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Paul McCartney detalha faixa a faixa do novo álbum ‘The Boys of Dungeon Lan’

O ex-Beatle apresentou o disco para um grupo de fãs em um estúdio em Los Angeles

Paul McCartney em show no Canada (Grosby)

Paul McCartney em show no Canada (Grosby)

Na noite de quinta-feira (16), Paul McCartney conduziu uma “Magical Mystery Tour” por seu novo álbum solo, “The Boys of Dungeon Lane”, para um grupo de 30 fãs.

Realizado no recém-inaugurado estúdio Diamond Dust, do produtor Andrew Watt, em Sherman Oaks (EUA), McCartney e Watt detalharam a criação do disco faixa a faixa antes de reproduzir cada música. Entre uma explicação e outra, um McCartney animado divertia o público com histórias sobre seus colegas de The Beatles, além de tocar algumas canções carregadas de nostalgia.

No geral, o álbum, que será lançado em 29 de maio pela Capitol Records, apresenta, em vários momentos, uma sonoridade deliciosamente “beatle-esque” — seja nas melodias, na instrumentação, nas mudanças ousadas de andamento e estilo ou, claro, nos vocais de McCartney, que alternam entre firmeza e potência e, em seguida, delicadeza e vulnerabilidade. Watt destacou que, em grande parte do projeto (com exceção das cordas e da orquestração), Paul McCartney tocou todos os instrumentos, incluindo a bateria — embora tenha contado com a valiosa participação de Ringo Starr em uma faixa: “Eu disse [ao Watt], ‘Você vai chamar o Chad [Smith]?’ E ele respondeu, ‘Por que você não tenta?’ E eu tentei!”

“Ninguém mais consegue fazer isso”, afirmou Watt sobre a habilidade multi-instrumentista de McCartney. Sempre modesto, o músico respondeu: “Algumas pessoas conseguem”, antes de fazer uma pausa, inclinar a cabeça de forma bem-humorada e acrescentar: “mas não muitas.”

Os superfãs foram transportados da Capitol Records Tower até o estúdio e, embora a presença de McCartney não tivesse sido confirmada, ao entrarem na pequena sala (junto com três jornalistas) e se depararem com duas cadeiras de veludo bordô, três violões acústicos alinhados atrás delas e dois grandes conjuntos de caixas de som, a expectativa de que o artista apareceria cresceu rapidamente.

Pouco antes das 19h (horário do Pacífico), Watt, McCartney e a esposa do músico, Nancy Shevell, entraram no ambiente, com Paul McCartney simulando tocar guitarra. “Vamos tocar o álbum e explicar como o fizemos”, disse ele, acrescentando: “Bem-vindos, minha esposa, Nancy.”

E foi exatamente isso que aconteceu. Durante quase 90 minutos, um McCartney extremamente comunicativo mergulhou no processo de criação do disco, começando por como conheceu Watt, o produtor de 35 anos vencedor do Grammy que se tornou um dos nomes mais requisitados por artistas lendários, como The Rolling Stones, Elton John e o falecido Ozzy Osbourne, além de já ter trabalhado com nomes como Justin Bieber, Post Malone e Miley Cyrus.

McCartney contou que encontrou Watt para “tomar um chá”, mas eles imediatamente começaram a improvisar e trocar ideias musicais. “Eu pensei: ‘ok, vamos trabalhar juntos’”, disse. “Às vezes, gosto de encontrar um acorde maluco e ver se isso me inspira”, explicou, pegando um violão acústico atrás dele para reproduzir o acorde. A pequena plateia irrompeu em aplausos, levando McCartney a brincar: “não foi tão bom assim.” A partir daí, eles criaram a faixa de abertura e deram início ao trabalho no álbum, gravado entre Los Angeles e a Inglaterra.

“Quando conheci Andrew, pensei: ‘Ele é meio insistente’”, contou McCartney. “E ele é mesmo, mas é exatamente isso que você quer em um produtor. Você não quer alguém passivo.”

A seguir, estão as faixas do álbum — o primeiro trabalho solo de Paul McCartney desde 2020 — acompanhadas de alguns comentários do artista sobre cada uma. Enquanto as músicas tocavam, McCartney acompanhava quase todas as letras em silêncio ou, às vezes, simulava tocar bateria, enquanto Watt, que habilmente deixava o protagonismo com o músico, frequentemente imitava riffs de guitarra no ar.

A canção que surgiu daquele primeiro encontro para “tomar um chá” foi inspirada na infância de Paul McCartney em Liverpool, na Inglaterra, e em uma garota vizinha. “Eu era realmente apaixonado por uma chamada Jasmine”, disse McCartney, olhando para a esposa e acrescentando: “Desculpa, Nancy.” A faixa começa como um spoken word antes de evoluir para uma melodia doce e depois mais energética, que muda de andamento e se transforma ao longo do tempo. “Será que você pensa em mim quando está deitada?”, ele pergunta. “Quando você está deitada na cama, eu estou aí dentro da sua cabeça?”

O falecido Eddie Klein, que trabalhou com os Beatles no Abbey Road e depois com Paul McCartney em seu estúdio em Sussex, encontrou a faixa que o músico disse não se lembrar de ter escrito ou gravado. Na Inglaterra, “nós produzimos exatamente como na fita cassete”, contou McCartney, e depois levaram para Los Angeles para adicionar guitarras. A música, de andamento médio e pulsante, é um olhar nostálgico para o passado, com versos que lembram que “o tempo faz cada momento contar” e que “você precisa viver o agora”.

O primeiro single, lançado há algumas semanas, é uma referência sentimental e delicada ao passado. “São minhas memórias de Liverpool”, disse McCartney. “Dungeon Lane ficava perto de onde eu morava, eu e George [Harrison]. Eu pegava o ônibus e, na parada seguinte, ele entrava. A gente falava sobre guitarras e rock ‘n’ roll. Tudo estava chegando, tudo estava acontecendo.” McCartney também relembrou suas idas à margem do rio Mersey. “Eu era um grande observador de pássaros”, disse, provocando risos da plateia, que entendeu como uma gíria britânica para observar garotas. “Não”, esclareceu ele, indicando que falava literalmente de aves.

Uma faixa bastante animada, com os vocais de Paul McCartney em primeiro plano e uma produção pop pulsante, antes de mergulhar em uma ponte mais espacial e inventiva. Escrita para e sobre Nancy Shevell, McCartney alterou a letra da terceira pessoa (“ela”) para a segunda (“você”), tornando-a mais pessoal para a esposa. Durante a audição, ele chegou a olhar diretamente para ela enquanto acompanhava versos como “eu te amo mais do que já amei antes”. A música foi gravada na Inglaterra e depois enviada a Andrew Watt para ganhar uma pegada mais dançante.

Produzida com loops de fita, a faixa de atmosfera espacial é narrada do ponto de vista de uma jovem curtindo com amigos em um festival de música. A voz de McCartney soa quase irreconhecível nessa canção onírica, que lembra uma “prima” de “Lucy in the Sky With Diamonds”. Após cantar sobre todos estarem “viajando”, ele acrescenta: “todo mundo está virando/precisa se controlar e ir embora, ou você quer ficar?”. A música, bastante ousada, acelera em um momento psicodélico com guitarras e baterias intensas — e só não soa ainda mais experimental porque vem de alguém que, com seus colegas há 70 anos, praticamente reinventou a linguagem do rock.

Talvez a faixa mais nostálgica do álbum trouxe uma história reveladora sobre quando Paul McCartney costumava pegar carona com George Harrison e John Lennon, muitas vezes viajando com motoristas de caminhão rumo ao País de Gales ou ao sul da Inglaterra, perto de Exeter. Ele lembrou de uma vez em que ele e Harrison estavam no País de Gales e pegaram carona “em um caminhão de leite. George no meio. Ele estava sentado bem em cima da bateria. George pulou”, contou McCartney, encenando a situação. “Ele estava com um jeans com zíper atrás e encostou na bateria! [Depois] ele me mostrou a marca do zíper [que queimou na pele].”

McCartney também brincou com o hábito de Lennon de se descrever como mais pobre do que realmente era. “O John sempre dizia — Deus o abençoe — que era um herói da classe trabalhadora”, antes de acrescentar que Lennon tinha parentes bastante “sofisticados”. “Ringo realmente era de classe trabalhadora. George e eu éramos mais ou menos”, disse McCartney, lembrando de quando ele e Lennon foram de carona a Paris e um parente de Lennon lhe deu 100 libras, que eles gastaram rapidamente.

A canção, charmosa e baseada em violão, conta literalmente a história de McCartney e Harrison se conhecendo no ônibus e depois virando parceiros de carona. “Foi uma boa maneira de te conhecer antes de aprendermos ‘Twist & Shout’”, ele canta.

O álbum traz muitas viradas criativas, mas poucas tão cativantes quanto a criação dessa faixa minimalista. McCartney explicou que, quando a EMI foi comprada pela Thorn Electrical em 1979, o novo proprietário quis se desfazer de equipamentos do Abbey Road (que pertencia à EMI na época).

Paul McCartney adquiriu diversos itens antigos do estúdio, incluindo uma máquina de gravação Studer de quatro canais — usada pelos Beatles em vários clássicos —, o harmônio de “We Can Work It Out” e o spinet de “Because”.

Como a Studer só permitia quatro faixas, os Beatles utilizavam uma técnica chamada “bouncing down”, que consistia em mixar rapidamente duas faixas em uma para liberar espaço. McCartney explicou: “Eu e Ringo ficávamos no baixo e na bateria, ocupando duas faixas, e depois juntávamos tudo em uma só. Tinha que acertar de primeira, porque não dava para voltar atrás.” Na Inglaterra, Watt e McCartney compuseram a delicada canção de amor “We Two” para gravar na Studer, utilizando essa técnica. “Temos um orgulho especial da caixa da bateria”, disse McCartney sobre a faixa, que termina com o som sendo reproduzido ao contrário.

Uma das músicas mais voltadas ao rock fez a plateia bater palmas, enquanto McCartney deu pouca explicação. “É basicamente um rock. Não há muito o que dizer. Só toca”, disse a Watt, que operava as faixas no laptop. A música traz a mensagem: “Abra sua mente/abra seu coração/nada mais está nos mantendo separados.”

“Isso soa bem”, comentou McCartney, concordando com a reação do público.

“Eu estava na Califórnia. Sempre gostei daquela vibe de Laurel Canyon dos anos 70. Estava tocando violão tentando chegar nesse clima. Essa é a minha tentativa de fazer isso”, disse Paul McCartney sobre a faixa densa e pesada, que depois incorpora um clarinete antes de voltar ao peso — com o vocal lembrando levemente John Lennon.

Fãs dos Beatles vão se empolgar com essa faixa nostálgica que conta com Ringo Starr na bateria e com ele e Paul McCartney alternando os vocais verso a verso enquanto cantam sobre crescer. Mas a música não surgiu sem confusão, explicou McCartney.

“Eu encontrei o Ringo e disse que estava trabalhando com esse cara, o Andrew. O Ringo foi até o estúdio do Andrew e tocou um pouco de bateria”, explicou Paul McCartney, acrescentando que, depois disso, houve alguns desencontros. Ringo Starr achou que já tinha contribuído o suficiente para que Andrew Watt construísse uma música, mas acabou ficando “um pouco irritado”, segundo McCartney, quando percebeu que não era o caso. McCartney gostou muito do que Starr havia feito e decidiu criar uma canção em torno da ideia de crescer em Liverpool. “Mesmo que o lugar onde vivíamos fosse um pouco difícil, era o nosso lar”, disse.

McCartney enviou a demo para Starr e pediu que ele cantasse na faixa, mas, por um mal-entendido, Starr gravou apenas o refrão, levando McCartney a pensar que ele não havia gostado da música. Depois, eles conversaram e esclareceram tudo, e Starr voltou ao estúdio, adicionou mais bateria e os dois transformaram a faixa em uma colaboração de fato.

“O Ringo nunca fez um dueto com um dos Beatles”, disse McCartney, rindo. Não por acaso, trata-se provavelmente da música mais “beatle-esque” do álbum, com mudanças de andamento, variações de tonalidade e vocais em camadas, com participações de Chrissie Hynde, do Pretenders, e Sharleen Spiteri, do Texas.

Uma doce canção de amor escrita durante o isolamento da COVID-19, período em que McCartney e Shevell passaram ao lado da sobrinha dela, do marido e do bebê recém-nascido. “Foi muito bom. Todos os dias, [Nancy] perguntava se podia acordar o bebê”, contou McCartney, pegando novamente o violão. Com os aplausos da plateia, ele riu: “Eu ainda não fiz nada! Deixa eu tentar de novo.” O público voltou a aplaudir, levando Paul McCartney a murmurar, bem-humorado: “patético.”

Ele demonstrou como criou uma melodia suave e deixava o bebê dedilhar as cordas, o que levou a sobrinha de Shevell e o marido a dizerem que “é a nossa música”. Simples e afetuosa, a faixa busca transmitir esperança para o futuro. “Eu gosto dessa música”, disse após ouvi-la. “Traz lembranças muito boas.”

Paul McCartney estava em turnê na Costa Rica e tinha um dia de folga, que pretendia passar à beira da piscina, coberto de protetor solar. Mas choveu durante a maior parte do dia. Então, decidiu compor e criou “Star”, outra faixa otimista. “A primeira estrela da noite é sempre especial quando você a vê”, disse. “Sempre me dá um pouco de esperança.” A canção acústica, doce e melódica, reforça a ideia de que “sei que meu pequeno mundo ainda está bem” ao ver a primeira estrela surgir.

Outra faixa extremamente autobiográfica mostra McCartney escrevendo sobre seu pai, James, o “vendedor” da história, e sua mãe Mary, a “santa” do título, que era enfermeira e parteira. O casal se conheceu durante a Segunda Guerra Mundial, e o pai de McCartney também atuava como bombeiro, combatendo incêndios causados pelos bombardeios alemães.

“Nós nos mudamos para fora de Liverpool, com nossos pais garantindo que eu e meu irmão, Mike, ficássemos bem”, disse Paul McCartney, elogiando a resiliência da geração de seus pais em tempos difíceis. A faixa começa com trompete e evolui para uma sonoridade mais pesada, com mudanças de compasso e a mensagem de que “eles não aguentavam mais, mas precisavam continuar”.

A faixa de encerramento começa como uma balada dramática ao piano, que cresce com cordas e orquestra. “Às vezes, ao escrever uma música, você não recorre à memória, você inventa”, disse Paul McCartney, citando “Lady Madonna”. O mesmo vale para “Momma Gets By”, que abre com os versos “Mamãe se vira, enquanto papai se perde”. Mesmo com o pai sendo um peso, a mãe o ama “de todo o coração”, enquanto lutam para colocar comida na mesa. McCartney canta sob a perspectiva do filho do casal, mas reforça que a história não é sobre seus próprios pais.

Após o fim da apresentação, Paul McCartney observou que não há um tema único dominante no álbum (embora a nostalgia apareça com frequência) e admitiu ter se preocupado com a falta de coesão. “Aí você lembra dos álbuns dos Beatles. A gente não se preocupava com isso”, disse, com um leve sorriso.

[Este conteúdo foi traduzido e adaptado da Billboard. Leia o texto original, em inglês, aqui]