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Brasileiro do Mastodon fala de novo disco e luto: ‘Brent tinha espírito de fogo’

Pernambucano dá à Billboard Brasil sua 1ª entrevista como tecladista da banda

Mastodon

Bill Kelliher (guitarra e vocais), Brann Dailor (bateria e vocais), Troy Sanders (baixo e vocais), Nick Johnston (guitarra) e João Nogueira (teclados). (Crédito: Divulgação)

João Nogueira poderia ser um metaleiro que virou tecladista de jazz formado em Berklee, mas o gênero musical que moldou sua adolescência acabou o puxando de volta para a música pesada. Em 2011, o pernambucano viu o Mastodon ao vivo com Opeth e Ghost, em um momento que o marcou como fã. Dez anos depois, ele gravou os teclados do álbum “Hushed and Grim” e virou tecladista da turnê do grupo. Pulemos mais cinco anos, e agora ele é oficialmente o quinto membro do Mastodon – que até então era um quarteto.

O brasileiro mora no interior de Massachusetts e conversou com a Billboard Brasil por uma hora, em sua primeira entrevista após o anúncio. No papo, a empolgação da banda para lançar “Marrow Deep”, em 28 de agosto, e a sensação da volta a períodos criativos e empolgantes.Mas há um outro lado. Há 11 meses, o grupo viu Brent Hinds, seu guitarrista e vocalista por 25 anos, morrer em um acidente de moto, pouco depois de ele ser convidado a sair da banda por problemas com álcool e a dificuldade de cumprir seus compromissos. O baque ainda é sentido, mas virou um motor para João, Brann Dailor (bateria e voz), Troy Sanders (baixo e voz), Bill Kelliher (guitarra) e o novo guitarrista Nick Johnston.

Brent, um metaleiro com influências country, era um talento ímpar e um companheiro de banda cuja falta era sentida pelo Mastodon e também por João, com quem criou laços fortes, dentro e fora do palco.

Na entrevista, João passa por todos esses momentos: da saída do Brasil para estudar jazz a conhecer Sean Lennon, filho de John Lennon, e passar a integrar sua banda de rock psicodélico, chegando à jornada no Mastodon, com sua montanha-russa de emoções. Confira:

Brent Hinds (esq) e João Nogueira, do Mastodon (Reprodução/Instagram)
Brent Hinds e João Nogueira, do Mastodon (Reprodução/Instagram)

João, queria começar contando como aconteceu essa aproximação com o Mastodon, para o disco “Hushed and Grim”?

Antes de tocar com o Mastodon, eu tocava com o Claypool Lennon Delirium, que é a banda do Sean Lennon com o Les Claypool. Com o Claypool Lennon Delirium, a gente tocou algumas vezes em Atlanta, e sempre ia alguém do Mastodon assistir. Normalmente o Brann e o Bill. Numa turnê do Delirium, em 2019, tivemos um dia de folga em Salt Lake City. E o Mastodon estava tocando naquela noite. Jantamos juntos e fomos pro hotel. Em um momento, o Brann falou: “Você conhece alguém que toca teclado?”. E eu respondi: “Pô, eu conheço EU” (risos). Eles falaram: “A gente já tem teclado em algumas músicas e queremos algo mais permanente pro álbum e pra não ter trilhas de fundo ao vivo”. Eu achei bastante louvável e a gente manteve contato. Veio 2020, e a gente não sabia que o mundo ia ‘acabar’ (com a covid).

Quando eles começaram a gravar “Hushed and Grim”, o Brann falou comigo: “Tá na hora! Vou te mandar umas músicas, pode ser?”. Ele me mandou e fui criando minhas partes em casa. Levei meu tempo. Acho que foi um mês e pouco pegando uma música por dia. Eles gostaram e fui para Atlanta gravar durante mais ou menos uma semana as 15 músicas. Depois, eles me convidaram para fazer a turnê em 2021, ainda no meio da covid. F0i bem diferente. A gente vivia numa bolha, ficávamos praticamente isolados. Claro que eu e o Brent acabávamos escapando um pouco (risos). Foi assim que comecei a tocar com eles.

Você já curtia a banda ou era mais do rock progressivo, como do Claypoll Lennon Delirium?

Eu sou metaleiro (risos). Sempre toquei piano. Comecei aos seis anos e estudava música clássica. Aos 13, comecei a me interessar mais por metal e por rock clássico e tive bandas em Recife. Depois, mudei para São Paulo para estudar música, porque descobri uma faculdade que tinha convênio com a Berklee College of Music, em Boston. Então, sempre tive um pezinho no metal. Quando fui para a Berklee, não fui pensando em tocar metal; estava interessado em improvisação, jazz e blues, e me formei em Jazz Performance, no piano. Tudo isso mudou quando conheci o Sean Lennon. Pensei: “Opa, pera aí… Parece que vou ser músico de rock mesmo” (risos).

Foi aí que aconteceu aquela história de você trombar o Sean Lennon em um show e ir meio na cara de pau trocar ideia, né? 

Pois é. A verdade é que eu já admirava o trabalho dele. Eu escutava o disco “The Ghost of a Saber Tooth Tiger”, que saiu em 2014, muito antes de conhecê-lo. Era o próximo passo daquela psicodelia do pai dele e de outros artistas. Conheci o Sean em 2018, mas já era um grande fã daquele disco. E fui conversar com ele por causa disso. Ele viu que eu era brasileiro e começamos a falar de Milton Nascimento. Papo vai, papo vem, contei que sou tecladista e falei: “Se você precisar de alguém…”. E ele respondeu: “Na real, preciso de alguém agora”. A gente trocou telefone e, no nosso primeiro encontro, a gente já fez uma música. Mesmo eu não tocando mais tanto com ele, a gente continua brother de música e de conversa até hoje.

Para esse novo disco do Mastodon, sua participação foi maior do que em “Hushed and Grim”?

Sim, foi diferente porque a gente esteve muito mais envolvido. No “Hushed and Grim”, cada um estava em um lugar. A maior parte das ideias do álbum novo já estava com o Bill e o Brann. Eles vinham pensando nisso havia bastante tempo, mas receberam a gente para produzir junto. Agora pudemos fazer algo que acho que até o próprio Mastodon não fazia havia um bom tempo: nos reunirmos numa sala de ensaio para pegar esse material que já vinha sendo trabalhado e tocar. Fazer jam. Testar ideias. Com o Nick, isso acontece muito. Estou ali tocando, ele entra junto e novas ideias surgem, podendo ser incorporadas às músicas. Em outros momentos, a música está sendo gravada e o Bill chega para mim e fala: “Queria uma ideia para esse riff aqui, para deixar ele mais estranho”. E isso faz com que a contribuição seja maior do que quando você simplesmente recebe uma coisa cristalizada em casa e coloca alguma coisa por cima.

E como você está vendo esse novo disco? Como está o clima dentro da banda?

Estou muito empolgado com o disco novo, todos estamos. A gente estava na Europa agora e, volta e meia, colocava o disco para tocar só para sentir o flow do álbum. E isso vale para todo mundo: Troy, Bill, Brann, Nick… Todo mundo está muito pilhado e muito feliz com esse álbum. Ele veio em um momento complicado, mas também em um momento de muita criatividade, muita inspiração e muito companheirismo dentro da banda.

Agora você foi oficializado como integrante da banda. Como foi receber esse convite e passar a ser o quinto membro do Mastodon?

Não foi nada drástico. Foi algo bastante natural, bastante orgânico. Quando comecei a tocar com eles, foi a convite do Brann e do Troy. Mas, desde os primeiros ensaios, fiquei muito amigo do Brent e do Bill. O Brent várias vezes demonstrava esse desejo. Ele falava: “Pô, você vai estar com a gente”. Então foi um passo muito natural. Consegui me adaptar bem ao catálogo antigo deles, de maneira que, quando vou tocar, consigo dar suporte a tudo isso, mesmo em músicas que originalmente não tinham teclado. E agora a banda também pode explorar um território novo com esse novo elemento. O estilo do Mastodon é algo que eu absorvi. Absorvi na minha linguagem.

O novo disco também tem participações muito especiais, como Josh Homme (Queens of the Stone Age) e Geezer Butler (ex-Black Sabbath). Como foi dividir esse trabalho com essa galera?

Cara, quando soube que o Geezer topou participar, fiquei dando cambalhota. Eu lembro de ser adolescente, estar com meu baixo no quarto e ficar tentando tirar aquele solo de “N.I.B.”. O Black Sabbath é a minha banda de metal preferida. E a gente ainda teve a oportunidade de tocar no Back to the Beginning [despedida da banda, em julho de 2025], que foi um dia realmente mágico na vida de todos nós. E ele toca justamente na música que é uma das minhas preferidas.

O Brent morreu num acidente de moto em Atlanta em agosto de 2025, e foi um baque para todos. Vocês pareciam ser muito amigos. Como era essa convivência de vocês?

Eu tenho uma relação muito boa com todos. Mas aconteceu uma coisa muito natural com o Brent. Desde o primeiro ensaio, a gente se deu muito bem e ficou muito próximo durante as turnês. Já na primeira teve um dia de folga no Dia de Ação de Graças e ele me convidou para passar o feriado com ele e a família. Depois, quando eu ia para Atlanta, ficava hospedado na casa dele. Ele falava: “Como assim você está em Atlanta e não vai ficar comigo?”. A gente tinha a localização compartilhada um com o outro para saber onde cada um estava.

O Brent era um espírito de fogo. Era um espírito dionisíaco. Era capaz de grandes maluquices, mas também era capaz de uma grande bondade. Às vezes eu escuto relatos de pessoas famosas dizendo que não tiveram uma boa experiência com ele. É engraçado, porque eu já vi o Brent ser um pouco adstringente com pessoas mais famosas. Mas, se ele visse um mendigo dormindo na rua, era o tipo de cara que deixaria uma nota de 100 dólares embaixo dele e iria embora. Ele tinha um jeito muito próprio de navegar pelo mundo. Talvez não fosse o jeito mais suave. Mas eu nunca deixei de admirá-lo. Quando tudo aconteceu [a saída da banda], eu desejei o melhor para ele. Inclusive eu gravei o disco de country dele. Também fiz turnê tocando as músicas solo. As músicas de country que ele escreveu são belíssimas. Não sei se elas vão ver a luz do dia algum dia. Eu gostaria que sim. Mas isso fica a critério do espólio dele.

No documentário da banda, fala-se bastante sobre os problemas do Brent com álcool. Você acha que isso foi o principal fator para a deterioração da relação?

Eu diria que foi uma série de fatores. Claro que o álcool é um fator que desestabiliza qualquer um. É uma doença que precisa ser tratada. Mas talvez também exista uma questão do próprio ambiente do rock. As pessoas ao redor de alguém que é um ícone tendem a dizer mais “sim” para certos comportamentos. Acho que a banda era uma boa fonte de informação para o Brent. Eles tentavam fazer com que ele viesse para o estúdio, conversavam sobre ele se ajudar e tudo mais. Mas acho que os estímulos ao redor muitas vezes eram: “Sim, sim, sim. Continue fazendo o que você está fazendo”. Uma pessoa como o Brent, que tinha um comportamento destrutivo coexistindo com um talento muito grande, muitas vezes faz com que, aos olhos do público, uma coisa seja confundida com a outra. É fácil confundir a verdade que um artista expressa com o dano que ele causa a ele mesmo.

Num ambiente de alta intensidade, com música, som alto e muitas emoções, é fácil se perder. E ele resistiu durante muito tempo. Ele costumava dizer para mim: “Você não pode matar um estúpido”. E eu respondia: “Mas eu não acho que você seja estúpido. Então se cuida”.

No documentário, o Troy diz que imaginava que, dali a um tempo, eles estariam abraçados de novo. Como foi para você receber a notícia da morte dele?

Recebi a notícia quando voltei de Madri para o Alasca, onde tínhamos um show. Cheguei ao hotel, fui ao bar pedir uma bebida e recebi uma mensagem do Brann para encontrá-los no bar. Achei estranho. Fui pegar uma cerveja e o Brann e o Troy chegaram disseram: “A gente precisa contar uma coisa.” Perguntei: “O quê?”. Eles responderam: “O Brent…”. Na mesma hora eu disse: “Ele faleceu?”. Eles responderam: “Sim. Foi um acidente de moto”. O pessoal foi indo embora e acabamos ficando eu e o Brann tomando uma, bastante emocionados. Nós dois amávamos o Brent. Eles conviveram com ele por 25 anos. Eu fiz parte de cinco anos da vida dele. Eles tiveram cinco vezes mais tempo ao lado dele do que eu, mas foi tempo suficiente para amá-lo. Pegou todo mundo de surpresa.

Até hoje me pego pensando nele. Às vezes abro o celular e aparece alguma lembrança com ele. Ou fico esperando receber uma mensagem dele. Ele sempre brincava: “Vou chamar a polícia para ir atrás de você. Os cães farejadores já estão aqui.” Foi algo que pegou todos nós. E, para mim, que estava meio no meio desse divórcio, mantendo relação com todos, foi algo realmente estranho.  A morte de um amigo próximo, como o Brent, tem uma especificidade diferente. Ela quase se denuncia como um absurdo.

Você acha que esse disco também acaba sendo uma homenagem ao Brent?

É impossível que não seja. É impossível que ele não esteja nesse disco. Até se ele estivesse ausente, essa ausência teria o formato dele. Mas, para todos nós, o Brent não foi uma ausência. A ausência dele era justamente o que provocava problemas. A presença dele sempre vai estar com a gente. Nas linhas que ele escreveu. Nos riffs que escreveu. Então essa questão da morte marcou esse disco. Não só pela morte do Brent. Eu, pessoalmente, também perdi minha filhinha ainda no ventre durante a gravação. Isso também está presente no disco. Inclusive, o solo de “Snakes for Dinner” não era algo que eu planejava que fosse ficar. Gravei aquele solo justamente no dia em que isso aconteceu. Nem esperava que ele entrasse no disco. Porque ele tem uma coisa quase infantil, e normalmente meus solos tendem a ser mais dark, mais angulares. Aquele saiu quase como uma menininha dando piruetas. Então todas essas coisas acabam marcando o disco. Mesmo quando é pela ausência, é uma ausência com o formato delas.

O Brasil tem aparecido cada vez mais em bandas internacionais. Tem o Eloy Casagrande no Slipknot, agora teve o Luigi Paraventi no Gojira. Você acha que os brasileiros são vistos com um carinho especial?

Cara, a gente é um povo que tem fama de ser gente boa. Mas, mais do que isso, acho que a gente também tem uma certa sede. Você vê o Eloy tocando com o Slipknot, ele toca que nem um maníaco. Dá para ver que ele está muito amarrado de estar ali. O Luigi é a mesma coisaExiste esse lance de a gente ser percebido como um povo de bem e criativo, principalmente do ponto de vista da improvisação, de ter ideias que talvez não sejam tão corriqueiras. A gente sempre traz um elemento de frescor para a música e para os projetos. Então dá para colocar isso como uma característica em comum: essa empolgação, essa verdadeira alegria de estar fazendo música. Porque isso não é algo trivial para nenhum de nós. Eu considero um verdadeiro privilégio poder tocar. Tem noite em que estou ali no palco, viro para o lado e está o Troy batendo cabeça. Penso: “Pô, que alegria.” Quando o Brent chegava com aquela cara de maníaco dele, tocando um solo na minha frente, eu pensava: “Porra, meu irmão, é isso aí!”

Para terminar: você já está enchendo os caras para o Mastodon voltar logo ao Brasil? (risos)

Espero que nesse novo ciclo do álbum a gente volte sim. Obviamente não depende só da gente. É sempre uma alegria tocar no Brasil. Assim como o brasileiro coloca muito gás nas bandas, o público brasileiro também coloca muito gás nos shows das bandas.

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