou sem maiores atropelos.

Chega a ser irônico que esse carioca de 67 anos, um dos maiores nomes da música brasileira em todos os tempos e confessadamente avesso ao futebol (“não tenho paciência para assistir jogo e sempre que assisto o meu time toma gol”, despista) tenha sido o intérprete de um dos maiores hinos da história recente do futebol brasileiro. O samba “Deixa a Vida me Levar”, de Serginho Meriti e Eri do Cais, que Zeca gravou no disco homônimo, lançado em 2002, foi adotado como hino pela equipe que venceu a Copa do Mundo daquele ano. E seu intérprete, claro, nem faz ideia de como a canção foi parar ali. “Foi meu filho que avisou que os jogadores estavam cantando a música. Depois eles fizeram festa com ela”, diz

 

O sujeito que nasceu com o nome de Jessé Gomes da Silva Filho, no entanto, é craque no que faz. E costuma dar sorte. Tanto que foi convocado para participar de “Bate no Peito”, hino que deverá embalar a seleção brasileira nesta Copa do Mundo. Produzida por Papatinho, um camisa dez dos beats eletrônicos, a música também contou em sua confecção com craques como Ludmilla, João Gomes e Samuel Rosa, craques no estilo musical que os consagrou – a saber, funk/pop, piseiro e reggae misturado a sonoridades do britpop e do Clube da Esquina

 

Pagodinho recebeu a reportagem da Billboard Brasil numa tarde de terça-feira em sua concentração, o Pagode do Zeca, um combinado de restaurante, boteco e casas de shows, localizado na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio de Janeiro. E, como sua maestria está mais na arte das palavras do que no controle da bola, ele se fez acompanhar de dois tetracampeões: Romário e Bebeto, dupla de ataque que deu muito samba na Copa do Mundo de 1994, nos Estados Unidos (e os supersticiosos de plantão poderão atentar para o fato de que a competição deste ano será realizada em países onde o Brasil saiu vencedor – Estados Unidos e México –, além do Canadá).

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Zeca Pagodinho (Felipe Alberto)

 

“O samba faz parte da minha vida e de muito brasileiro, principalmente carioca. Suburbano, favelado. Eu sou Jacarezinho, que as pessoas chamam de comunidade, mas para mim sempre será favela”, teoriza Romário, dando início à partida. E, claro, não perde a oportunidade de zoar com o botafoguense Zeca. “Eu adoro o Botafogo porque foi o time em que marquei mais gols”, brinca. E, sim, sobrou também para o redator dessa matéria, que é palmeirense raiz. “Você é Palmeiras? Vai me falar daquela virada do time do Vasco em cima do teu?”, “marreia”, referindo-se à decisão da Copa Mercosul de 2000, onde o time carioca venceu a equipe de São Paulo por 4 x 3 depois de estar perdendo por 3 x 0.  

Zeca, ora vejam só, foi jogador de futebol. Chegou a participar de uma peneira do Everest Atlético Clube, agremiação criada nos anos 1950 na zona norte do Rio de Janeiro. “Eu não durei nem dez segundos no campo: era lateral direito. O técnico me viu e mandou eu sair”, confessa. E Romário, por seu turno, também tentou trocar a bola pelo microfone. Em 1995, ele e o atacante Edmundo gravaram o funk “O Rap dos Bad Boys”, sobre o que menos se souber dele, melhor. “Consegue me imaginar cantando e o Zeca com a bola? Mas pode acreditar que ele se destacou mais como lateral do que eu como cantor”, brinca Romário.

 

E bem que Zeca tentou fazer pelo menos um gol. Tempos atrás, chegou até a combinar com o goleiro adversário. “Tinha um futebol que a gente fazia em Irajá, fim de ano. Falei: ‘Ó, vou dar uma caixa pro goleiro pra fazer um gol.’ Tava tudo combinado. Só que o campo de futebol de Irajá antigamente realmente era muito ruim: tinha uma poça d’água na marca do pênalti. Quando fui bater, a bola ficou na marca e eu fui deslizando até o gol. E ainda tive de pagar a caixinha do goleiro”, conta, para a risada geral da mesa.

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Romário (Felipe Alberto)

A união entre música e futebol dá samba. E dos bons. O bloco Cacique de Ramos, por exemplo, toda quarta-feira abrigava uma turma que ia jogar pelada na quadra do local. O jogo invariavelmente era seguido por um pagode. O local, para quem não sabe, viu nascer ali o Fundo de Quintal, um dos criadouros de alguns dos principais compositores do gênero – Almir Guineto, Jorge Aragão e Arlindo Cruz fizeram parte da formação  – e ainda revelou os craques Luiz Carlos da Vila (1949-2008) e Zeca. Além disso, serviu como fonte de inspiração para a turma do samba. A cantora Beth Carvalho (1946-2019), por exemplo, tirou muito de seu repertório dali e “amadrinhou” os compositores do time.

 

 “Era uma quadra onde o pessoal jogava e depois saía para comer”, diz Zeca, com autoridade de quem sabe até a origem dos instrumentos. “O tantã e o repique de mão foram criados ali. O Ubirany [um dos fundadores do Fundo de Quintal] achou um repique que estava abandonado. Meteu a mão por dentro e criou seu repique de mão. O Sereno [outro integrante do conjunto] levou um tantã, que era da macumba da irmã dele, sei lá. Aí surgiu o tantã”, explica.

Em assunto onde é PhD, Zeca se anima e continua dando uma aula de tática de samba e de como surgiram alguns dos principais elementos de sua modernização. “O Mussum foi viajar para o exterior, achou um banjo e trouxe para eles.” E, sim, o Mussum do qual Zeca está falando é aquele de Os Trapalhões. E o instrumento foi parar nas mãos de Almir Guineto (1946-2017), que o adaptou com o braço e a afinação de cavaquinho.  “Você foi lá?”, pergunta para Romário. “Sim, todo mundo ia”, responde o ex-centroavante da seleção.

O bom samba e o futebol bem jogado são praticamente uma ciência: o passe certo, o verso bem construído, a jogada e o refrão de efeito. Estão faltando craques nessas duas categorias (e Zeca chegou a reclamar do excesso de versos que rimam “paixão” com “coração”) no pagode atual? “Falta paixão, as pessoas não se apaixonam mais”, lamenta. “Cara, na verdade assim, vou me meter um pouco nessa área porque sou fã de música. Hoje quem tem mais seguidores é bom. Não precisa cantar bem, ter qualidade, p**** nenhuma”, rompe Romário, lembrando os tempos em que se materializava na área adversária. “Se tu tiver o Instagram com um monte de seguidor lá, não sei quanto, p****, tu é o bravo”, esbraveja. 

Bebeto chega para a conversa. E quando um craque entra no jogo, é de bom tom passar a bola para ele. “Eu adoro o samba, ainda mais feito pelo Zeca. Pena que como sambista eu fui um grande jogador”, diz, devolvendo a bola para o filho mais famoso de Xerém, bairro da zona norte do Rio. “Muitos sucessos meus vieram da Bahia. Canções de Nelson Rufino, de Roque Ferreira”, comenta Zeca, citando os autores de “Verdade” (aquela de “Descobri que te amo demais”) e de “Samba pras Moças” e “Água da Minha Sede”, que estão entre seus principais hinos de sua trajetória.

 

Zeca então lembra de suas origens no universo do samba, que incluem até passagem como apontador de jogo do bicho. “Eu vivia em Del Castilho. Quando acabava o jogo, o bicheiro ia para o botequim, a turma do bar fazia um partido alto, mandando verso um para o outro. Eu achava aquilo um barato. Depois meu irmão me levou para a Portela, para o Cacique de Ramos”, diz, com tom saudosista. 

Samba e futebol, especialmente aqueles que enchem nossos olhos, pedem um parceiro de fé. No caso de Zeca, ele foi, entre muitos outros, o cantor e compositor Arlindo Cruz (1958-2025). “Às vezes, ele fazia uma música e eu botava letra. Às vezes, a gente fazia tudo junto. Quando a gente se encontrava, tinha que sair samba. A última vez que eu me encontrei, fui na casa dele, nós fizemos cinco sambas numa noite só”, comenta o sambista. No caso de Romário, o melhor companheiro de ataque que ele teve foi Bebeto, parceiro da Copa de 1994. “Foi o meu melhor passador. E Ronaldo [Fenômeno], apesar de a gente ter jogado pouco tempo juntos”, diz Romário. Bebeto se aproxima mais da roda para elogiar a parceria. “A gente nem precisava se olhar. Quando eu dominava a bola de costas, já sabia 100% onde ele estava e vice-versa. Por isso que a nossa dupla deu certo: era uma coisa de Deus”, emociona-se. “Tem um lance na Copa do Mundo que dou o passe do gol para ele e digo eu te amo. E aquela frase aqui, aquele eu te amo, não foi só naquele momento. Eu te amo mesmo”, conclui.

 

Zeca então lembra da célebre comemoração de Bebeto contra a Holanda, quando “embalou” o filho Mateus, que tinha acabado de nascer, nos braços. Bebeto diz: “Foi o único filho que eu não vi nascer, né? Os outros dois eu botei logo nos meus braços. Foi como se tivesse colocando ele nos braços, né? E aí, quando vejo está Romário e Mazinho fazendo a mesma coisa. Não combinamos nada disso e acabou sendo eternizado. Onde eu vou, todo mundo lembra disso.”

 

Romário se entende com Bebeto. Mas já recebeu bola torta? “Na maioria das vezes, sim. Eu é que tinha de arrumar.” No caso de Zeca, no entanto, essa “bola torta” era a pegadinha das rodas de partido-alto. Nesse universo, um dos partideiros faz o verso e joga um desafio para o sujeito que vem depois dele. “Uma vez, no Cacique de Ramos, tinha um partido-alto que falava: ‘Vou dar um pagode lá em casa, não sei o quê’”, diz Zeca. “Aí, no final, ele dizia: ‘Cada um que fala lá em casa tem que levar alguém que seja um personagem do mundo do samba’. Aí eu tava ali novinho ainda, aí sujeito mandou: ‘E você, Pagodinho?’ Eu disse: ‘Como eu sou convidado, convidado me convém, já que eu vou convidado, eu não vou levar ninguém’. Cara, aquilo explodiu.”

O samba é uma fonte de assuntos inesgotáveis. Mas, para um gênero tão rico, ele abordou o futebol com muita timidez. “Não é uma ligação tão forte, mas saíram algumas pérolas dessa união”, diz o jornalista e pesquisador Júlio César de Barros, que cita “Samba Rubro-Negro” (O Mais Querido)”, de Wilson Batista, Jorge de Castro e Alvarez, que se tornou um grande sucesso na voz de João Nogueira (1941-2000). João atualizou a letra, que falava “O mais querido tem Dida, Henrique e Pavão, eu já rezei pra São Jorge pro Mengo ser campeão”. Trocou os velhos craques por Zico, Adílio e Adão.

O mesmo Wilson Batista (1913-1968), aliás, é o criador da canção ufanista “O Bonde de São Januário”, que trazia os versos “o bonde de São Januário/ Leva mais um operário/ Sou eu que vou trabalhar”. O samba foi forjado durante a ditadura de Getúlio Vargas (1882-1954), cujo departamento de propaganda sugeriu aos compositores daquele período criassem músicas falando bem do país. A torcida do Flamengo, gaiata que só, passou a cantar o samba com os versos “O bonde de São Januário/ Leva mais um otário/ Para ver o Vasco apanhar”. 

Coisas da criatividade do futebol.

O casamento de samba e futebol criou ainda lindas canções de reflexão e protesto. João Nogueira, pai do também cantor Diogo Nogueira, é autor de “Espelho”, canção autobiográfica, onde fala do sonho interrompido de se tornar boleiro. “E me abracei na bola e pensei ser um dia/ Um craque da pelota ao me tornar rapaz/ Um dia chutei mal e machuquei o dedo/ E sem ter mais o velho pra tirar o medo/ Foi mais uma vontade que ficou pra trás”, diz a letra. Gonzaguinha (1945-1991), por sua vez, usou a paixão nacional para denunciar o clima opressor da ditadura militar em “Geraldinos e Arquibaldos”, de 1975. “No campo do adversário/É bom jogar com muita calma/ Procurando pela brecha/ Pra poder ganhar/ Nego, é cama de gato/ Olha a garra dele/ É cama de gato/ Melhor se cuidar”, diz a letra que usa de metáforas (geraldinos e arquibaldos fazem referência a quem tem dinheiro para frequentar a arquibancada e o público sem tanta renda que se acomoda na geral do estádio do Maracanã) para falar do clima de repressão que existia no país.

Na linha da exaltação, Neguinho da Beija-Flor fez “É Campeão”, que foi adotado como hino de torcida. “Domingo, eu vou ao Maracanã/ Pra torcer pro time que sou fã/Vou levar foguetes e bandeira/ Não vai ser de brincadeira, ele vai ser campeão”, apregoam os versos. Jorge Ben Jor, que também sonhou em se tornar jogador de futebol, criou temas para praticamente todas as posições de uma equipe – “Zagueiro”, “Umbabarauma (Ponta de Lança Africano)”, “O Nome do Rei é Pelé”, “Goleiro (Eu Vou lhe Avisar)”, “Camisa 10 da Gávea”, dedicada a Zico… Bebeto (não o jogador, que fique bem claro), outro craque do samba rock, homenageou o título mundial do clube da Gávea, conquistado no Japão em 1981, com “Arigatô Flamengo”, onde apregoa: “Tini Shan Shin Gorô Curi Tirá Tigu Nisam/ O Flamengo derrotou/ Mais uma vez lá na Terra do Sol Nascente/ Esse time inteligente/ Fez o povo ser feliz”, diz o balanço.

Mas, depois dessa parada técnica, vamos dar andamento ao jogo. A seleção do Brasil tem chances de sair campeã? “Faz 24 anos que a gente não conquista esse título, né? Mas, é assim, a qualquer momento nós podemos despertar. Quando a gente desperta assim…”, diz Bebeto, mandando um passe açucarado para o complemento de Romário. “Eu tenho um programa de entrevistas e conversei com vários ex-campeões. Todos eles dizem que o Brasil não está no seu grande momento, mas a camisa tem um significado muito grande. Não é à toa que a gente é penta. Então, há um respeito grande em relação ao nosso time. Vai perguntar se o time é bom? Não, não é bom. Mas, pela camisa, passa a ser um time que tem condição de disputar”, teoriza.

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Bebeto (Felipe Alberto)

Romário foi um dos defensores da convocação de Neymar (nota do redator, a entrevista foi feita antes da chamada geral feita pelo técnico Carlo Ancelotti). “Cara, é o seguinte: o Neymar não vai estar 100% e muito menos ele vai estar tão ruim como tão falando. E para mim ainda é o grande nome do futebol brasileiro”, comenta. “É respeitado, considerado. Eu acho, pelo menos, o que eu vejo e ouço da seleção,  a galera gosta dele, quer ele lá, ele vai ser importante para o Brasil”, conclui.

Jogo de futebol, especialmente em Copa do Mundo, é a famosa carne de pescoço. Parada dura. Romário lembra então que a partida mais difícil da seleção brasileira tetracampeã foi contra os Estados Unidos, anfitriões da competição. “80% do estádio torcendo pros caras. No primeiro tempo, nosso amigo [o lateral esquerdo] Leonardo ainda acabou sendo expulso. E a bola não entrava, né? A bola não entrava. Eu chutei umas três, quatro, a bola não entrou, mas no final acabou acabou dando certo [a partida terminou em 1 x 0, gol de Bebeto com passe, claro, de Romário]. Acho que aquele jogo foi o nosso grande jogo naquela Copa.” 

Zeca, a exemplo dos atacantes, pegou uma plateia tipo seleção dos EUA? “Não, não. Inclusive a primeira vez que entrei no ATL Hall [casa de shows no Rio de Janeiro], no segundo dia eu perdi a voz. A plateia cantou o show todo para mim”, comenta. “E minha banda Moleque é um timaço.”

Zeca Pagodinho pretende “não” assistir à Copa em sua casa, na Barra da Tijuca, e em Xerém, distrito de Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, onde tem um sítio. “Depende de onde eu estiver, né? Se for em Xerém é melhor, que eu boto a televisão no quintal e faço a festa lá. Cerveja não falta. Churrasco não falta. Então fica todo mundo lá. Ganhando ou perdendo, tem festa. E o bom é isso, né?”, brinca. Caso seja em sua casa, na Barra, o cenário é diferente. “É outro esquema, não? A família, os amigos do meu filho.” Os tetracampeões não se importam com essa falta de interesse de Zeca pela sua profissão? “É o Zeca. O Zeca pode a p**** toda”, resume Romário. 

São quarenta e cinco minutos de conversa e o saldo de gols é tão positivo que não tem espaço para o segundo tempo. Agora, é torcer para que o desempenho da seleção chegue perto ao do trio.

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