
Nidia Aranha nos bastidores da produção do disco "EQUILIBRIVM", de Anitta (Arquivo pessoal/Divulgação/Instagram @nidia_aranha)
Como Nídia Aranha moldou o disco “EQUILIBRIVM” de Anitta
Nídia Aranha é a diretora criativa por trás do universo visual e conceitual de “EQUILIBRIVM”, o novo e já aclamado álbum de estúdio da cantora Anitta, lançado em abril de 2026
Ela assumiu a missão de traduzir a nova fase espiritual e estética da Poderosa.
Nídia explica que o álbum nasceu da vontade de celebrar a alma do Brasil de forma profunda e poética. “A primeira ideia que tive para EQUILIBRIVM nasceu justamente desse encontro entre o sagrado e o humano”, explica a diretora.
O resultado final equilibra ancestralidade, desejo e celebração com uma semiótica contemporânea e potente. Toda a construção estética foi pensada para subverter preconceitos estruturais e valorizar a nossa própria complexidade cultural. Nídia pontua que, diante do racismo e da intolerância, “‘EQUILIBRIVM’ também se torna uma oferenda artística”.

Da Baixada Fluminense para os palcos do mundo
Nídia Aranha nasceu em Itaguaí, na Baixada Fluminense, e atua como diretora criativa, artista visual e pesquisadora. Formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), sua trajetória une design e antropologia visual voltados para a descolonização estética. Ela venceu prêmios renomados no m-v-f- awards e no Ciclope Latino por seu trabalho com a norte-americana Erykah Badu.
A bagagem da carioca inclui a assinatura de espetáculos grandiosos no mercado fonográfico global. Ela liderou a direção criativa do aclamado show de Ludmilla no festival Coachella, além de assinar clipes de IZA e Pabllo Vittar. Essa bagagem técnica e intelectual foi determinante para estruturar a grandiosidade de “EQUILIBRIVM”.
Para Nídia, o álbum com Anitta é um manifesto necessário para quebrar a desvalorização histórica da nossa identidade. Ela defende a soberania artística do país e reforça que o mercado nacional é autossuficiente em termos de excelência. A diretora conclui que “aquilo que produzimos no Brasil, em termos de intelectualidade, construção narrativa e linguagem visual, não deve nada a ninguém”.

Leia a entrevista de Nídia Aranha à Billboard Brasil
Como você conheceu a Anitta?
Foi uma situação bem engraçada, na verdade. Eu estava dirigindo na Serra dos Órgãos para visitar minha avó quando o Henrique Martins, maquiador icônico, me mandou uma mensagem, no zapzap, dizendo: “Gata, tem uma pessoa aqui que quer muito falar com você.” Eu respondi que estava dirigindo e que me ligasse depois. E ele insistiu: “Gata, é muito importante. Para esse carro.”
Eu, sem nem imaginar o que era, falei que não dava, porque estava subindo a serra e provavelmente ia perder o sinal… e foi exatamente o que aconteceu. Quando finalmente cheguei na casa da minha avó, o Henrique me ligou por vídeo. Atendi, e de repente aparece a Anitta na tela dizendo: “Então você é a babadeira que vai fazer o meu show?”
E eu, completamente surpresa, respondi: “Bom… eu ainda não estava sabendo, mas se você está dizendo… então sim, sou eu. Prazer, patroa.” (risos)
Como surgiu o convite para trabalhar no disco “EQUILIBRIVM”?
O convite surgiu no fim do ano passado, quando castelamos o Global Citizen Festival, em Belém. Foi um show muito especial, porque construímos uma homenagem às manifestações culturais belenenses e aos criativos da região: tivemos aparelhagens desenvolvidas pelo Grande do Som, referência histórica desses altares sonoros; figurinos e props assinados por Labö Young e Samira Viana, vencedora do Rainha das Matas, coletivo de mulheres trans e travestis que desenvolvem fantasias a partir de elementos naturais; Miss Tacacá trazendo um remix à lá rock doido completamente insano para o show… e teve até Leona Vingativa puxando a narração de abertura. Foi um bafo!
Era um projeto de muito propósito, muito vivo, e acho que justamente ali nasceu uma confiança criativa entre nós. No auge de ver tudo aquilo concretizado, Anitta compartilhou comigo o desejo de criar um álbum profundamente conectado ao Brasil que a gente queria celebrar, à sua nova filosofia de vida pela qual ela vinha passando.

“EQUILIBRIVM” mergulha no candomblé e na cultura afro-brasileira. Como você trabalhou para transpor essa espiritualidade e a estética dos orixás para a identidade visual da Anitta sem cair em estereótipos?
“EQUILIBRIVM” é um mergulho na cultura do nosso país: fala dos povos originários, com quem a Anitta sempre teve uma relação através da sua aproximação diante das causas indígenas; atravessa tradições populares como o Maracatu Rural, a Folia de Reis, a Cavalhada de Pirenópolis, os cazumbas, e chega à beleza das religiões de matriz afro-brasileira, que fazem parte da fé e da vivência da própria artista.
Nesse álbum sobre a alma e a festa do Brasil, tivemos muita responsabilidade para traduzir signos com respeito, sem reducionismo. O nosso compromisso nunca foi representar a espiritualidade de forma meramente ilustrativa, mas buscar uma tradução contemporânea desses arquétipos com profundidade e poesia. Através de muito estudo e muita escuta.
Tivemos uma investigação profunda para entender e retratar cada signo com fundamento e memória.
Num país ainda tão marcado pelo racismo estrutural e pela intolerância religiosa, acredito que “EQUILIBRIVM” também se torna uma oferenda artística. Um convite para que a música e a imagem possam ajudar a romper leituras coloniais e devolver complexidade, beleza e respeito a uma fé tão rica e tão fundamental para a construção da nossa identidade brasileira.
Como foi organizado o camping de compositores do disco?
Anitta topou castelarmos as novas músicas no dia 28 de dezembro. E foi tudo muito rápido: no dia 3 de janeiro já tínhamos um time brabíssimo de produtores e compositores reunidos dentro da casa dela.
Foi um encontro pensado com muito cuidado, trazendo profissionais que admiramos imensamente. Estavam com a gente nomes como Iuri Rio Branco, que inclusive apresentou nossa querida Melly, além de Janluska, Papatinho, Carlos do Complexo, Los Brasileiros, Pepê Santos, Feijuca e muitas outras pessoas fundamentais para a construção sonora do disco.
Na composição, também fizemos questão de formar um time majoritariamente feminino: King Saints, Jenni, Elanadara, Lari, Bárbara, Carolzinha… Queríamos colocar o verbo na mão de quem entendesse a embocadura da Anitta de um lugar de vivência mais empático.
Os feats como Luedji, Liniker, Marina, Ebony, Ponto de Equilíbrio e as outras colaborações foram surgindo de forma muito orgânica, a partir das trocas e convivências. Desde o início, abrimos o projeto compartilhando nossas intenções criativas e o desejo de mergulhar nas raízes musicais brasileiras, atravessando diferentes gêneros, territórios culturais e estéticas de maneira poética. O resto é história.

Quais foram os maiores desafios deste trabalho?
Quando a Anitta me chamou para esse projeto, confesso que a primeira coisa que pensei foi: o que ainda é possível apresentar para uma artista dessa dimensão, uma figura pioneira na introdução do funk brasileiro em perspectiva global, alguém que já percorreu o mundo e atravessou muitas camadas da indústria cultural? Como fazer alguém com tanta abrangência e relevância se “superar”?
Mas foi justamente aí que entendemos onde morava o verdadeiro desafio e também a grande potência desse trabalho. Existia uma oportunidade muito única, através da plataforma poderosa que é a Anitta, de apresentar outros Brasis para o mundo e, principalmente, para o próprio Brasil, que muitas vezes não se conhece ou escolhe não se reconhecer.
Nós carregamos historicamente um complexo colonial muito profundo, uma sensação constante de desvalorização da nossa própria identidade e um certo fetiche pelo que vem de fora. Então, viver esse reconhecimento foi também romper, pessoalmente e simbolicamente, com essa lógica de subalternização cultural.
Acho que o maior desafio foi justamente fazer as pessoas compreenderem que aquilo que produzimos no Brasil, em termos de intelectualidade, construção narrativa e linguagem visual, não deve nada a ninguém. Muito pelo contrário. Somos o país que realiza o carnaval da Marquês de Sapucaí, o Festival de Parintins, as Cavalhadas de Pirenópolis, o Maracatu de Baque Solto e tantas outras manifestações de uma complexidade estética, simbólica e técnica gigantesca. Naturalmente ocupamos um lugar de protagonismo cultural, mas ainda precisamos reconhecer e enaltecer a nossa própria potência.
Por isso, todo o processo de “EQUILIBRIVM” foi conduzido com muito respeito, pesquisa e fundamento. Investigamos profundamente signos, tradições, espiritualidades e imaginários brasileiros. Cada elemento presente no projeto carrega uma metáfora viva, uma memória ancestral e uma camada de leitura que traduz arquétipos antigos em linguagens conectadas à semiótica contemporânea.
Foi uma experiência muito desafiadora, mas também profundamente emocionante, transformar essa travessia espiritual da Anitta em arte através de signos assentados na nossa brasilidade.
Como funcionou a dinâmica para organizar o trabalho? Você teve carta branca da Anitta ou foi uma constante de trocas?
O processo de construção de “EQUILIBRIVM” aconteceu de forma muito orgânica e colaborativa. O álbum foi se desenhando quase como uma gira, onde cada faixa ativa uma energia e uma camada diferente dessa travessia.
Foi também um trabalho que expandiu meu lugar de atuação para além da imagem, me permitindo participar da construção musical, algo muito especial. Sonoramente, o disco atravessa diferentes linguagens da música brasileira, passando por MPB, samba e bossa nova, enquanto dialoga com reggae, afrobeat, ritmos latinos, funk e música urbana.
Mais do que um álbum pop no sentido comercial, acreditamos que “EQUILIBRIVM” entende o “popular” como potência cultural do povo. Um projeto plural, ecumênico e profundamente brasileiro.
A dinâmica com a Anitta foi muito baseada em troca, confiança e escuta. Existia liberdade criativa, mas também uma construção coletiva muito intensa. Nunca enxerguei meu trabalho como algo distante dos artistas com quem colaboro. Sempre me interessou entender profundamente quem está do outro lado e traduzir seus desejos, inquietações e visões em linguagem artística.
E talvez essa seja uma das coisas mais bonitas do meu ofício: perceber que, através da colaboração, uma visão deixa de pertencer a um indivíduo e passa a fazer parte de um imaginário coletivo. Fico feliz em poder contribuir para a construção da imagem da cultura brasileira contemporânea. Tudo me cativa.
Qual foi a primeira ideia que você teve como pontapé inicial do todo?
A partir do Global Citizen Festival, momento em que ela compartilhou comigo o desejo de criar um álbum voltado para o Brasil, conectado a uma nova filosofia de vida, passamos a conversar mais e mais.
Fui conhecendo mais profundamente sua essência, sua trajetória, suas provações e suas vitórias. Encontrei muita poesia nessa mulher que se expressa com tanta força e carrega uma fé muito intensa, mas que, ao mesmo tempo, transborda alegria, prazer, festa e celebração para todos ao redor.
Essa dualidade me tocou profundamente e acabou se tornando um dos pilares conceituais do projeto.
A primeira ideia que tive para “EQUILIBRIVM” nasceu justamente desse encontro entre o sagrado e o humano. Nossa intenção era entender como seria possível construir uma obra onde ancestralidade, espiritualidade, desejo e celebração coexistissem sem contradição.
A partir daí, tudo começou a se desenhar: a narrativa visual, os símbolos, os encontros musicais e até a forma como pensamos cada ato do álbum. “EQUILIBRIVM” nasce dessa romaria em busca de harmonia no entre-mundo. Tenho profundo respeito e admiração pela artista e, principalmente, pelo lado humano da Anitta.