‘Conheci Neverland e vivi sonho de ver mundo como Michael Jackson’
Aconteceu Comigo: Um dos principais intérpretes do cantor relata visita a LA

Rodrigo Teaser conheceu os canteiros de Neverland inspirados na Disney (Arquivo Pessoal)
Para qualquer pessoa, entrar na casa de alguém como Michael Jackson seria especial. Que dirá para mim, que o admiro desde os 5 anos. Desde que me entendo por gente, MJ me encanta e me influencia. Sua música, sua dança e os mistérios em torno de sua existência. Tanto que me tornei artista por conta disso. Costumo dizer que não sou um artista que descobriu que podia imitar Michael Jackson; eu sou um fã que foi imitar o ídolo e descobriu que podia ser um artista. A vida toda, quando me perguntavam que lugar eu queria conhecer, falava: “Neverland”. Quando ele partiu, entendi que não era mais possível.
Na minha primeira viagem aos EUA, em 2018, estava tudo certo para visitar locais relacionados ao Michael, desde o nascimento, casa, estúdio etc. Tudo do lado de fora, claro, somente as portas. Um ano antes, eu conheci Mark Lucas, diretor de TV que veio ao Brasil porque queria conversar sobre um possível documentário sobre meu tributo. Quando ele soube da viagem, disse que tínhamos que me colocar em Neverland. A única chance era conhecer alguém da Colony Capital, então dona do rancho. Por muita sorte, Mark havia feito trabalhos com eles anos antes e mandou um resumo da minha história para eles. No dia 10 de março, um sábado, recebi uma mensagem que dizia: “Segunda-feira entraremos em Neverland”. A autorização marcava tudo para as 8h da manhã e com duas horas para conhecer a propriedade. Eu não conseguia acreditar. O medo de algo mudar e dar errado era tanto que lembro de não comemorar.
Segunda-feira, bem cedo, saímos de Los Angeles para Los Olivos. Duas horas e meia de viagem. Chegando lá, abriram os portões e nos pediram para esperar o responsável por Neverland, um senhor chamado Jayme. Curiosamente, foi dito que poderíamos registrar tudo em vídeo e foto. Seguimos Jayme propriedade adentro por alguns bons metros. Naquela hora, eu senti um misto de sentimentos: alegria por estar lá, mas tristeza por Michael não estar mais ali. Assim que Jayme disse que poderíamos começar, perguntei se eu poderia usar uma camisa igual à do MJ ou se aquilo o ofenderia. Ele sorriu e pediu para eu me vestir. Na frente da casa principal, ele mostrou a casa de hóspedes, uma construção independente com quatro quartos, onde funcionários estavam alojados, e um lago enorme, onde Michael andava de jet ski.
Ao mostrar os canteiros de flores, explicou que todos eram imitações dos canteiros da Disney, tanto que, na época de total funcionamento, todo chefe de jardinagem visitava a Disney para ter uma “aula”. Antes de entrarmos na casa, Jayme me apresentou o primeiro sinal de tristeza daquele passeio. Ele disse que muitas vezes via o Sr. Jackson sair na porta principal e ficar parado olhando para o nada. Ele me olhou nos olhos e disse que meu olhar era como o do Sr. Jackson. Jayme me explicou que era funcionário do Sr. Bone, proprietário anterior ao Michael, e ficou encarregado de mostrar a propriedade ao Michael quando ele a comprou. Desde então, tornou-se funcionário do MJ e cuidador de Neverland.

Ao entrar, reconheci o hall. Estava vazio. A casa já não tinha mais os bens particulares do Michael. Andamos por uma das bibliotecas e fomos para o quarto principal. Era estranho imaginar como seria na época dele. Ali, eu perguntei onde ficava a cama e pedi para deitar no chão. Queria fechar os olhos e, ao abrir, visualizar o mesmo que ele quando acordava. Jayme riu e disse que tudo bem. Conheci o banheiro, o closet e, nesse momento, perguntei se era possível abrir o quarto do pânico. Ele me perguntou como eu sabia disso. Coisa de fã que já leu muito a respeito. Esse tipo de quarto é meio comum por lá e não comporta nem uma cama de solteiro. Na época do MJ, tinha uma poltrona, um frigobar, um cofre, monitores e uma linha de telefone exclusiva. Dali fomos a uma sala conhecida no mundo todo como cenário da entrevista que Michael deu para Oprah Winfrey em 1993. Então subimos para o segundo andar, onde eu conheci os quartos dos filhos, uma sala de recreação com gavetas que marcavam giz de cera, lápis, papéis para colagem, papéis para desenho… Jayme me contou que aquela sala era decorada com estátuas de super-heróis em tamanho natural. Nos quartos dos mais velhos, havia um acesso para uma sala no sótão que havia sido transformado em sala de aula.
Ao descer por um acesso diferente daquele pelo qual havíamos subido, chegamos à cozinha, onde nos ofereceram uma tábua de frios. Antes de seguir, pedi ao Jayme para lavar a louça. Na minha cabeça, poucas pessoas tinham tido essa experiência em Neverland. Jayme fez questão de me mostrar a lavanderia. Confesso que nem queria ver, até ele me falar que Michael fazia questão de lavar roupas do chimpanzé e de seus filhos quando eram bebês. Eu não imaginava isso. Saindo da cozinha, a gente se deparou com um sino enorme, que Michael tocava antes do jantar, anunciando que tudo estava pronto. Subimos num carro que parecia um buggy e fomos para a estação principal de trem, uma réplica da estação da Disney, que tem o nome Katherine, em homenagem à sua mãe. Ali, por um tempo, havia uma sala chamada Sala do Donut, onde uma máquina fazia donuts, centenas numa tarde.
De lá fomos para onde ficava o parque. Quando eu visitei, não tinha mais nenhum brinquedo. Comecei a pensar que tudo aquilo pudesse ser um sonho. Eu cheguei a falar com minha esposa que aquilo poderia não ser real, mas que seria estranho eu viver um sonho tendo a consciência de que era um sonho. Logo em seguida, havia o zoológico, que não tinha mais nenhum animal da época do Michael. Alguns zoológicos ou cuidadores usavam aquilo como local de apoio. Vimos onde ficavam guardados os trens e, na volta, paramos no cinema e na sala de dança, que eu já havia visto em vídeos e fotos. Jayme contou sobre a rotina de ensaio do Michael em seu auge, como ele virava madrugada adentro dançando. E foi ali que Jayme puxou o celular e disse: “Você pode dançar para mim um pouco?”. Dancei meio tímido. Parte de mim queria dançar, mas outra parte queria manter aquele lugar intocado. Fomos para a sala de cinema com 50 lugares e ele me pediu para sentar na cadeira do Michael, uma cadeira que tinha acesso a um painel enorme de botões. Lá, sem me avisar, ele apagou as luzes e passou uma performance de “Man in the Mirror”. Ele não me perguntou, não perguntu a ninguém, mas tocou minha canção favorita.
Pude ver a tirolesa, o barco pirata e, no caminho de volta para a casa principal, paramos numa outra construção, dessa vez de três andares. Era ali que, quando MJ era vivo, havia quase 100 máquinas de fliperama e arcades. Jayme contou histórias de MJ com Marlon Brando, de como os dois se divertiam nos arcades e fliperamas. Andamos mais um pouco e, ao passar pelas quadras, Jayme falou que era comum, no auge da carreira, grandes nomes do basquete passarem por lá.
Antes de voltar para a casa, paramos numa árvore muito grande, bem antiga. Michael já havia falado dela em entrevistas, a Giving Tree. No alto dela, havia uma estrutura como uma cama para uma pessoa. Lá, Michael ficava horas compondo. Foi aí que Jayme teve a ideia de me levar a um lugar ao qual nem mesmo os convidados do meu ídolo tinham acesso. Era o ponto mais alto da propriedade, um gazebo que Michael constumava chamar de Gazebo do Céu. Com um sistema de som especial, muitas vezes o astro colocava o som bem alto e ficava dançando sozinho. Ficava do alto vendo as pessoas usarem Neverland sem saber que ele estava lá. Ao caminhar para a porta principal, me dei conta de que haviam se passado quatro horas e meia, muito mais do que a autorização permitia.
Jayme me contou que em seus últimos aniversários, assim como nos de seus filhos, não havia visitantes nem famosos. Algumas vezes, eram os filhos de funcionários que faziam companhia aos seus filhos. Contou que, em um dos últimos aniversários que passou ali, Michael não teria nenhuma festa, então, os próprios funcionários organizaram uma surpresa com mariachis. Segundo ele, Michael chorou e agradeceu muito. Jayme contou curiosidades, como o quanto Michael deixava a casa quente por dentro, não importando a época do ano. E que, nos últimos tempos, ele dizia coisas como: “É, Jayme, não temos mais tantas visitas”.
Naquele dia, eu entendi que aquele lugar não era só uma casa, não era só um parque. Era algo feito para proteger o que restou de humano em MJ, que se mudou de lá em 2005 e não voltou mais. Durante a pandemia, a Colony Capital vendeu a propriedade para um investidor chamado Ron Burkle. No meio do ano passado, Jayme finalmente se aposentou e, até hoje, nos falamos. Ele foi nos assistir no show de Los Angeles. Até hoje eu vejo as recordações de Neverland e custo a acreditar que realizei isso. Se eu me concentrar, consigo voltar a Neverland e sentir o cheiro, o vento e as sensações que senti naquele dia.
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