Letras poéticas e a ‘imperfeição’ do jazz: Bebé vai além em ‘Dissolução’
Cantora e compositora assume a produção do seu terceiro álbum

Bebé (Mariana Maria)
Aos 23 anos de idade, Bebé decidiu que produziria o seu terceiro álbum. Chamou o irmão, Felipe Salvego, e levou para o estúdio sua profunda vivência no jazz, a MPB que carrega entranhada e a diversidade de estilos de toda uma vida dedicada à música desde que se descobriu fã de divas como Billie Holiday ainda criança na escola e passou a cantar profissionalmente aos 10 anos, sentando aos 11 na cadeira de Jô Soares, que brincou que ela era uma reencarnação da cantora norte-americana.
“Dissolução” foi lançado dia 20 de maio exalando um poder que não surpreende quem acompanha há anos a carreira dessa cantora e compositora em expansão. Ela sempre vai além. Em “Salve-se”, lançado em 2024, ano em que a cantora foi apresentada pela plataforma Billboard Descobre, Bebé já tinha se aventurado na coprodução. “Ter a produção totalmente na minha mão fez toda a diferença”, conta Bebé em entrevista nos estúdios da Billboard Brasil. “A vivência dos outros discos me trouxe bagagem e confiança para entender melhor o que é meu. Meu som sempre foi muito solto, não se prende a gêneros. Então, foi muito divertida essa liberdade, fui muito feliz no processo.”
Mais do que entender o que é seu, Bebé rompeu a estrutura para conseguir dizer o que quer para o mundo que a cerca. “É o processo mais difícil, principalmente como uma mulher negra, porque a gente é meio moldada a baixar a cabeça e ouvir, aí foi uma energia de tirar isso de mim. Às vezes, até meu irmão me falava: ‘Acho que é melhor para esse lado’, daí eu dizia: ‘Não, mas eu sinto no meu coração que eu quero isso’.” A conexão com Felipe, aliás, é cerebral. Parceiros eternos, chegam a errar juntos tamanha a ligação. “Rola uma sinergia tão incrível! Ele me dava umas visões muito interessantes, porque ele é um músico muito maravilhoso. A nossa troca é realmente de DNA, sabe? Dá pra ver na composição. Quando eu fazia alguma melodia e ele vinha com a harmonia, era a peça que faltava.”

Felipe, claro, teve cadeira cativa na banda, assumindo guitarra e baixo, com algumas inserções de piano, sample e violão. Bebé alia à sua voz esplendorosa a guitarra. Ela conta que, por ter sido um dos seus primeiros instrumentos, é um símbolo importante. “Me inspiro muito no meu irmão pelo fato de ele sempre trazer a guitarra. O principal ali é me desafiar a procurar acordes diferentes. Meu sonho é ser uma musicista muito incrível.” Bebé ainda se arriscou no baixo e no sintetizador. “É um disco que eu digo que é imperfeito, mas que eu gosto dessa imperfeição.”
O que Bebé nomeia como imperfeição, o ouvido atento pode filtrar como autenticidade. Muitas das sonoridades do álbum chamam atenção pelo caráter disruptivo, de estranheza, dentro do contexto pop e delicado em que é inserido. Bebé situa: “Eu acho que a bagagem do disruptivo vem do jazz mesmo. Como eu cresci ouvindo Esperanza Spalding, Whitney Houston, Milton Nascimento… Se você vê a primeira música do Milton (“Barulho de Trem”, 1964), é a coisa mais maluca do mundo. Eu acho que vem muito da escola da improvisação, de aceitar que as coisas fluam. Por isso o nome do disco é ‘Dissolução’, eu trouxe o processo da improvisação como a minha linguagem, vou assumir porque isso aqui tem sentimento, não necessariamente vou ter que me moldar para alguma coisa. E isso faz toda diferença, porque o jazz reflete a isso, não são só os standards, os temas que estão aí nas escolas, é a vivência da improvisação que faz o jazz estar vivo assim no Brasil.”
“Eu trouxe o processo da improvisação como a minha linguagem, vou assumir porque tem sentimento. E faz toda diferença, porque o jazz reflete a isso, não são só os standards, os temas que estão aí nas escolas, a vivência da improvisação que faz o jazz estar vivo assim no Brasil”
Bebé
E não é apenas na sonoridade. As letras também trazem essa atmosfera, mostrando uma guinada lírica na caneta de Bebé. Ela conta que ‘Dissolução” acabou sendo uma epifania em relação à escrita. “Muita letra chegou de madrugada. Eu dormindo, acordo 3h da manhã com a poesia inteira na cabeça. Foi um processo muito espiritual e eu não tive medo de dizer o que a filosofia por si só estava querendo me dizer. No fim, tem muitos enigmas, muitos símbolos ali.”
‘Dissolução’ conta com muitas participações, pois Bebé acredita que faz muito mais sentido construir um disco com quem você tem um vínculo afetivo, um conforto para dizer o que sente. “Para a Tássia Reis, eu falei: ‘Escuta a música e diz se você quer me passar a sua parte rapper ou a sua parte jazzista’. A gente brincou no estúdio que ficou meio indie jazz”, conta. “Eu gosto muito das paradas eletrônicas, havia umas músicas que estavam ali guardadas que eram a cara da Tuyo. Para a Brisa Flow, eu tinha um beat que eu fiz sampleando alguns artistas do Rio de Janeiro. E a Marissol Mwabá, roqueira, gosta de indie, como eu, e me trouxe simplesmente parte do universo dela que é cantar em suaíli, a língua oficial do Congo. E teve a Ana Karina Sebastião, que tocou em ‘Compartilhando o Céu’ e ‘Se Tocar’. Eu queria muito baixo dela. E, assim, o primeiro take é o que está gravado ali, porque a mulher é demais.”
Cercada de mulheres
E se você está achando pouca mulher, é porque não viu o resto da ficha técnica: nos violões, Badi Assad, no baixo acústico, Vanessa Ferreira, na bateria, Alana Ananias e Dee Simone, conhecida por colaborações com Doechii. Bebé diz que, depois de já ter experimentado a formação roqueira de baixo, guitarra e bateria, avaliou que agora quer shows com os elementos jazzísticos da sua raiz. “Esse time de garotas superpoderosas e o meu irmão vão me ajudar a trazer pro ao vivo essas músicas de maneira que elas fluam e as pessoas escutem de um jeito diferente em cada show”, se empolga, acabando de ser confirmada para o Bananada, importante festival alternativo em Goiânia, de 18 a 23 e agosto.
Junto com o disco, em cuja capa Bebé atravessa sem olhar para trás, numa referência a livros com dissoluções no enredo, como “Alice no País das Maravilhas” e “Mágico de Oz”, foram lançados dois videoclipes. Todo o projeto “Dissolução” foi concebido graças ao ProAc (programa de incentivo à cultura do Estado de SP). Bebé comemora a existência desse tipo de iniciativa: “Se não existissem esses editais, não sei o que seria da independência do artista. Esse é o primeiro disco no qual sou dona do meu próprio fonograma.”
Bebé conta no material de divulgação do álbum que, “na alquimia, dissolver é condição para transformar, nada se reconstrói sem antes se desfazer”. Se o que ouvimos em “Dissolução” é o som da crisálida, que venha linda a borboleta para nos encantar ainda mais. Pois, já disse e repito, Bebé sempre vai além.
Assista à entrevista completa
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