KAYTRANADA: quando Gal Costa voltou para casa pela mão de um canadense
DJ e produtor musical se apresentou em São Paulo nesta sexta-feira (14)

KAYTRANADA (Jef Delgado)
Sexta-feira, 14 de agosto, e parecia que São Paulo inteira tinha combinado de ir no mesmo sentido. Mooca. Ruas de galpão, avenida industrial, aquele pedaço da cidade cheio de festas e muito trânsito de embarque e desembarque dos baladeiros — e que naquela sexta virou o único endereço que importava. O Komplexo Tempo recebia KAYTRANADA, e dava para sentir isso pela rua antes mesmo de chegar na porta.
O canadense tem uma relação com o Brasil que não se explica só pelo número de streams. Existe uma reciprocidade ali. Ele chega e o público responde de um jeito que não é o de quem foi ver um DJ internacional passar pela cidade; é o de quem foi encontrar alguém.
Uma hora e meia cravada. Entrou pontualmente às 1h30, como estava previsto, e saiu às 3h. Nada de atraso de headliner, nada de esticar por esticar. Uma hora e meia cravada — e cheia.
O set foi uma viagem pela própria obra. Passando pelos seus clássicos, foi e voltou na discografia com a naturalidade de quem conhece cada faixa como território. Mas o que mais me chamou atenção não foi o repertório. Foi ele.
KAYTRANADA dançou o set inteiro. Não é figura de linguagem: dançou, atrás de quatro CDJs, saudando São Paulo, olhando para a pista, respondendo à pista. Existe uma escola de DJ que trata a cabine como sala de controle, o sujeito de cabeça baixa resolvendo um problema técnico diante de 10 mil pessoas. Ele faz o oposto. A técnica está toda lá — quatro CDJs não são setup de quem está passeando —, mas ela trabalha em silêncio, embaixo. Por cima fica o corpo. O dele e o de todo mundo.
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A casa estava lotada. E era um público específico: muitos DJs, muita gente da indústria da música, muita gente que vive de música e que naquela noite tinha ido como ouvinte. Isso diz alguma coisa. Quando quem faz vai assistir, é porque tem coisa acontecendo. No fim, ovacionado.
O ponto onde o circuito se fecha quando ele toca LITE “SPOTS”.
Ouvir aquilo tocando em São Paulo, numa madrugada de agosto, num galpão da Mooca, foi outra coisa. Não é o público reconhecendo um hit internacional. É o público reconhecendo algo que saiu daqui, deu a volta ao mundo e voltou irreconhecível — e mesmo assim reconhecido. A pista respondeu antes de identificar a citação. O corpo sabe antes da cabeça.
O que a gente exporta sem perceber
É isso que fica na cabeça no dia seguinte.
A música brasileira alcança o estrangeiro por uma via que não passa por tradução. Ele pode não entender uma palavra da letra, pode não fazer ideia do que Gal está cantando, do que aquilo significava no Brasil de 1969, de quem ela era. Não importa. O que atravessa é a sonoridade — o arranjo, a levada, o timbre, a maneira como a coisa foi gravada.
E isso é uma riqueza que a gente subestima por convivência. A gente cresce ouvindo, acha que é paisagem, que é normal. Não é. É um repertório que produtores do mundo inteiro garimpam há décadas, justamente porque tem uma densidade que não se fabrica. Gal Costa é um caso. Existem centenas de outros, muitos ainda por serem descobertos por alguém como KAYTRANADA.
Uma noite de sexta na Mooca, uma hora e meia de set, quatro CDJs e uma faixa de 2016 bastaram para lembrar disso.
O legado sai. E, de vez em quando, volta para dançar em casa.
Ouça KAYTRANADA

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