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Gabriel David leva visão de futuro da Sapucaí ao SXSW 2026

Presidente da Liesa deu entrevista ao podcast Cabos & Cases, da Billboard Brasil

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Camila Zana e Gabriel David, presidente da LIESA, no podcast Cabos & Cases / BillboardBR

Em Austin para sua primeira participação no SXSW, Gabriel David não foi apenas acompanhar de perto as discussões sobre inovação, inteligência artificial e economia criativa. Presidente da Liesa (Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro) ele desembarcou no festival com uma pergunta muito concreta na cabeça: como fazer o Carnaval do Rio continuar evoluindo sem perder aquilo que o torna único.

A resposta, ao que tudo indica, passa por pensar a Sapucaí menos como um evento de alguns dias e mais como uma plataforma cultural viva, com presença anual, vocação internacional e novas formas de circulação. “O SXSW traz muito essa ideia de a gente estar evoluindo em vários sentidos, mas como é que a gente olha para o amanhã e já se prepara para estar sempre no próximo passo”, disse ele, em entrevista à Camila Zana ao Cabos & Cases, podcast da Billboard Brasil, gravado na SP House durante o festival norte-americano.

Gabriel chegou a Austin movido por dois interesses centrais. O primeiro, mais amplo, é entender o mundo “pós-AI” e os impactos dessa tecnologia em diferentes esferas. O segundo é mais estratégico: imaginar de que forma o Carnaval pode ocupar espaços como o SXSW e ser apresentado globalmente também como símbolo máximo da criatividade brasileira. 

“Como é que a gente pode trazer uma pitadinha de Carnaval de alguma forma no ano que vem aqui? Acho que seria muito importante, não só para o Carnaval, mas para o Brasil também, mostrar num festival de inovação, de criatividade, o que de mais criativo nós temos.”

A fala resume bem o momento que Gabriel tenta construir para a festa na Sapucaí: um Carnaval que preserva sua dimensão comunitária e humana, mas se organiza cada vez mais como produto cultural sofisticado, competitivo e exportável.

Como a IA já é usada no Carnaval do Rio

Esse raciocínio aparece também quando ele fala sobre inteligência artificial. Gabriel afirma que, pela própria essência do Carnaval, a adoção da tecnologia precisa ser cuidadosa. “O Carnaval é de fato feito pela junção de pessoas, de seres humanos”, disse. Ainda assim, a IA já entrou em processos práticos da operação, especialmente no combate ao cambismo, com mecanismos usados dentro da plataforma de vendas para identificar padrões suspeitos de compra. Ao mesmo tempo, ele citou usos artísticos da tecnologia, como no desfile campeão da Viradouro em 2026, que recorreu à recriação de imagens de pessoas que já morreram em uma homenagem na avenida.

Mais do que aderir à novidade pela novidade, Gabriel diz estar interessado no debate sobre limites. Para ele, a questão central já não é apenas como usar IA, mas como garantir que os ganhos tecnológicos não desorganizem valores humanos, culturais e sociais. É um discurso que ajuda a entender o tipo de modernização que ele vem defendendo para o Carnaval: inovação aplicada com propósito, e não como ornamento.

Essa visão se conecta a outro eixo central da conversa: a internacionalização do Rio Carnaval – marca criada por ele à frente da Liesa. Gabriel afirma que o evento vem registrando crescimento consistente de presença internacional nos últimos anos. Segundo ele, a plataforma oficial de vendas registrou compradores ou convidados de 159 países em 2024, 180 em 2025 e 188 países em 2026, o equivalente a 96% dos países do mundo. Para ele, os números confirmam que o interesse global pelo Brasil e pelo Carnaval atravessa um novo patamar.

“Eu acho que o Brasil está na moda em todos os sentidos”, afirmou. Na leitura do presidente da Liesa, o país vive um momento em que sua imagem externa está mais associada à felicidade, à receptividade e à potência cultural. O Carnaval, diz ele, não apenas surfa essa onda como ajuda a ampliá-la.

Ao longo da entrevista, Gabriel também insistiu em um ponto que considera decisivo para o entendimento internacional da festa: o desfile das escolas de samba precisa ser compreendido como competição e como obra de arte irrepetível. “Aqueles 80 minutos de desfile são uma obra de arte que nunca mais vai acontecer de novo”, disse. “Só quem está ali vai ter realmente a experiência completa.”

No plano prático, essa ambição vem sendo acompanhada por mudanças que tentam expandir a experiência para além da avenida. Gabriel citou iniciativas como a ocupação de Copacabana com a Fan Fest e a Capital do Carnaval, o fortalecimento das quadras, a ampliação dos ensaios e, pela primeira vez, a realização de ensaios de rua por todas as escolas do Grupo Especial. O próximo passo, segundo ele, é tornar esse ciclo de preparação mais visível para o mundo, especialmente por meio de investimento em conteúdo digital e na expansão do YouTube do Rio Carnaval.

Há também um horizonte mais estrutural. Gabriel aponta o entorno do Sambódromo como uma das grandes frentes para os próximos anos. Ele menciona discussões em torno das obras lançadas pela Prefeitura do Rio e fala em mudanças capazes de transformar radicalmente a experiência do espaço entre três e cinco anos. Entre as ideias em curso estão um boulevard do samba e uma biblioteca dos saberes, com atividades culturais permanentes, preservação de memória e novos pontos de visitação.

A lógica é simples: se o Sambódromo já está entre os lugares mais visitados da cidade, ele precisa deixar de ser apenas cenário de foto e passar a funcionar como polo ativo de cultura durante o ano inteiro. “A gente quer criar mais coisas ali para que aquilo ali realmente vire um ponto de visitação. Vai ser muito interessante”, afirmou.