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Black Pantera se diverte! Trio mineiro prepara o próximo disco, mais dançante

Banda antiracista celebra 1º audiovisual e bi no Prêmio da Música Brasileira

Chaene da Gama, Charles da Gama e Rodrigo Pancho, o Black Pantera (Marcos Hermes)

Chaene da Gama, Charles da Gama e Rodrigo Pancho, o Black Pantera (Marcos Hermes)

O show do Black Pantera nunca foi somente um show. É um ambiente para somar forças e cantar em português bem claro mensagens muito bem construídas contra o racismo e outros crimes contra os direitos humanos, amparadas em uma vigorosa mistura de hardcore, punk, nu metal e sonoridades afro-latinas, com uma pista amistosa, diversa e acolhedora. O primeiro audiovisual da banda mineira, “Resistência ao Vivo no Circo Voador”, gravado no Rio de Janeiro na véspera da Consciência Negra, lembrada em 20 de novembro, tem a missão de registrar essa energia única e levar a mais gente a voz desses caras que, merecidamente, está chegando cada vez mais longe. “Meio que fecha um ciclo, né? A gente vem de quatro álbuns de estúdio, mais alguns singles, e o ‘Resistência’ vem para encerrar essa primeira fase e agora pensar na próxima”, avalia o baterista Rodrigo Pancho, em entrevista do trio no estúdio da Billboard Brasil. (N. Red.: ontem, muito tempo depois dessa conversa, a banda foi agraciada, pelo segundo ano consecutivo, com o Prêmio BTG Pacutal da Música Brasileira, na categoria Artista – Rock.)

Depois do impacto de “Perpétuo” (2024) — que ampliou o alcance da banda com faixas como a que dá nome ao disco (“Estamos sempre, sempre, voltando/Todo mundo já foi preto um dia”), a emocionante “Tradução” (“Minha mãe tem hora pra chegar/Mas não tem hora pra sair”) e “Candeia” (“É melhor deixar queimar/Cura pra racista não existe”) — o trio já prepara o próximo álbum, previsto para agosto.

“Esse disco foi muito divertido de fazer”, conta o guitarrista e vocalista Charles Gama. Pancho completa: “A gente pode falar que é um álbum mais dançante, mais vibrante. Tem muita percussão. Então, a gente pôde explorar mais esse lado.” Ele também explica por que o processo foi mais leve desta vez: “O ‘Perpétuo’ teve uma pressão muito grande, porque o disco anterior (‘Ascensão’, 2022) foi o primeiro pela Deck e foi com ele que a gente estourou. Aí sentimos uma cobrança de nos afirmarmos. Passamos muito tempo gravando longe de casa. Agora foi mais tranquilo.” A banda reforça que não se permite repetir fórmulas. “A gente se desafia, não quer fazer o mesmo álbum nunca. Nos permitimos experimentar coisas novas”, reflete Charles.

Essa busca por renovação aparece claramente na trajetória recente, como lembra Chaene da Gama: “Em ‘Ascensão’ veio ‘Padrão’, ‘Fogo nos Racistas’, e a gente pensou: ‘E agora?’”. O baixista  e vocal explica que a resposta partiu justamente da mudança: “Em ‘Perpétuo’, as músicas são totalmente diferentes.” Ele também destaca o papel do público — especialmente professores, historiadores e pesquisadores que acompanham a banda e contribuem com bibliografias, filmes e materiais — na ampliação do repertório. “A galera recebeu muito bem as mudanças. Agora a gente sabe que o lance é a mensagem que estamos tentando passar. O som já é foda. E estamos muito felizes com o resultado desse novo álbum.”

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Ao falar sobre a evolução do discurso da banda, Chaene explica que o Black Pantera também foi o espaço onde eles finalmente conseguiram entender a profundidade do que tinham vivido. “A gente vai sendo moído pelo racismo estrutural ao longo da vida inteira e muitas vezes nem percebe”, diz. Ele conta que, com o tempo, olhar para a ancestralidade, para o que foi apagado e para o que a educação nunca mostrou, deu outra camada às letras. “As músicas começaram a vir mais contundentes, com outra perspectiva. Tem o ódio, tem a vulnerabilidade, como em ‘Tradução’, falando de mães negras, de como isso afeta a vida delas.” Para ele, a banda virou uma espécie de formação contínua: “O Black Pantera tem sido nossa faculdade, nossa universidade, nosso lato sensu, mesmo sem ninguém ter diploma. Com o tempo, dá pra ver as letras melhorando, e a forma de tocar também.”

 

A dinâmica criativa, a banda descreve como intensa, colaborativa e, muitas vezes, caótica. Chaene e Charles dividem as letras, enquanto Pancho estrutura a parte rítmica. Chaene detalha: “Um amigo descreveu assim: a malandragem da letra do Charles e a sabedoria da letra do Chaene. As duas perfeitas. Eu escrevo de um jeito mais poético, mais profundo. O Charles é mais escrachado. E dá certo”. Os temas podem surgir de livros, filmes ou situações cotidianas.

Muitas ideias surgem em jams, passagens de som ou ensaios, mas outras aparecem de forma abrupta, como “Fodeu”, escrita em uma única madrugada, às vésperas da gravação. “A gente tinha o instrumental inteiro e eu não aguentava mais pensar”, lembra Chaene. “Aí eu sentei e escrevi tudo de uma vez”, emenda Charles.

Show pra vender roupa

A entrevista também revela uma banda madura, mas ainda lidando com a realidade dura de viver de música no Brasil. Eles são gratos por conseguirem se sustentar com o Black Pantera, mas não romantizam a situação. “A gente é pobre. Não tem férias, se ficar dois finais de semana sem tocar, fode tudo”, diz Pancho. “A gente trabalha há 12 anos, vai tocar no Rock in Rio pela terceira vez. E ainda tem essa preocupação financeira, tem que fazer agenda. E a gente não consegue viver só dos shows. Brinco que a gente faz show pra vender roupa, porque é o merchan que paga uma boa parte do nosso sustento”, completa.

Além do Rock in Rio, o trio vai estar no Primavera Sound no segundo semestre. “Quando o Primavera chama, é bacana, porque estão enxergando o Black Pantera fora da caixinha”, observa o baterista, lembrando que a banda se apresenta muito bem em eventos de metal ou alternativos. “A gente já tocou em festival do Black Alien, tá junto com a galera do rap, já abriu pro Fresno, que é uma banda que adoramos. Então, assim, tá tudo certo pra gente, sabe?” Pra gente também. Quanto mais Black Pantera, melhor. Pra música e pro mundo.

Assista à íntegra da entrevista: