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Mais que uma conferência, uma egrégora: por dentro dos bastidores do WME 2026

A Billboard Brasil foi conferir o evento na sexta-feira (19)

WME 10 (reprodução Instagram)

WME 10 (reprodução Instagram)

Se fosse preciso definir o que o Women’s Music Event (WME) é em uma palavra, com certeza seria egrégora. O maior ponto de encontro de talentos femininos da música no Brasil é muito mais que debates, oficinas, shows e networking. Trata-se de um campo vibrante que soma forças mentais, físicas e emocionais de mulheres conectadas. E acredite: é possível atestar isso quando você pisa na Biblioteca Mário de Andrade, no centro de São Paulo, casa oficial da conferência.

A edição deste ano comemora os dez anos de existência do WME, com uma programação que começou na quinta-feira (18) e segue até domingo (21).

O poder e a influência do WME na cena nacional

A jornada começou na quinta-feira (18), na Heavy House, com o debate sobre o fenômeno do rock doido, do treme e das raízes rítmicas de Belém do Pará, liderado por Keila Treme, um dos maiores expoentes do tecnobrega e das aparelhagens. A noite também foi embalada pelas performances de Nina Maia, Anny B, Cremosa Vinil e Mari Rossi.

Já na sexta-feira (19), a programação entregou pelo menos 15 bate-papos distribuídos por cinco espaços diferentes. No auditório, conversas sobre curadoria, políticas públicas e narrativas com liberdade criativa geraram reflexões impactantes, além de abrigar a audição comentada do disco “Esgotada”, de Tiê.

Na Sala Oval, Monique Gargenberg detalhou seu papel na vanguarda da escalação de festivais; a cantora Tássia Reis abordou a visão 360 graus de sua carreira e, claro, o funk teve seu merecido destaque. O gênero que mais cresce no mundo foi pauta para um diálogo riquíssimo com Gabriela Caramigo (Beatport), Alana Leguth (Kondzilla, Hervolution), Izabel Marigo (ONErpm), Mayara Almeida e Renata Prado.

Entre as oficinas práticas, os temas transitaram por planejamento estratégico, booking, venda de espetáculos, composição e arranjos. Houve também espaço para captação de recursos via editais e leis de incentivo, além das melhores táticas para canais no YouTube. O formato speed meeting garantiu oportunidades de ouro, permitindo que artistas selecionadas apresentassem seus trabalhos para executivas de peso do mercado, como Cleusa López (Tratore), Gisela Alves (ONErpm), Veronica Pessoa (The Orchard) e Julia de Camillo (Virgin Music).

As Donas do Backstage

Um dos painéis que mais chamou atenção foi comandado pelo jurídico do entretenimento. Sylvia Gomes (DC7), Etienne Di Stasi (Live Nation), Danielle Burd (30e) e Mara Natacci deram uma verdadeira aula sobre o que acontece por trás das cortinas. As profissionais relataram os imensos desafios que o setor enfrenta para efetivamente colocar uma turnê de pé. Da montagem inicial à contratação de mão de obra, existe uma lacuna gritante na legislação. A ausência de regras próprias para o mercado de eventos é um gargalo histórico que dificulta a realização de grandes produções no país.

Olhar 43

Outro formato que estreou nesta edição e já pede lugar cativo no cronograma foi o “Olhar 43”, uma dinâmica de audição aberta no meio da plateia. Nomes consagrados como Roberta Martinelli, Monica Brandão, Tulipa Ruiz, Karol Conká e Monique Dardenne escutaram sete faixas de diferentes cantoras e produtoras de todo o país, oferecendo análises construtivas sobre o que funcionava ou não em cada composição. A organização disponibilizou um formulário prévio para o cadastro de obras inéditas. De 30 submissões, sete ganharam as caixas de som em um momento de pura conexão coletiva.

O espaço estava tomado por pessoas entregues à escuta ativa. “É muito bom ouvir assim, com atenção. Faz tempo que nós não fazemos isso. Está sendo incrível ouvir essas faixas junto com vocês. Todo mundo está aqui parado, somente para isso: ouvir música. Que momento! Acho que devemos manter isso nas próximas edições”, celebrou Monique Dardenne, uma das fundadoras da iniciativa ao lado de Claudia Assef, que concordou prontamente. O público partilhou da mesma intensidade: dançou, vibrou, elogiou, gritou e sentiu a catarse de um espetáculo ao vivo enquanto descobria novos talentos.

Outra inovação foi a sala imersiva, que contou com performances das DJs e produtoras Mari Rossi, Anazú e Paula Chalup, entregando uma experiência sensorial profunda para quem passava pelo local.

Shows gratuitos no coração da cidade

Mantendo sua essência democrática, o festival proporciona cultura acessível. Com um line up poderoso, o projeto promoveu mais uma rodada de apresentações abertas na Praça Dom José Gaspar. Sem a necessidade de ingressos, bastava encostar para prestigiar a força da cena nacional.

Na sexta-feira (19), os vocais ficaram sob a responsabilidade de Catto e Bruna Black. Já no sábado (20), a banda The Mönic assumiu os instrumentos, convocando Raidol e MC Taya, seguidas pela atitude do grupo Mercenárias. No domingo (21), data de encerramento, o flow de Stefanie, madrinha da conferência deste ano, é a grande coroação do fim de semana, com o reforço do DJ set de Vivian e do estrondo de NandaTsunami.

Ao final de tantos debates, imersões e descobertas sonoras, fica evidente que a força motriz do Women’s Music Event reside justamente na egrégora mencionada logo no início. Muito além das planilhas de negócios ou das estruturas montadas nas praças de São Paulo, o campo vibratório criado por essas profissionais reafirma que o futuro da indústria é, e precisa ser, coletivo. É essa junção visceral de ideias e paixão pela arte que mantém a engrenagem rodando, garantindo que a energia vivenciada nesses quatro dias ressoe pelo mercado durante o ano inteiro.