Marcelo Castello Branco no SXSW 2026: ‘A IA mexe no mais sagrado da música’
Presidente da UBC comenta a urgência por regulação

Camila Zana e Marcelo Castello Branco, presidente da UBC, no podcast Cabos & Cases / BillboardBR
Direto do SXSW 2026, em Austin, Marcelo Castello Branco, presidente da UBC (União Brasileira de Compositores) e um dos nomes mais influentes da indústria musical brasileira, ajuda a traduzir um momento de virada para a música global. Em conversa com a CMO Camila Zara para o Cabos & Cases, podcast da Billboard Brasil, ele aponta que a indústria vive hoje sua transformação mais profunda e, talvez, mais delicada.
“A gente já se adaptou a mudanças de formato, de distribuição. Mas agora a ruptura vem na criação, que é o mais sagrado de todo o processo.” A fala sintetiza o espírito do SXSW neste ano. Se em edições recentes a inteligência artificial era tratada como ferramenta – produtividade, eficiência, inovação – agora o debate mudou de lugar. A pergunta já não é mais como usar, mas como equilibrar.
Em sua segunda passagem pelo festival, Castello Branco descreve o SXSW como um espaço onde o inesperado é parte essencial da experiência. “Eu tento me planejar, mas também gosto de me deixar surpreender. Aqui você encontra pessoas muito interessantes, que estão mais abertas, mais disponíveis, e isso gera conexões que depois viram negócios.”
Essa mistura de encontros, ideias e áreas – música, tecnologia, ciência, educação – é, para ele, o que define o evento. “Tudo interage, tudo tem a ver com tudo.” No meio dessa convergência global, Castello Branco vê o Brasil em um ponto decisivo. Especialmente na música. “Está mais do que na hora do Brasil reivindicar a sua importância dentro do cenário global.”
Os números ajudam a explicar esse otimismo. O país está entre os maiores mercados do mundo e tem uma característica rara: cerca de 75% do consumo de música no Brasil é de artistas locais. Mas, segundo ele, a força interna precisa agora se traduzir em presença internacional. “Vejo uma nova geração de artistas disposta a dialogar com o passado, mas com uma visão de futuro. Construindo carreira com coerência, com menos pressa, abrindo mão de ganhos imediatos por algo maior.”
Se no século passado a música brasileira ocupou o mundo com a bossa nova e nomes como Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque, agora o movimento é outro: mais distribuído, mais diverso, mais conectado. Um dos pontos que ele reforça é a necessidade de circulação – física e simbólica. “Não dá para ficar esperando. Tem que sair, dialogar, trocar.”
Para Castello Branco, o Brasil ainda carrega um certo isolamento, especialmente em relação à América Latina. Historicamente, houve distanciamento – seja pelo idioma, seja por uma percepção equivocada de autossuficiência. “A música brasileira não é melhor, é diferente. E essa troca com outros mercados só a enriquece.” Hoje, esse cenário começa a mudar, com mais colaborações, mais intercâmbio e mais abertura para o mercado latino, que vive um momento de forte protagonismo global.
IA: a ruptura inédita
Mas o grande tema da vez – no SXSW e fora dele – é a inteligência artificial. E aqui, segundo Castello Branco, a diferença é estrutural. “Todas as outras transformações na indústria da música aconteceram no formato ou na distribuição. Essa é a primeira vez que a mudança vem também na criação.”
Isso significa que o impacto é direto sobre o núcleo da indústria: composição, autoria, propriedade intelectual. Hoje, ferramentas de IA são treinadas com obras existentes, muitas vezes sem autorização ou remuneração. E a legislação ainda não acompanha a velocidade da tecnologia. “A inovação chega antes. A regulação vem depois.”
Diante disso, a UBC, junto a entidades internacionais como a CISAC, tem atuado globalmente para construir um novo marco regulatório que proteja criadores sem frear a inovação. “Não somos contra a inovação. A gente sabe que vai se adaptar. Mas ela precisa ser justa.”
O cenário, claro, ainda é incerto. Processos correm em diferentes países, discussões avançam em velocidades distintas e modelos de remuneração ainda estão sendo testados. “Esse é o assunto mais importante das nossas vidas hoje”, afirma. Para ele, não existe solução pronta, e o caminho passa por negociação. “A gente vai ter que sentar, conversar, negociar. Ninguém tem ainda a fórmula.”
Se há um ponto de consenso – ou pelo menos de direção – é a necessidade de preservar o papel humano nesse novo cenário. No próprio SXSW, a mudança de discurso já começa a aparecer: menos euforia tecnológica, mais reflexão. “Qualquer coisa que a gente faça tem que colocar o ser humano em primeiro lugar.”
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