Como DJs viraram os ‘camisa 9’ do funk
Leia a coluna especial para o Dia Nacional do Funk

Badsista é um dos talentos do funk atual (Divulgação)
No futebol, o camisa 9 é o centroavante clássico. Aquele jogador que se posiciona estrategicamente, estuda a zaga adversária, recebe o passe e, com um toque preciso de pura genialidade, empurra a bola para o fundo da rede. Se o funk brasileiro hoje joga um campeonato mundial, os DJs e produtores assumiram de vez essa mística posição. Eles são os atacantes que pegam a riqueza cultural das periferias brasileiras, cruzam os oceanos e marcam gols históricos em pistas de dança que sequer arranham o português.
Neste Dia do Funk, 12/7, celebrar o gênero é, fundamentalmente, celebrar a figura que, de trás das picapes, dita o ritmo da exportação da nossa identidade. Se em décadas passadas o funk dependia quase que exclusivamente da imagem do MC para romper barreiras, o jogo mudou. Na atual dinâmica das festas internacionais, o beat viaja mais rápido do que a palavra e os DJs se tornaram os verdadeiros correspondentes da nossa música.
Não é preciso entender as gírias do Rio de Janeiro, de São Paulo ou de Belo Horizonte para sentir o impacto físico de um grave bem regulado. DJs como BADSISTA há anos mostram na Europa e nas Américas como o funk dialoga perfeitamente com o techno, house e o experimentalismo eletrônico global.
Na mesma linha de ataque, DJ Th4ys e Caio Prince espalham a cultura dos fluxos de rua paulistas por festivais renomados e clubes de prestígio no exterior. Eles levam a estética do ritmo envolvente e do grave dinâmico de forma cirúrgica, convertendo públicos que nunca pisaram no Brasil em torcedores fanáticos do nosso som.
E quando falamos do improviso genial, o drible desconcertante do funk atual tem nome: DJ Ramon do Sucesso. O produtor belford-roxense virou uma sensação internacional ao desfragmentar o funk, usando distorções e estéticas que desafiam as estruturas convencionais e atraem os olhares dos maiores pesquisadores de música eletrônica do planeta. Ao lado deles, uma legião de novos produtores circula mensalmente por Berlim, Londres, Nova York e Tóquio.
Essa circulação intensa dos nossos camisas 9 nas pistas internacionais não é apenas uma percepção de quem frequenta festivais; é um fato consolidado em dados de mercado. Segundo o relatório anual Loud & Clear, divulgado pelo Spotify, o funk brasileiro foi o gênero mainstream que mais cresceu globalmente, registrando uma impressionante alta de 36% em receitas e geração de royalties na plataforma.
Países como a Alemanha, por exemplo, têm apresentado um consumo explosivo do funk brasileiro, impulsionado pela curadoria de DJs locais e internacionais que incluem as produções em seus sets, como o Baile Cria, festa voltada especificamente para o ritmo, que têm reunido um público diverso na capital alemã.
O funk já deixou de ser uma promessa internacional há muito tempo; virou realidade de mercado e referência de produção. Quando um DJ brasileiro assume os toca-discos em uma noite europeia e solta um ponto de funk, ele está fazendo exatamente o papel do centroavante que recebe na área: ele domina a atenção do público, dribla o preconceito estrutural e crava a bandeira da cultura periférica no topo do mundo.

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