Mulheres no funk: ‘A periferia ainda é o celeiro’, diz Renata Prado
Em entrevista à Billboard, ativista debate espaço das mulheres no funk

Renata Prado no WME 2026
O movimento funk vive um momento de forte expansão, mas o equilíbrio de gêneros nos charts e palcos ainda enfrenta grandes abismos. Quem faz esse alerta é Renata Prado, pedagoga formada pela Unifesp, curadora, dançarina e uma das principais pesquisadoras e ativistas da cultura periférica no país. Idealizadora da Frente Nacional de Mulheres no Funk, coletivo que busca articular políticas e dar visibilidade às produções femininas, ela tem dedicado sua trajetória a mapear e fortalecer o espaço das minas na música urbana.
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Em junho, ela levou toda essa bagagem para a décima edição do Women’s Music Event (WME), importante plataforma que discute o protagonismo feminino na indústria, onde, além de mediar um painel focado nas transformações e caminhos do mercado, conversou com a Billboard Brasil.
Em entrevista concedida diretamente nos bastidores do evento e publicada em celebração ao Dia do Funk, a ativista compartilhou suas visões e expectativas para a cena. Ao analisar o panorama atual do movimento das mulheres no funk, a ativista pondera que a realidade mudou em relação aos anos anteriores, embora o cenário ideal ainda esteja distante.
Ela avalia que a cena do movimento funk hoje tem a presença de muitas mulheres e está bem diferente. No entanto, o domínio dos homens nos rankings das plataformas de streaming e em charts de destaque, como o próprio Billboard Hot 100, expõe a necessidade de transformações estruturais. “Quando a gente compara com números de presença masculina, percebemos que ainda assim falta mais presença feminina”, ressaltou.
Diante dessa disparidade de gênero na indústria e nos palcos, seu trabalho de pesquisa e militância atua como uma ferramenta de intervenção direta. “Na minha condição de pesquisadora, curadora, dançarina e ativista do movimento funk, eu busco fazer um trabalho para trazer mais mulheres, para emancipar a história dessas mulheres e colocar essas mulheres como protagonistas desse movimento, desse cultura”, pontuou. Segundo ela, a expressão artística periférica é um reflexo profundo de suas vivências e subjetividades enquanto mulheres. “Se a gente está aqui, a gente precisa falar sobre”, completou.
A evolução dos debates de gênero na música também passa por iniciativas consolidadas, como o próprio WME enquanto conferência e prêmio, que pauta as mulheres como protagonistas do mercado. Avaliando a trajetória histórica do evento que a acolhia naquele momento, a pesquisadora enxerga avanços importantes na descentralização da pauta. “Hoje o prêmio está muito mais diverso e vejo que ele está se expandindo cada vez mais”, analisou. Para ela, é fundamental que o olhar do mercado se aproxime de quem cria as tendências na base da pirâmide cultural. “É muito importante que siga se expandindo, sobretudo se aproximando da periferia, porque o celeiro da arte urbana ainda é a periferia”.
A expansão desejada para as próximas décadas deve, segundo ela, abraçar toda a complexidade e a cadeia produtiva que mantém o ritmo vivo e pulsante no cotidiano das comunidades. “É olhar para o funk e olhar para as representatividades que se tem dentro do movimento funk enquanto categoria também: mulheres MCs, DJs, dançarinas, produtoras e pesquisadoras, que formam um universo muito grande”, defendeu.
Para a ativista, o reconhecimento institucional é um passo indispensável para consolidar o crescimento dessas trabalhadoras da arte urbana. “Esse prêmio é muito importante para a presença das mulheres na indústria e na cultura, mas é possível sim se expandir cada vez mais. Se a cultura está crescendo, o prêmio também tem que crescer junto”, concluiu à Billboard Brasil.
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