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Ney Matogrosso faz 85 anos: veja curiosidades sobre a lenda da música brasileira

Como o artista reinventou a música, a performance e a liberdade no palco

Ney Matogrosso canta no Tiny Desk Brasil

Ney Matogrosso canta no Tiny Desk Brasil (Fernanda Carvalho/Divulgação)

No dia 1º de agosto, Ney Matogrosso completa 85 anos consolidado como um dos artistas mais influentes da música brasileira. Dono de uma carreira que atravessa mais de cinco décadas, o cantor desafiou convenções estéticas, reinventou a performance nos palcos e transformou sua voz, seu corpo e sua presença cênica em marcas registradas da cultura nacional.

Do impacto provocado à frente dos Secos & Molhados à trajetória solo marcada pela experimentação, Ney segue inspirando novas gerações e reafirmando seu lugar como um dos grandes intérpretes da história do país.

Para celebrar a data, a Billboard Brasil reuniu curiosidades sobre sua trajetória, da juventude na Aeronáutica aos bastidores de discos históricos, passando por episódios pouco conhecidos que ajudam a explicar por que Ney continua sendo uma das figuras mais fascinantes da cultura brasileira.

Ney Matogrosso (@pridiabr)
Ney Matogrosso (Divulgação/@pridiabr)

O militar que virou símbolo de liberdade

Antes de se tornar um dos artistas mais ousados da música brasileira, Ney Matogrosso teve uma juventude marcada pela disciplina militar. Filho do militar Antônio Mattogrosso Pereira, passou a infância mudando de cidade por causa do trabalho do pai e, aos dezoito anos, ingressou na Aeronáutica.

A carreira militar durou pouco. Em Brasília, trabalhou em um laboratório de anatomia patológica, estudou teatro, participou de festivais universitários e chegou a integrar um quarteto vocal. Em 1966, mudou-se para o Rio de Janeiro decidido a seguir carreira artística. Para se sustentar, confeccionava e vendia peças de artesanato e figurinos, além de abraçar o estilo de vida hippie.

O nome artístico veio da família

Embora tenha nascido Ney de Souza Pereira, o sobrenome artístico surgiu da própria família. Seu pai carregava “Mattogrosso” no nome, uma referência ao então estado de Mato Grosso, antes da criação de Mato Grosso do Sul.

Em sua autobiografia “Vira-Lata de Raça: Memórias”, o cantor explica que adotou “Matogrosso” em 1971 como uma forma simbólica de recuperar um sobrenome que não havia herdado oficialmente do pai e reafirmar sua ligação com a região onde nasceu, Bela Vista, na fronteira com o Paraguai.

A amiga que mudou sua história

A entrada de Ney nos Secos & Molhados aconteceu graças à cantora e compositora Luhli. Foi ela quem apresentou o artista a João Ricardo e Gérson Conrad, que procuravam uma voz masculina aguda para formar o grupo.

A parceria mudou a história da música brasileira. Anos depois, Luhli também assinaria outro sucesso do cantor: “Bandoleiro”, composta em parceria com Lucinha.

Ney criou a identidade visual dos Secos & Molhados

Muito antes de a maquiagem se tornar marca registrada da banda, foi Ney quem idealizou grande parte da identidade visual dos Secos & Molhados.

As pinturas no rosto, os figurinos andróginos e a teatralidade das apresentações nasceram de suas referências em artes plásticas, teatro e dança. A estética transformou o grupo em um fenômeno visual e ajudou a introduzir no Brasil elementos do glam rock e da performance teatral no pop.

O sucesso chegou depois dos 30 anos

Diferentemente de muitos artistas que alcançam fama ainda jovens, Ney estreou nacionalmente aos 32 anos como vocalista dos Secos & Molhados.

O disco de estreia do grupo, lançado em 1973, vendeu mais de um milhão de cópias e transformou a banda em um fenômeno. Clássicos como “Rosa de Hiroshima”, “Sangue Latino” e “O Vira” ajudaram a redefinir a música brasileira da época.

O corpo virou instrumento artístico

A maquiagem, os figurinos e a maneira de ocupar o palco fizeram de Ney um dos artistas mais revolucionários da cultura brasileira.

Ainda na década de 1970, ele transformou o corpo em parte essencial da performance, combinando dança, sensualidade, teatro e canto. Sua imagem ajudou a romper padrões sobre masculinidade e influenciou diversas gerações de artistas.

Ney Matogrosso não quis repetir fórmulas

Logo após deixar os Secos & Molhados, Ney recusou o caminho mais fácil: repetir o sucesso da banda.

Seu primeiro álbum solo, “Água do Céu – Pássaro”, lançado em 1975, apostava em uma sonoridade experimental, conectando as músicas por sons da natureza. A capa também rompia padrões, apresentando o cantor com pelos, chifres e acessórios inspirados na pré-história.

A censura acabou impulsionando um disco

Durante a ditadura militar, Ney enfrentou diversas ações da censura por causa de seus espetáculos.

Em 1978, a capa do álbum “Feitiço”, que mostrava o cantor com o peito nu, foi considerada “escandalosa”. Os discos passaram a ser vendidos dentro de sacos plásticos pretos. A polêmica despertou curiosidade do público e acabou impulsionando as vendas do álbum.

Ele quase não gravou um dos seus hits

Pouca gente sabe que “Homem com H”, um dos maiores sucessos de sua carreira, quase ficou fora de seu repertório.

Composta por Antônio Barros, a música foi inicialmente rejeitada por Ney, que não se via interpretando um forró. Após muita insistência do produtor Marcos Mazzola e do incentivo de Gonzaguinha, decidiu gravá-la. Lançada em 1981, tornou-se seu maior sucesso comercial e, décadas depois, daria nome à sua cinebiografia.

Ele ajudou a projetar o Barão Vermelho

Em 1983, Ney gravou “Pro Dia Nascer Feliz”, composição de Cazuza e Frejat, quando o Barão Vermelho ainda buscava espaço no cenário nacional.

A gravação ajudou a popularizar a música e ampliou a visibilidade da banda, que alcançaria sucesso nacional pouco depois com “Bete Balanço” e o álbum “Maior Abandonado”.

O artista enfrentou vaias no primeiro Rock in Rio

Em janeiro de 1985, Ney foi o primeiro artista a subir ao palco da história do Rock in Rio.

Parte do público formado por fãs de heavy metal recebeu a apresentação com hostilidade e chegou a lançar ovos em direção ao palco. O cantor, porém, sempre afirmou que a maior parte da plateia acompanhou o show de forma positiva.

Quando deixou a maquiagem de lado

Depois de anos associado a figurinos extravagantes, Ney surpreendeu o público em 1987 ao lançar o álbum ao vivo “Pescador de Pérolas”.

Naquele espetáculo, abandonou a maquiagem marcante, vestiu um terno e concentrou a atenção na interpretação de clássicos da música brasileira e latino-americana.

O perfeccionista por trás dos refletores

Além de dirigir muitos de seus próprios shows, Ney atua como iluminador e acompanha de perto toda a concepção visual de seus espetáculos.

Também assinou a direção de apresentações de outros artistas, como “Ideologia”, de Cazuza, “Sou Eu”, de Simone, e “Coração Inevitável”, de Ana Cañas. Em entrevistas, costuma resumir sua filosofia dizendo que deseja que “as luzes provoquem sensações nas pessoas”.

O cinema também faz parte da carreira

Embora seja conhecido principalmente como cantor, Ney também construiu uma trajetória como ator.

Participou de produções como “Sonho de Valsa”, “Depois de Tudo” e protagonizou “Luz nas Trevas”, dirigido por Helena Ignez e lançado em 2010 como continuação de “O Bandido da Luz Vermelha”, de Rogério Sganzerla.

A natureza também é uma causa dele

Fora dos palcos, Ney dedica parte de seu tempo à preservação ambiental.

O artista mantém, no estado do Rio de Janeiro, uma área de proteção voltada para a conservação dos micos-leões-dourados, espécie ameaçada de extinção.

Uma discografia de quase 40 álbuns

Em mais de cinco décadas de carreira solo, Ney lançou quase 40 álbuns, mantendo uma das discografias mais consistentes da música brasileira.

Seu repertório percorre MPB, rock, samba, bolero, música latina e experimentação sonora, sempre com interpretações que imprimem personalidade às obras de diferentes compositores. Ao longo da carreira, Ney gravou obras de Chico Buarque, Cartola, Tom Jobim, Rita Lee, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Noel Rosa, Gilberto Gil e muitos outros.

Uma nova geração descobriu Ney pelo cinema

Em 2025, sua trajetória chegou às telas com o filme “Homem com H”, dirigido por Esmir Filho e estrelado por Jesuíta Barbosa.

A produção apresentou sua história a um novo público e reacendeu o interesse por sua obra. No ano seguinte, Ney foi homenageado pela Imperatriz Leopoldinense no Carnaval do Rio de Janeiro, reforçando que sua influência ultrapassa a música e alcança também o cinema, a moda, o teatro e a cultura brasileira.

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