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Shania Twain revela bastidores de novo álbum ‘Little Miss Twain’

Cantora revisita infância e momentos antes da fama em disco pessoal

Shania Twain (Foto: Timothy White/Republic Records/Billboard US)

Shania Twain (Foto: Timothy White/Republic Records/Billboard US)

Antes de existir Shania Twain, existia Eilleen Regina Twain, uma menina que cresceu em Timmins, uma cidade de exploração madeireira e mineração no norte da província canadense de Ontário. E antes de se tornar a artista feminina de country mais vendida de todos os tempos, havia uma garota de oito anos, “ainda menor que seu violão”, como canta na faixa-título de seu novo álbum, viajando em um carro velho e quebrado com a mãe para fazer apresentações, enquanto sonhava com uma maneira de mudar de vida.

Em “Little Miss Twain”, seu sétimo álbum de estúdio, lançado na sexta-feira (24 de julho), a estrela do country pop leva os ouvintes de volta a uma época em que o sucesso estava longe de ser garantido e tudo parecia, ao mesmo tempo, possível e impossível. Seus pais nunca chegaram a testemunhar a fama da filha, pois morreram em um acidente de carro quando ela tinha 22 anos. Após a tragédia, Twain adiou os próprios sonhos para cuidar dos irmãos mais novos. Anos depois, foi descoberta em Nashville e alcançou o estrelato com seu segundo álbum, “The Woman in Me”, lançado em 1995.

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O álbum é repleto de detalhes vulneráveis e íntimos sobre os primeiros anos de vida de Twain que ela nunca havia compartilhado antes, por considerá-los pessoais demais.

“Como compositora voltada para o mercado, eu sempre pensei: ‘Bem, ninguém conseguiria se identificar com o que estou dizendo se eu cantasse sobre isso'”, afirma.

Mas, à medida que as músicas foram tomando forma, Twain passou a acreditar que, por mais específicos que fossem aqueles detalhes, sentimentos como desejo, amor e perda eram universais. Da mesma forma, quase todas as faixas transitam por diferentes estilos musicais, refletindo os gêneros que marcaram sua formação, como bluegrass, R&B, rock, country e até big band.

“Musicalmente, acho que muita gente vai se identificar justamente por esse amor à mistura de gêneros”, diz.

Trabalhando com um amplo grupo de compositores e artistas convidados, que inclui Tanya Tucker, Ray Parker Jr., Ronnie Wood, dos Rolling Stones, Josh Homme, dos Queens of the Stone Age, T Bone Burnett, The War and Treaty e Justin Tranter, a vencedora de cinco prêmios Grammy construiu um álbum que reflete essa diversidade de influências musicais.

Lançado pela Republic Records, o disco chega após Twain abrir os shows do amigo Harry Styles durante a histórica temporada de 12 apresentações no Estádio de Wembley, em Londres, no início deste verão europeu. Styles, no entanto, não participa do álbum.

“Eu não o convidei. Ele já me convidou tantas vezes que agora é a minha vez de fazer o convite”, brinca a cantora, aos risos.

Durante a entrevista concedida à Billboard por Zoom, diretamente da Irlanda, onde havia acabado de se apresentar no Thomond Park Stadium no início de julho, Twain falou não apenas sobre o processo de criação de “Little Miss Twain”, mas também revisitou lembranças da infância e do início de sua trajetória artística.

Billboard: O que fez você sentir que este era o momento certo para fazer um projeto como este?

Shania Twain: Algumas dessas músicas já existiam há bastante tempo. Eu nunca pensei, necessariamente, que elas acabariam em um álbum. Eram apenas canções que eu gostava de escrever enquanto refletia sobre a minha vida.

Chegou um momento em que percebi que havia um conjunto delas suficiente para formar um disco. Todas falavam do mesmo período da minha vida: a fase anterior à Shania.

Antes de ser Shania Twain, eu era apenas a Little Miss Twain, cantando versões de outras músicas em lugares remotos do Canadá. Eram histórias, lugares, emoções e experiências que ninguém conhecia. Então fez todo o sentido transformar tudo isso no tema central de um álbum.

A faixa-título é muito visceral. Você leva o ouvinte de volta à época em que tinha oito anos e viajava de carro com sua mãe para fazer apresentações.

Eu estava completamente mergulhada naquele momento. Esse era um cenário muito recorrente na minha infância. Nunca tivemos um carro novo. Todos os nossos carros precisavam ser empurrados para pegar. Aquela era a nossa vida, não foi algo que aconteceu apenas uma vez.

Fazia parte do nosso estilo de vida viver no frio e lidar com uma realidade muito mais simples e rústica. As minhas “aulas” de música e de performance eram os bares de pequenas cidades de mineração de ouro. Cada música deste álbum, de uma forma ou de outra, reflete meu estado de espírito e o ambiente em que vivi como Little Miss Twain.

Minha relação com a minha mãe foi o centro do meu desenvolvimento como uma garotinha cantora que provavelmente nunca seria descoberta naquele lugar, mas que, no fundo, ela sempre acreditou que talvez isso pudesse acontecer.

Em “Northern Town”, você descreve momentos simples do cotidiano, como ir ao Dairy Queen com seu pai, lembranças que lhe foram tiradas após a morte dos seus pais. Você sempre foi bastante reservada sobre sua infância. Teria conseguido lançar músicas assim antes?

Levei muitos anos para processar tudo isso. A morte é algo pelo qual lamentamos para sempre. Esse luto nunca acaba, mas evolui. Com o tempo, você consegue lidar melhor com diferentes aspectos da perda, e isso é saudável e muito natural.

As dificuldades e os desafios que enfrentamos quando eu era criança foram, em muitos momentos, devastadores. Sobrevivemos àquelas situações, mas depois meus pais morreram em um acidente de carro que não tinha relação alguma com tudo o que havíamos vivido. É o tipo de tragédia que pode acontecer com qualquer pessoa, a qualquer momento.

O que isso significou foi que eles nunca puderam ver esse nível extraordinário e raro de sucesso, algo que parecia tão distante da realidade sobre a qual falo neste álbum.

Quando você é cantor, sonha com Nashville, no Tennessee. Você imagina aqueles executivos sentados em volta de uma mesa de reuniões e como deve ser estar naquele lugar. E então, um dia, eu realmente cheguei lá. Aquilo virou realidade.

Mas tudo isso existia apenas na imaginação da minha mãe. Ela não conhecia esse universo. Ela apenas sabia que Tanya Tucker era um grande exemplo do que ela acreditava que eu poderia me tornar.

E agora você canta com Tanya Tucker em “Little Miss Twain”. Vocês gravaram juntas no estúdio?

Sim. Para mim, isso faz parte da história da música country. Estamos falando de Tanya Tucker.

Ela foi uma estrela ainda criança, e suas músicas faziam parte do meu repertório. Ela representava o objetivo máximo para mim. Talvez não exatamente aos meus olhos, mas certamente aos olhos da minha mãe. Ela dizia: “É isso que você precisa ser, Eilleen. Você precisa ser a próxima Tanya.”

Então, além de escrever uma música que acredito capturar perfeitamente esse sentimento, ainda tive Tanya aceitando gravá-la comigo no estúdio. Eu estava lá produzindo a voz dela e, sinceramente, até hoje custa acreditar que isso realmente aconteceu.

Você já a conhecia antes?

Eu a encontrei nos bastidores, acho que durante o Grammy. Passei por ela no corredor e disse: “Meu Deus, eu só queria conversar com você. Será que é possível?”

Na saída, acabamos nos encontrando em um beco, perto das lixeiras. Tiramos uma foto e eu contei o quanto a admirava e também o quanto minha mãe era fã dela.

Alguns anos depois, escrevi “Little Miss Twain”. Em nenhum momento planejei que ela cantaria na faixa. O álbum já estava praticamente pronto quando liguei para ela e perguntei: “Por acaso você aceitaria participar desta música?”

Mas eu não quis mostrar a canção antes. Pensei que, se ela não pudesse gravá-la, preferia que só a ouvisse depois do lançamento, para que fosse uma surpresa. O mais bonito foi que ela aceitou participar sem sequer ter escutado a música antes. Assim, pude tocá-la para ela pessoalmente. Foi um momento realmente especial.

Musicalmente, “Stranger Things”, que abre o álbum, tem o ritmo de um trem em movimento, como se você estivesse levando o ouvinte para uma grande aventura. Parece ter sido uma escolha intencional.

Você está certo. É mesmo o som de um trem em movimento, e essa sempre foi uma referência sonora para mim quando penso no norte do Canadá, porque nossas estradas eram muito ruins. Durante boa parte do ano, antes de as rodovias serem ampliadas, dependíamos dos trens para nos locomover.

As linhas férreas atravessavam o centro das nossas cidades, assim como os rios, porque eram as principais vias de transporte. O trem sempre vinha de algum lugar onde eu provavelmente nunca tinha estado e seguia para um destino ao qual talvez eu nunca fosse.

Por isso, os trens sempre tiveram um ar de mistério para mim. Quando criança, imaginava simplesmente embarcar em um deles e fugir, sem me importar para onde ele me levaria. O ritmo daquele trem em movimento tem um significado muito emocional para mim.

Há também músicas sobre os primeiros amores, como “Faded Blue Jeans”, gravada com Josh Homme, do Queens of the Stone Age. Você ainda tem aquela calça jeans?

Tenho. Essa calça faz parte da minha vida desde a adolescência. É o tipo de jeans que entrou na moda, saiu de moda e hoje todo mundo procura em lojas de roupas vintage.

Ela, inclusive, aparece no clipe de “Any Man of Mine”. “Faded Blue Jeans” é uma música muito literal e completamente verdadeira.

É a sua “Strawberry Wine”.

É verdade. É a minha versão nortista de “Strawberry Wine”. A música não nos situa exatamente em um lugar específico, mas leva todos de volta àquela época em que estávamos descobrindo os primeiros namoros e existia uma sensação de liberdade. Essa é uma das várias faixas do álbum em que faço descrições muito detalhadas.

Eja, seu filho de 24 anos, aparece como coprodutor e coautor de algumas músicas. Deve ser um momento de muito orgulho como mãe.

Ele faz muitas coisas que eu não sei fazer, e isso funciona muito bem porque ele domina toda a parte técnica, enquanto eu não entendo praticamente nada de tecnologia. Ainda estou presa à minha forma de compor com violão, voz e uma abordagem mais folk.

Já ele controla toda a produção, toca vários instrumentos e transita por muitos estilos musicais. Ele me leva para lugares onde eu provavelmente não iria sozinha, então nos complementamos muito bem. Acho que ainda vamos fazer muitos trabalhos juntos no futuro.

Como surgiu a parceria com Ronnie Wood para compor e tocar no álbum?

Foi uma situação muito curiosa. Nós dois estávamos, por acaso, no mesmo resort de praia durante a Páscoa. Fui até ele para cumprimentá-lo e nos demos muito bem desde o primeiro momento.

Eu estava trabalhando no estúdio nesse álbum e disse: “Amanhã vou estar no estúdio, se você quiser aparecer e passar um tempo por lá.”

Ele foi, tocou baixo, guitarra e nos divertimos muito. Na noite seguinte, jantamos juntos e acabamos improvisando aquilo que depois se transformou em “Take It to the River”.

O que fez você se sentir pronta para se abrir dessa forma? E o que espera que os ouvintes levem deste álbum?

O tempo realmente nos permite, como seres humanos, lidar melhor com muitas coisas. Aprendemos a não dar o tempo como garantido, a aproveitar nossa verdade e, no meu caso, a valorizar minha juventude.

Grande parte dessa fase da minha vida talvez não seja algo com que muitas pessoas consigam se identificar. Se você é um artista comercial, por exemplo, a maioria canta sobre “Margaritaville”, porque esse tipo de história é mais universal.

Desde que deixei minha cidade natal, acho que nunca conheci outra pessoa que viesse de uma cidade de mineração de ouro. Nós tínhamos ouro, florestas, alces, castores e muitos lagos. Existe muita beleza e uma cultura muito própria, mas é um lugar sobre o qual quase ninguém sabe muita coisa.

Como compositora voltada para o grande público, eu sempre pensava: “Ninguém vai conseguir se identificar com o que estou dizendo se eu cantar sobre isso.”

Mesmo assim, eu escrevia essas músicas o tempo todo, sem nenhuma intenção específica além da minha própria reflexão. Com o passar dos anos, percebi que aquilo era, de fato, um projeto e que eu poderia apresentá-lo de uma forma que despertasse a curiosidade até de quem nunca ouviu falar da Little Miss Twain.

Compartilhar essa parte da minha história me traz muita alegria. Afinal, Shania Twain nasceu daquela garotinha cantora que veio de um lugar sobre o qual quase ninguém sabe nada.

Você se preocupa que as pessoas talvez não consigam se identificar com o álbum?

Musicalmente, grande parte dele é bastante acessível porque há muita influência da soul music dos anos 1960. Também há muitos elementos sonoros do sudoeste dos Estados Unidos e o uso da guitarra barítono.

Acho que muita gente vai se identificar justamente com essa mistura de estilos, como bluegrass, o som da Motown e todas essas referências que fizeram parte da minha juventude e da forma como fui criada, ouvindo tantos gêneros diferentes. Mesmo que alguém não compreenda todas as histórias que conto nas letras, acredito que vai se conectar com a música.

Este álbum parece pedir para ser apresentado ao vivo do começo ao fim. Há planos para isso?

Eu adoraria fazer uma série de shows dedicada exclusivamente a este álbum. Para isso, seria necessário reunir um grupo muito específico de músicos, porque há elementos da Motown, metais, influências de bluegrass e vários outros estilos ao longo do disco.

Seria um cenário dos sonhos para mim. Então, sim, esse é definitivamente um plano.

 

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[Este conteúdo foi traduzido e adaptado da Billboard. Leia o texto original, em inglês, aqui].

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